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Ciro Gomes na ASSUFOP: Considerações de uma feminista

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No último dia 16 de Abril estive representando a União Brasileira de Mulheres no 1 0 Ciclo de Debates: Brasil em Foco, que está sendo promovido pela Associação dos Servidores da UFOP com os pré-candidatos à Presidência do Brasil. Nesta primeira edição esteve presente o presidenciável Ciro Gomes (PDT-CE).

Indiscutivelmente, Ciro Gomes possui uma longa trajetória política e ocupou altos postos de decisão no país. Foi deputado estadual por duas legislaturas no Ceará, Prefeito de Fortaleza com alto índice de aprovação, Governador do Ceará, Ministro da Fazenda do Governo Itamar Franco (durante a implantação do Plano Real) e Ministro da Integração Nacional no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (tendo papel decisivo na transposição do rio São Francisco). Foi candidato à presidência em 1998 e 2002. Ciro Gomes é um político muito preparado e sabe lidar com plateias, por além de político, ter sido professor.

Apesar disso, Ciro dedicou a maior parte de seu tempo a uma análise da conjuntura e apresentou com poucos detalhes suas propostas. Ao final, respondeu algumas perguntas selecionadas dos presentes, tirou fotos e foi comer a tradicional coxinha do Barroco.

Em sua palestra apresentou grande desenvoltura e conhecimento da história dos ciclos econômicos de nosso país e apresentou à plateia conceitos da política, bem como de micro e macro economia, a saber: (neo)liberalismo, marxismo-leninismo, Keynesianismo, estado de bem-estar social, política cambial, política de juros, inflação, entre outros. Também mostrou amplo conhecimento da geopolítica mundial e de como a conjuntura global se relaciona com a política e  economia brasileira.

Apesar de tecer diversas críticas ao Partido dos Trabalhadores e à Lula, Ciro por diversos momentos evitou ser colocado como um antagonista, inclusive sinalizando que está disposto a dialogar. Em determinado ponto de sua fala, ele relembra a Frente Ampla que se formou no processo de transição de Ditadura Militar para a reabertura democrática, culminando Diretas Já.

O mote central de sua campanha é a contraposição ao nosso modelo de economia baseado na exportação de comodities (ele elenca os produtos tradicionais, como minério de ferro e soja) através do desenvolvimentismo, que Ciro denomina projeto nacional de desenvolvimento. Em síntese, seria um somatório de esforços, através de um pacto entre o setor produtivo (indústria nacional), trabalhadores e o governo, que confrontar o rentismo e a especulação financeira (o Brasil possui a 5a maior concentração bancária do mundo).  Ciro também defende uma nova reindustrialização baseada na indústria 4.0 e defende a soberania nacional através de alguns pilares: a defesa petróleo, da indústria naval e aeronáutica, farmacêutica e da construção civil.

Ao final, tive a sorte de ter minha pergunta escolhida entre as muitas colocadas pelo público. Perguntei sobre quais seriam suas propostas no que tange à igualdade de gênero, através da autonomia econômica das mulheres e do enfrentamento das violências estruturantes das quais nós mulheres somos vítimas. Entretanto, a resposta foi evasiva e o presidenciável se limitou a falar sobre violência física, fazendo uma breve abordagem sobre a correlação dos problemas sociais com a violência, inclusive a violência de estado.  A meu ver, o candidato transpareceu ter limitada compreensão sobre o papel das mulheres na transformação da sociedade. Algumas mulheres demonstraram decepção com a resposta.

Ciro Gomes é taxado como machista por parte dos eleitores, por uma declaração que deu em sua campanha de 2002. Ao ser questionado sobre qual seria o papel de sua então esposa Patrícia Pillar, respondeu: “A minha companheira tem um dos papéis mais importantes, que é dormir comigo. Dormir comigo é um papel fundamental”. Ao perceber que teria cometido uma gafe no evento, lotado de profissionais da imprensa, Ciro -visivelmente envergonhado- reformulou a resposta. Desde então esta pecha lhe persegue. Isso é algo comum na política: Rótulos para desqualificar as pessoas em vez de debater suas ideias.

Por isso, entendo que para que dialogue ainda mais com setores progressistas, sua candidatura deverá ampliar o debate para além da questão meramente econômica, pois este economicismo estreito já demonstrou ser um modelo falido. Nós mulheres somos mais de metade da população e do eleitorado. Já passou da hora dos políticos e partidos compreenderem isso não apenas nas falas, mas também nas ações e políticas públicas.

Apesar disso, entendo que Ciro Gomes em sua palestra reforçou sua importância e grandeza, que infelizmente tem sido desconsiderada por uma parte do Partido dos Trabalhadores. Ciro demonstrou claramente ser um político amadurecido, que já deu grandes contribuições para o país. Por isso, aguardamos ansiosas a desenrolar de sua aproximação efetiva aproximação com campo progressista através de uma Frente Ampla que seja capaz de derrotar os setores entreguistas e destruidores da soberania nacional.

Finalmente, gostaria de parabenizar à Assufop pela importante iniciativa, que num momento caótico da história de um país em golpe de estado, busca trazer aos munícipes mais informações que possam embasar seu possível voto (o temor que não haja eleições diretas ainda me consome).  Já estamos na espera dos próximos presidenciáveis.

Porque lugar de mulher é onde ela quiser!

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1 comentário
  1. Lu Cas Diz

    Muito bom o texto, uns dos mais imparciais que já li!
    Só faltou um dado interessante sobre os governos do Ciro Gomes: Ainda na década de 90, quando era governador do Ceará, metade das secretarias de governo era comandada por mulheres! Então, no meu ver, ele valoriza sim as mulheres e demonstra com ações isso.
    Abraço e ótimo trabalho

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