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terça-feira, 16 agosto 2022
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Jasão e os Argonautas: O legado do mito para a atualidade

A travessia e o crescimento espiritual de um dos mais profundos mitos gregos: hibris, ausência de restrição, narcisismo, loucura, vingança, poder, purgação, perdição. O mito dos argonautas é um dos mais complexos e com amplo espectro de diálogo com os dias atuais. Muito popularizada no Brasil pela música de Caetano Veloso, a história tem vários desdobramentos: “Medeia”, umas das peças com mais versões no mundo, incluindo a “Preciosa”, estrelada no Brasil e “Gota d´água” de Chico Buarque e Paulo Pontes são alguns exemplos.

O mito se relaciona, antes de tudo, com uma simbologia de purgação coletiva através do sacrifício heroico e sagrado. Alguns devem achar brutal o sacrifício humano, muitas vezes de filhos divinais de reis e rainhas, mas é importante lembrar às pessoas que ficam compungidas com tal sacrifício, que este é a base do cristianismo. Jeová dá o seu próprio filho, Jesus, como sacrifício e resgate, purgação do pecado de toda a humanidade. Somos mais gregos do que imaginamos. Todo o Novo Testamento bíblico é escrito por judeus helenizados ou por gregos convertidos à nova religião, que dialogam com todos os mitos de sacrifício. Jesus é o filho sacrificado de Deus para purgar todo o sangue de uma vez por todas. No sacrifício do inocente sem pecado estão simbolizados todos os sacrifícios anteriores.

O Velocino de Ouro

Uma praga passa a assolar a terra de Atamas, rei da Beócia. Ino, a sua segunda esposa, com ciúme, o convence que sacrificar os filhos dele com Nefele, a sua primeira esposa, seria a única forma de aplacar a fúria dos deuses. O sacrifício divino não pode ser recusado, então, Nefele aparece em sonho para o rei e coloca um carneiro encantado e alado com pelo de ouro no lugar de Frixos e Hele, seus filhos, que são resgatados do sacrifício pelo próprio carneio voador. Durante a viagem, no limite entre o Mar Egeu e o Mar Negro, Hele se desequilibra e cai no mar. O local passa a ser chamado de Helesponto, e considerado sacrificial e sagrado. Ao fim da viagem, Frixos, finalmente, chega à Cólquida, ponto de convergência entre o mundo luminoso e a as sombras – id, inconsciente, luz, iluminação –, sacrifica o carneiro dourado e dele tira o velocino de ouro, um tapete feito com a pele sagrada do animal, que passa a ser guardado eternamente por uma poderosa serpente.

No mito de Frixo e Nefele, é possível observar poderosas pulsões humanas, e o símbolo sacrificial sagrado de purgação do justo e do inocente para redimir o pecado de toda a comunidade. A imolação de um cordeiro que resgata os pecados e salva da morte o inocente é um mito bem conhecido dos cristãos.

Jasão e a luta pela herança

Jasão é vítima de uma grande conspiração. Seu pai, Esão, era rei de Iolcos, e foi destronado e exilado por seu irmão, Pélias. O novo rei foi avisado por um oráculo que seu sobrinho iria destroná-lo, assim, mandou assassiná-lo para que a profecia não se concretizasse. Por isso, Jasão passa a ser criado não pelos próprios pais, que temem por sua segurança, mas pelo centauro Quirón, que o versa nas artes da luta e da bravura. A origem, a ascendência e a legitimidade de Jasão se relacionam às pulsões humanas familiares, aos sentimentos de pertencimento e origem, rivalidade e amor, culpa e ressentimento.

Jasão tem que destronar o rei, que é seu tio, para ele mesmo reinar.  Na acepção edipiana da chegada à puberdade e à idade adulta, todo filho tem que de alguma forma cometer um parricídio, assassinar a figura do pai para sair da sombra de sua influência, chegando à maturidade, através de uma individuação em que possa emergir o seu próprio caráter. O ato heroico remete a esse conflito de pulsões antagônicas, de gratidão e repulsão, amor e raiva, perda e crescimento, que são fundamentais à formação de um caráter não psicótico ou neurótico. Todas as civilizações ditas bárbaras tinham ritos de passagem da idade infantil a adulta, nos quais os filhos saem da sombra de seus pais e emergem como pulpa a um sujeito responsável por si mesmo. Toda travessia de um herói é mitologema da busca do ser por sua própria persona.

Jasão precisa tirar de si a coroa, o domínio do seu superego pelos ditames da sua família para passar a ser o responsável heroico por sua própria travessia. Não à toa, no caminho de volta para a retomada do trono, a primeira travessa é a de um rio a nado, água, purgação, purificação e passagem. Ele chega com os pés descalços e na sua visão majestosa, é confundindo com um Deus.

O rei reconhece o sobrinho, mas Jasão não sabe que está diante do tio. Ao ser questionado por Pélias sobre a motivação da sua chegada, Jasão responde que pretende tomar de volta o trono que pertenceu ao seu pai. Proibido de matar Jasão, pois será punido com a perda do trono, Pélias tenta a astúcia para se livrar do rival e pergunta a Jasão, se caso ele fosse o rei, qual castigo daria a quem quisesse destroná-lo? Jasão responde, então, que mandaria o pretendente resgatar o velocino de ouro. Sem se dar conta de que estava condenando a si próprio, Jasão se compromete publicamente a executar a tarefa e mostra o seu lado de herói incomum. Ele não é forte e invencível como Hércules ou Teseu. E para a travessia, ele tem que arregimentar um exército de heróis, alguns mais poderosos que ele, inclusive. Heróis gregos como Hércules, Aquiles e Teseu destacam-se por qualidades individuais e Jasão precisa da ajuda de todos para conquistar seus méritos. O mito dos argonautas corresponde a fase clássica em que os deuses se dessacralizam, perdem os seus poderes e passam a agir de forma muito mais humana do que outros mitos gregos.

A chegada de Jasão à Cólquida

A nave Argos precisa passar entre dois rochedos que se fecham, os Simplégades. Primeiro os argonautas enviam uma pomba, que perde as penas do rabo na travessia, quando os rochedos se fecham. A pureza, a infância, o retorno, o mergulho representam a simbologia dessa passagem. Não se pode fazer a travessia sem fazer uma regressão, não há cura sem este mergulho. Mas o mergulho não é sem dor, traumas ou feridas. A pomba perde penas de seu rabo quando as Simplégades se fecham, a nave argos também perde parte do fim de sua embarcação, sem no entanto ser danificada. O movimento de descobrimento do desvelamento e catarse não é isento de perigos. Há dor e perda neste processo de travessia. E Jasão, criado por Quirón, simboliza de alguma forma esse processo de cura.

Em todo o processo, Jasão é assistido e beneficiado por Hera, o que torna este mito também muito curioso. Hera preside o casamento e as reuniões legítimas e é rival histórica de Afrodite, mas para beneficiar seu protegido, cuja simpatia talvez esteja ligada a ilegitimidade do trono de Pélias e a restauração da ordem de sucessão derivada do casamento divino ou hierogamos, Hera procurará Afrodite, a deusa do amor carnal e libidinal, pedindo ajuda. Hera sabe que Jasão não pode triunfar sem a ajuda de Medeia, sacerdotisa, feiticeira de Hécate. E é para que Medeia seja tomada por uma paixão avassaladora, que Hera pede ajuda a Afrodite.  

Medeia representa o feminino da natureza, a Hécate, o instinto, a libido, o feitiço, o encanto, o natural, também o brutal, o indomado. Nem Hera é capaz de domá-la, Medeia tem que provar do próprio veneno e ser enfeitiçada pelas próprias forças naturais representadas por Eros para se apaixonar por Jasão. Na verdade, não é Jasão quem conquista o velocino; o Ulisses, o Odisseu verdadeiro dos argonautas, é Medeia. É ela quem vai domar os touros e derrotar o exército dos dentes de dragão.

Espetada pela flecha de Eros, Medeia apaixona-se perdidamente por Jasão, assim que ele aporta no reino de Eetes. Filho de Circe e Pasifae, pai de Medeia, Calcíope e Apsirto, Eetes também é guardião do velocino de ouro e mataria quem se dispusesse a retirá-lo da Cólquida. Sabendo do interesse de Jasão de levar o velocino de ouro, Eetes sugere uma estratégia para se livrar do hóspede incômodo, da mesma maneira que fez Pélias.

O mito todo é um grande jogo de xadrez. Se Pélias deu a Jasão uma tarefa impossível, Eetes faz o mesmo, ao dizer que Jasão pode levar o velocino, desde que, cumpra duas tarefas. A primeira é doar dois touros – presentes de Hefesto – que exalem fogo, com cascos de ouro; atrelá-los a uma charrua e semear um campo com dentes de dragão. Enfrentar e vencer o exército de soldados encantados que nascerão destes dentes será a tarefa subsequente. 

Depois de toda esta longa travessia, Jasão pensa em desistir e partir. Ele sabe que não tem poderes ou forças para enfrentar estes rivais. Ao pressentir a insegurança de Jasão, Medeia revela o seu amor e propõe que eles se casem e voltem a Iolcos. Em troca, ele será vitorioso nas duas tarefas propostas por Eetes. Ao consentir, Jasão faz um pacto sagrado ou hierogamos, casamento patrocinado por duas deusas, Afrodite e Hera.

Essa parte da tragédia é importante para entender a Hibris e a perdição final de Jasão. Se Afrodite representa o amor bestial, o id e a libido, Hera representa o casamento legítimo, a ordem, a luminescência, a família. Os destinos de Jasão e Medeia estão ligados e se romperem com esse laço serão castigados pelos deuses.

O cumprimento das duas tarefas

Medeia entrega uma poção mágica para Jasão ficar imune ao hálito de fogo dos touros de Hefesto e o aconselha a jogar uma pedra nos soldados, que nascerão dos dentes do dragão. Com a magia, Jasão cumpre com sucesso as tarefas. Os touros ficam encantados e os soldados, após terem nascido, entram em batalha campal, depois de Jasão jogar uma pedra no meio deles. Todos sucumbem num luta fratricida.

Esta parte do mito tem muitas acepções. Uma delas pode ser identificada como a necessidade do feminino no elemento masculino, a intuição e a presciência para vencer; a outra versão denota a importância da união de um homem individuado – que se realiza plenamente – com uma mulher que se personifique em corpo e alma, para se realizar plenamente – Medeia, Afrodite (id) e Hera (ego). Já a confusão entre os soldados de dragão tem relação com os conflitos da alma humana. Em desalinho, o ser tende a se culpar e entrar em autoimolação e a consumir-se internamente numa culpa inútil. Só com o subjugar dos dragões e dos demônios interiores seria possível sair vitorioso desta travessia.

A conquista do velo de ouro

Jasão foi autorizado pelo rei Eetes a buscar o velocino de ouro no bosque de Ares, um dragão assassino e devorador de homens. Se não fosse Medeia, seria impossível para Jasão cumprir essa tarefa. Ele não tinha nenhuma arma para derrotar o monstro. Foi Medeia, a sacerdotisa dos mistérios da Hécate, a deusa feiticeira, a verdadeira heroína, com sua voz melodiosa que fez com que o dragão adormecesse. Foi assim que Jasão conseguiu matá-lo com uma lança.

Esta parte do mito também pode ser analisada como a impossibilidade de vencermos nossos impulsos. Tudo que é reprimido volta recalcado e ressentido. Jasão representa a cura e a possibilidade de adormecer a dor para poder matá-la. A dor do luto, dos traumas, do recalque. Achar o dragão e matá-lo no momento em que ele está despojado de suas forças funciona como uma catarse, uma transferência.

A fuga de Jasão e Medeia

O Rei Eetes não cumpre com a promessa, então Jasão e Medeia decidem sequestrar o príncipe Apsirto e fugir. Para impedir que a esquadra real continue a persegui-los, Medeia sugere o assassinato do próprio irmão, que é esquartejado e jogado ao mar. Obrigado a parar para recolher o corpo do príncipe, o rei possibilita que Jasão e Medeia escapem, de forma definitiva.

A interpretação psíquica deste feito, tão atávico, segue dois caminhos: A mulher, no seu processo de individuação e crescimento, ao se ligar a um homem de forma individuada e plena, precisa matar a filha, a irmã, a criança que teima em seus caprichos e nas ligações infantis edipianas com a própria família. É necessário romper o Édipo para ter uma ligação adulta, por mais duro e cruel internamente que isto seja. Essa é a interpretação deste episódio cheio de culpa.

A outra interpretação faz referência às forças ctônicas, primitivas e intuitivas simbolizadas por Medeia. O poder dela é tão grande, que todo o processo decisório, heroico, mesmo o mais cruel é feito por ela e não por Jasão, que inclusive é mostrado como fraco e “refém da feiticeira”. Para ele é conveniente repassar todas as tarefas e responsabilidades. Essas características são comuns em nossas histórias familiares.  Quantas vezes o papel de bruxa, de vilã é repassado às pessoas que não se esforçam para resolver os seus próprios problemas?

O casamento de Jasão e Medeia e a vingança contra o rei Pélias

Jasão casa com Medeia. Em algumas versões, apaixonado e fascinado; em outras, atemorizado pela mulher forte e cruel, a Hécate, deusa da magia, símbolo das forças intuitivas e naturais.

Medeia resolve vingar-se do rei Pélias, por ele não ter cumprido a promessa de entregar o trono a Jasão. Cozinha um cordeiro velho numa panela e, depois do processo, o transforma em um filhote. Ao perceber o quanto as filhas do rei eram vaidosas, Medeia as convence que se induzirem o pai delas ao sono profundo, o despedaçarem e o cozinharem numa mesma panela, com os mesmos ingredientes, elas conseguiriam transformá-lo em um belo efebo.

Ao fazerem exatamente o que Medeia ordenou e perceberem que o pai não retornaria à vida, as filhas de Pélias se suicidaram. A fuga para a Arcádia também está descrita em outras versões para o desfecho dessa história.

Depois de planejar a morte do rei, Medeia, Jasão e os filhos, Feros e Mérmere, fugiram para Corinto. Acasto, filho de Pélias, sucedeu o trono. O estratagema de Medeia não traz o trono para Jasão, devido a hibris do regicídio.

A vingança de Medeia contra a princesa Gláucia

Em Corinto, Creonte, rei de Corinto, propõe a Jasão, que ele se case com a sua filha, Gláucia. Ele aceita a proposta, mesmo sem amá-la, só para reinar sobre Corinto e adquirir riqueza e poder.Mas, para os deuses, Jasão já era casado com Medeia e a renúncia ao Hieros gamos ou hierogamia, termo atribuído ao ritual sexual que simbolizava o casamento entre um deus e uma deusa, representava um crime.

Creonte é advertido por um oráculo de que Medeia tramaria contra a vida da filha, e a expulsa da cidade. Antes de partir, ela pede para os filhos entregarem dois presentes mágicos para Jasão e Gláucia, que recebem os presentes e acreditam no gesto de conciliação de Medeia.

Gláucia, enfeitiçada pela beleza dos presentes, experimenta o arco e o véu, que grudam no seu corpo e pegam fogo. Os pais tentam salvá-la, mas não conseguem e morrem incendiados junto com a filha. Jasão vai procurar Medeia, num gesto que poderia ser de vingança, e é surpreendido com os filhos mortos nos braços dela.  Para se vingar de Jasão, Medeia foi capaz de matar os próprios filhos. Ele sequer pode enterrá-los já que Medeia foi conduzida por um carro enviado por Hera e levada até o templo de Atena, onde eles foram enterrados em solo sagrado. Jasão é expulso de Corinto.

A separação de Jasão e Medeia

O destino cruel de Creonte e Gláucia está ligado à hibris e ao desrespeito à vontade dos deuses. Desde o primeiro momento, os envolvidos desconsideraram a  união de Jasão e Medeia, uma sacerdotisa da Hécate, e a trataram como se ela não existisse, desrespeitando, inclusive, a vontade de Hera e Afrodite.

Todos são punidos: Creonte e a filha morrem e Jasão perde o casamento nobre. Medeia não sofre nenhum tipo de punição. Ela é recebida no templo de Atenas e seus dois filhos são enterrados em solo sagrado.

Há várias versões sobre o destino dela a partir daí. Em nenhum deles, as erínias ou os deuses cobraram por seus crimes. Ela já havia sido purgada por Circe pelo assassinato do irmão. A vingança trágica de Medeia representa a fúria dos deuses contra a ingratidão humana. Aquela que traiu o pai, assassinou o irmão, deixou seu templo e sua terra para ser a companheira de Jasão foi quem de verdade cumpriu as tarefas para conquistar o velocino de ouro. Mesmo assim, foi desprezada e teve o hierogamos rompido. A hibris não seria de Medeia, como força telúrica, ctônica, cega, primordial. Ao contrário, ela agiu sem culpa guiada pela força do dever. Medeia representa todas as mulheres desprezadas, humilhadas e trocadas por eventuais amantes ou por casamentos de interesse. Medeia simboliza a vingança, arquétipo poderoso e permanente.

Jasão é o anti-herói. Depois de cumprir as tarefas, ele falha na conquista de três tronos. Volta à Cólquida para se vingar, tem sucesso por um tempo, mas torna-se um tirano implacável, criminoso e perverso. Não consegue individuar seu amor, pois está ligado ao que há de mais primitivo em Medeia, a paixão polimorfa e perversa, que não tem gratidão e nem grandeza. Termina seu destino, não como imortal, mas atingido na cabeça, enquanto dormia por um pedaço da proa da nave Argos que se desprendeu. Jasão tinha mais defeitos que qualidades. Sua ousadia não era bravura, sua astúcia era emprestada e suas vitórias eram fruto de magia e trapaça. Um anti-herói, demasiado humano. E a morte foi o castigo pelos erros que cometeu durante a travessia.

* Esse texto é um artigo de opinião do colunista e pode não representar a posição do portal Mais Minas sobre o assunto.

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