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sábado, 10 dezembro 2022

Pedro Luiz Teixeira de Camargo
Pedro Luiz Teixeira de Camargo
Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe) é Biólogo e Professor, Dr. em Ciências Naturais e Docente do IFMG.

Carta Aberta aos Estudantes do IFMG

Prezado(a) estudante, como já deve saber, estamos de greve. Isso significa que não teremos as nossas aulas esta semana e só voltaremos a ter ao fim do movimento grevista.

Sei que o movimento paredista causa transtornos, mas essa é a única forma de negociação que o governo nos deu ao se negar a sentar conosco para negociar (esse é um dos motivos que nossa greve é legal), ficou apenas soltando nos jornais que ia dar aumento de 5% sem fazer a proposta real ao sindicato.

Estamos a mais de 5 anos sem reajuste salarial, a inflação do período corrói o nosso poder de compra, nos colocando em uma situação muito complicada, veja bem, não estamos pedindo aumento, estamos pedindo reajuste, ou seja, queremos de volta o que foi perdido no período por conta da inflação, nada mais que isso.

Entretanto, como não somos egoístas, lutamos também pela nossa instituição, nosso amado IFMG, onde muitos de nós estudamos e hoje fazemos parte de seu corpo técnico, a maior prova disso é que uma das pautas de nossa greve é exatamente o fim da Emenda Constitucional 95 (EC 95) que congela os investimentos em educação, saúde, ciência, etc. por 20 anos. Você sabia disso? O ex-presidente Michel Temer em seu curto mandato aprovou uma absurda EC que impede que se aumente os investimentos nestas estratégicas áreas, o que significa que o nosso IFMG está funcionando praticamente com a mesma verba de 2016, colocando em xeque a qualidade do nosso ensino, pesquisa e extensão, tripé e diferencial da nossa escola!

Mais do que isso, lutamos também pelo fim do Projeto de Emenda Constitucional 32 (PEC 32), que sucateia o serviço público, destruindo a maior ferramenta a serviço do povo brasileiro, que é exatamente o funcionalismo federal. Garantir que não haja retrocesso nos direitos adquiridos pelos trabalhadores com o suor e sangue de tanta gente é outro compromisso nosso, por isso estamos parados.

Sabemos que não é fácil realizar uma greve, entendemos perfeitamente que gera transtornos para os estudantes e para a população em geral, mas se coloquem em nosso lugar: como devemos agir?

Tentamos reunir com o governo (sem sucesso), colocamos faixas e placas para pressionar os deputados (sem sucesso), enviamos e mail e WhatsApp para variados parlamentares (sem sucesso). O que nos resta, portanto, é lutar com as ferramentas que temos para garantir os nossos e os seus direitos, afinal de contas, uma escola sucateada impacta significativamente no processo de ensino e aprendizagem que faz do nosso IFMG essa escola diferenciada, que transforma a vida de milhões de estudantes Brasil afora, como mudou também a de muitos de nós.

Um relato que acho importante compartilhar é o meu: a aprovação na antiga Escola Técnica Federal de Ouro Preto (ETFOP, hoje IFMG) para estudar no ensino médio em 1999 mudou minha vida, pois oriundo da região de Ouro Preto e então morador de Belo Horizonte, onde minha família enfrentava dificuldades financeiras, tinha como única opção passar na seleção para conseguir ter um ensino gratuito, de qualidade, laico e muito, mas muito acima da média das demais escolas públicas.

Entrei e no período que ali estudei enfrentei greves longas, como a de 2000, onde ficamos mais de 6 meses parados. Quando esta greve se instalou, eu não entendia os motivos, mas como sempre fui curioso, procurei saber mais do que se tratava, foi assim que conheci vários técnicos e professores da instituição mais de perto, pois comecei a ir nas assembleias para entender o contexto que vivíamos então, com Fernando Henrique Cardoso (FHC) presidente e a tentativa de privatização das universidades e escolas técnicas acontecendo.

De mero aluno, me transformei em um ferrenho defensor da nossa instituição, pois foi graças ao conhecimento que obtive ali que pude realizar o sonho da minha família de ser o primeiro a estudar numa universidade pública, me graduando, fazendo especialização, mestrado e doutorado, algo impossível de ser pensado por aquele jovem de 15 anos que mal sabia andar pelo Campus.

Eu sou a prova viva que a nossa escola é capaz de nos dar oportunidades que o destino não nos reservava, o IFMG muda vidas, como mudou a minha, não podemos deixar este legado acabar por opções políticas de governos que querem destruir a maior fábrica de sonhos que existe, que são os Institutos Federais.

Vamos à luta, não podemos desistir da nossa instituição e dos nossos direitos, como eu aprendi a amar essa escola, tenho certeza que lá na frente muitos de vocês terão orgulho de dizer que foram alunos do IFMG e que o defenderam daqueles que queriam sua destruição, como eu tenho.

É greve porque é grave.

* Esse texto é um artigo de opinião do colunista e pode não representar a posição do portal Mais Minas sobre o assunto.

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