Sérgio Fernandes Antunes
Sérgio Fernandes Antunes
Sérgio Fernandes Antunes, acadêmico de Direito, mineiro do Vale do Jequitinhonha, sagitariano, militante de causas sociais, apreciador da Língua Portuguesa e da escrita, amante de política e tudo que abarque a vida em coletividade.

2020: um ano além do Coronavírus, um ano antirracista!

A pandemia contribuiu para o esquecimento de muitos episódios que aconteceram durante o ano, porém nem tudo girou em torno do coronavírus. Hoje é dia de olhar para outra temática que se impôs durante o ano de 2020. Hoje, dia 20 de novembro é dia da Consciência Negra, data criada em 2003 para que o Brasil refletisse sobre seu passado e presente racista, celebrasse a luta das pessoas negras e conscientizasse a população para a construção de uma sociedade em que não haja nenhum tipo de discriminação, tampouco, racismo.

Desde janeiro com o anuncio da primeira morte pelo coronavírus na China, houve uma avalanche de notícias sobre o novo vírus que causou tensão no mundo todo, contudo nem todas as mudanças que 2020 trouxe tem relação direta com a pandemia. 2020 foi um ano que um tema muito antigo foi tratado com uma força que apenas as novidades têm. 2020 deu a temática racismo um novo significado e uma nova potência. O mundo presenciou uma sucessão de acontecimentos que trouxeram o racismo e o antirracismo para o centro do debate.

A morte de João Pedro comoveu o país inteiro, menino negro, morador de comunidade que teve a vida interrompida devido à violência. Em maio, João Pedro foi morto em uma operação policial no Rio de Janeiro. E nesse cenário, o número de mortos pela PM em 2020 bateu recorde em SP. Na região metropolitana, os batalhões mataram 70% mais. E apenas de janeiro a maio deste ano, 442 pessoas foram vítimas da violência policial em todo o estado de São Paulo, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O Brasil sempre foi considerado um país violento para com as pessoas negras, contudo não é o único. A luta antirracista intensificou-se no mundo após a morte de George Floyd nos Estados Unidos, um homem negro sufocado por 9 minutos por um policial branco.

A onda de protestos nos Estados Unidos contra o racismo foi considerada a maior desde a morte do líder e ativista negro Martin Luther King. O movimento que começou nos EUA se espalhou pelo mundo, atingiu grande proporção e colocou o racismo como uma das principais pautas debatidas durante a pandemia. No Brasil, assim como em outros países, os protestos em prol da não violência contra a população negra também ganhou força. “Black Lives Matter” virou um grito de guerra em todo o mundo.

Os acontecimentos racistas do ano de 2020 levaram manifestantes a questionarem acontecimentos do passado, trazendo estatuas de líderes e personalidades escravocratas ao chão. Após a morte de Floyd, o mundo se sensibilizou pela luta antirracista e começou a refletir os impactos causados pelo racismo no mundo atual.

Nos Estados Unidos, pesquisa divulgada pelo laboratório APM Research Lab evidenciou que negros morrem três vezes mais de Covid-19 do que brancos. Por aqui não é diferente. A cada dez brancos que morrem vítimas da Covid-19 no Brasil, morrem 14 pretos e pardos. Ao todo, morrem 40% mais negros que brancos em função da doença, indicou levantamento da CNN.

Coeficientes como desigualdade, acesso à saúde, moradia e trabalho contribuem para essa realidade. Segundo a pesquisadora Emanuelle Góes da Fiocruz, “o que a pandemia tem evidenciado é o que vários estudos já mostravam em relação ao maior prejuízo da população pobre e negra ao acesso da saúde. A covid-19 encontra um terreno favorável porque essas pessoas estão em um cenário de desigualdade de saúde e de precarização da vida”.

Dado um cenário que suscita debate coletivo e soluções imediatas, as eleições de 2020 podem ser consideradas reflexo do colapso social vivido mundialmente. Nos Estados Unidos, articulação das populações negras em diferentes regiões do país tiveram papel fundamental para a eleição de Kamala Harris, como primeira mulher negra vice-presidente dos Estados Unidos.

Em seu discurso histórico após a vitória, Kamala Harris defendeu a redução das desigualdades raciais e de gênero. “Eu posso ser a primeira mulher neste cargo, mas não serei a última. Porque cada garotinha que está assistindo esta noite vê que este é um país de possibilidades. Estou pensando nela e nas gerações de mulheres negras, mulheres asiáticas, brancas, latinas e nativas americanas ao longo da história de nossa nação que pavimentaram o caminho para este momento esta noite. Mulheres que lutaram e se sacrificaram tanto pela igualdade, liberdade e justiça para todos, incluindo as mulheres negras, que muitas vezes são esquecidas, mas que tantas vezes provam que são a espinha dorsal de nossa democracia”.

No espectro político brasileiro, mesmo vivenciando uma contundente polarização política, o Brasil registrou um recorde de candidaturas negra nas eleições municipais desse ano. Dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que 276 mil candidatos negros concorreram nas eleições de 2020, o que representa 49,95% do total. Já as candidaturas brancas representam 48,04%.

Outro avanço para a democratização dos espaços de poder tem relação com a política de cotas de gêneros e distribuição de verba de campanha e propaganda eleitoral aprovadas pelos tribunais superiores em 2018, para mulheres, e para negros, neste ano. Em todo o país, 13 mulheres negras foram eleitas, foram eleitos 56 vereadores quilombolas em vários estados, além do vice-prefeito de Alcântara (MA), Nivaldo Araújo, e um prefeito. Ao todo, 32% dos prefeitos eleitos no primeiro turno são negros.

Ainda que esteja distante da realidade populacional brasileira, é possível considerar que 2020 pode ficar marcado como o início de novos tempos, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Em que os direitos da população negra se façam presentes.

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