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terça-feira, 31 janeiro 2023

Júlio Dash
Júlio Dash
Júlio Roberto Gomes é psicanalista e terapeuta analítico Jungiano, especializado em Hipnose e Inteligência Social, atuando na área há quase 5 anos. Tem como formação base o curso de Tecnologia em Recursos Humanos e estudos a parte de Criminalística.

Pink Freud – Another zebra in the wall

Em 2005 a Dreamworks lançou Madagascar e em algum momento do filme, Marty, a zebra, entra em crise existencial e se questiona se é preta com listras brancas ou branca com listras pretas e então me surgiu outra dúvida, por que listras pretas e brancas como camuflagem se elas vivem na selva e a cor predominante é verde ou amarelo?

Para a primeira dúvida, a resposta é que a pele da zebra é preta e as listras são brancas, o que é muito útil para muitas coisas, mas nenhuma delas tem a ver com esse texto aqui.

Para a segunda, a resposta que parece mais satisfatória é que as zebras não pretendem se camuflar na paisagem e enganar os predadores já que elas não pastam sozinhas, mas sempre em bando. A camuflagem é para que o predador na hora de atacar não saiba quem perseguir.

É difícil pro leão mirar uma zebra e ir atrás dela porque no corre corre ele não sabe mais qual zebra tá perseguindo e fica mais confuso que aquele rei do episódio do Pica-Pau que percebe que seu filho virou Hippie. Acredito que o fracasso do leão nesse caso é o que dá origem ao termo: Deu zebra.

A função das listras então é manter a salvo todas as zebras ao fazê-las iguais aos olhos do predador.

Agora imagine que uma zebra chegue à conclusão que a camuflagem está muito démodé e resolva adotar um visual mais psicodélico, meio setentista, e comece a usar listras neon ou verde limão com rosa choque. Essa zebra dificilmente viveria mais de um dia na savana, porque seria fácil pro leão diferenciá-la das demais.

Saindo da selva de areia e grama e vindo para selva de pedra, homem primata, capitalismo selvagem oh oh… A nossa vida é conduzida de forma a sermos zebras. Desde pequenos somos ensinados a não falar alto demais, não correr fora de hora, não chamar atenção, porque chamar atenção pode constranger seus pais.

+ Melhor ser Sísifo do que Sósifu

+ A verdade é uma ilusão que usam para te vender algo

Depois vamos para escola e nos dão uniformes, todos iguais, enfileirados, cumprindo tarefas em troca de notas, parando quando a sirene toca e podemos ir ao refeitório comer, ter banho de sol e depois voltar às nossas funções.

No mercado de trabalho, embora isso tenha mudado um pouco, ainda é comum o uniforme. As pessoas precisam saber que você pertence ao rebanho, que você dedica sua vida em prol de manter a máquina funcionando, a sociedade não quer que você se destaque, não é seguro, empreender é um risco, apostar no seu sonho é loucura, querer subir de vida é ser ganancioso.

Não. Fique aí, corra quando corrermos, torça pro leão não pular aleatoriamente e pegar você para janta. Seja uma boa zebra e você nunca estará sozinha, talvez frustrada, cansada, triste, tomando remédio para dormir e passando suas horas vagas olhando coisas aleatórias no instagram ou tiktok, mas sozinha, jamais.

O curioso sobre a sociedade é que ela te mostra como é boa a vida daqueles que se destacaram, ela cria séries, filmes, livros, podcasts e tá cheio de perfil usando fotos aleatórias dessas pessoas com frases motivacionais para te fazer não desistir de chegar lá, mas ao mesmo tempo fazendo de tudo para te impedir de chegar lá.

A sociedade é, como Freud diagnosticaria, perversa. Na verdade, na época de Freud, ela era neurótica, atualmente, Dany Robert Dufour a chama de perversa. Por quê? Bom, ela te alimenta com o mínimo para você se manter, mas não com o bastante para se satisfazer, sendo assim, você quer mais, precisa de mais, trabalha por mais, mas não chega lá.

A sociedade não é mais governada pelos fracos, como sugeriu Nietzsche, mas pelos maus, que querem que você seja bom, pois a sociedade precisa ser sustentada por boas pessoas que desejam ter coisas que não lhe serão permitidas, mas que elas precisam desejar mais e mais e mais.

Qualquer pessoa que tenha tentado empreender, mesmo que seja com um carrinho de picolé, sabe que é mais fácil vender para desconhecidos que para amigos. É mais fácil contar com a fé de estranhos do que com o apoio de familiares. Por quê?

Nenhuma zebra quer um leão por perto. Ninguém que esteja confortável com o que tem, quer se sentir desconfortável pela possibilidade de você ter mais. É aquela máxima “as pessoas querem te ver bem, mas não melhor que elas”.

Isso não é necessariamente consciente, não é como se as pessoas ao seu redor fossem monstros, elas só estão vivendo a vida delas, da maneira que aprenderam, se você está olhando além da janela e sonhando com outros horizontes, na visão delas, você está errado. Por quê? Porque sim, só isso.

A liderança, os altos cargos, o poder, estão associados a pessoas sem alma, a cruéis e tiranos, maquiavélicos e brutais seres que você não gostaria de ser igual. E quem alimenta essa ideia? Aqueles que te vendem o sonho de chegar lá.

Na década de 1970 fizeram um estudo lá nos estates e entrevistaram várias pessoas, fizeram perguntas e mais perguntas e chegaram a conclusão que a maioria das pessoas prefere fazer algo relacionado ao seu sonho, mas não o bastante para alcançá-lo, para assim dizerem que pelo menos tentaram e então chegar ao fim do dia, após um trabalho cansativo e fantasiar sobre como teria sido se tivessem tido sucesso.

E é isso que a sociedade perversa quer de você. Que você chegue perto, mas não o bastante para tocar e daí você compre cursos e mais cursos, siga pessoas, torna-as celebridades que vivem seu sonho e vendem promessas, para que você continue sonhando e comprando.

Antes eram Coachs, hoje são neurocientistas de Youtube, todos vendendo sonhos, te mantendo uma zebra que corre para onde as outras zebras correm, querendo ser diferente, mas com medo de ser e um leão te devorar.

Como Morpheu diz a Neo: “a maioria das pessoas não está preparada para ser liberta da Matrix, na verdade elas farão de tudo para protege-la”. E posteriormente, a frase que dá início a nossa conclusão: “Um dia você perceberá, assim como eu percebi, que existe uma diferença entre conhecer o caminho e entre trilhar o caminho”.

Morpheu sabia das coisas.

Você já conhece o caminho, você já tem um mapa, mesmo que apenas um esboço feito a lápis de cera de onde quer chegar. Tudo que os gurus estão dizendo são obviedades que você saberia se estivesse trilhando o caminho em direção ao horizonte que vê quando fecha os olhos.

A sociedade perversa não terá poder sobre você se você não a idolatrar. Ela te afetará, mas assim como Frodo e Sam, se você tiver um propósito você chega lá, mesmo que demore um pouco e alguns digam no futuro que o filme sobre sua vida não é tão bom quanto o livro, mas você saberá que bom mesmo foi viver essa vida.

* Esse texto é um artigo de opinião do colunista e pode não representar a posição do portal Mais Minas sobre o assunto.

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