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segunda-feira, 6 fevereiro 2023

Cheyenne Duarte
Cheyenne Duarte
Professor Universitário há 10 anos em diversos cursos. Bacharel em Administração. Licenciado em Pedagogia. Atualmente atuo como Orientador Educacional em uma Unidade Municipal de Educação Infantil.

O caso Americanas: a confiança enquanto fundamento das relações econômicas

Presenciamos nos últimos dias o desdobramento de notícias relacionadas a um fato que tem potencial para ser o maior escândalo relacionado ao Mercado de Capitais no Brasil. Porém, quero enfatizar que meu propósito não é propriamente analisar retrospectivamente as causas e os motivos das inconsistências contábeis detectadas no Balanço da Americanas. Meu enfoque será na quebra de confiança de diversos públicos em relação a saúde financeira da companhia.

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A economia capitalista, fortemente alicerçada no binômio produção-consumo possui na confiança entre os agentes econômicos seu grande pilar de sustentação. Agentes econômicos são os diversos “atores” sociais e econômicos que fazem com que a economia capitalista “gire”, tenha “fôlego” e razão para funcionar, podendo ser citado: governos; famílias; empresas; investidores (nacionais e estrangeiros). Sem o mínimo de confiança, investidor não investe; consumidores não contratam financiamentos de longo prazo; empresas não produzem e por aí vai.

No caso específico da Americanas, a perda de confiança atinge diversos atores econômicos, inclusive outras empresas do setor e varejistas de outros segmentos. A inconsistência contábil, que é um “singelo” endividamento na casa dos R$ 20 bilhões repercute de forma sistêmica. Preocupante, pois se trata de um grande player varejista, com alto volume de financiamento bancário, grande comprador junto a diversos fornecedores, grande empregador…

Em relação a empresa, a confiança do mercado foi “demolida”, “derrubada”. O valor da ação da Americanas declinou em 79%. O que indiretamente aponta para um “papel” não confiável para se investir, de uma empresa incapaz de gerar resultados sustentáveis ao ponto de premiar seus investidores/acionistas. O rebaixamento em seis degraus na nota de crédito da empresa, por uma classificadora de riscos, colocando-a na condição de provável não pagadora (calote) é outro forte indício da desconfiança do mercado na capacidade de a empresa arcar com suas dívidas.

Em se tratando do tamanho mercadológico da Americanas, seus principais credores, os bancos, decidiram “rolar” a dívida (adiamento), menos o BTG Pactual. Entendo que essa “rolagem” de dívida é um movimento importante por parte dos bancos como forma de conceder fôlego a companhia, para que a mesma possa se organizar no curto prazo. Porém, uma condição foi imposta pelos bancos: uma capitalização para viabilizar a operação. No entanto, os acionistas de referência (controladores) não estão dispostos a injetar o valor total necessário. Ah, a desconfiança…

As empresas varejistas também podem sofrer com a desconfiança surgida a partir do caso da Americanas. Aí você pode me questionar: o que a Casas Bahia, Magazine Luiza, Ponto Frio tem a ver com esse caso especificamente? Aparentemente nada! Nada, por questões óbvias, pois cada empresa deve se responsabilizar por suas próprias ações. Porém, pelo fato de serem empresas varejistas, são colocadas automaticamente no foco das desconfianças, tendo em vista que muitos podem achar que a prática contábil resultante na inconsistência pode ser algo generalizado no segmento (algumas varejistas inclusive já vieram a público se defender).

A PWC, empresa inglesa de auditoria, com sede em Londres, foi a responsável por auditar os demonstrativos contábeis da Americanas, a partir de 2019. Obviamente precisamos esperar o desenrolar das investigações sobre o volume da dívida descoberta para se fazer um juízo de valor mais preciso. No entanto, até lá a PWC estará no centro das desconfianças sobre o fato, pois foi ela, através de seus auditores que assegurou a fidedignidade das informações contabilizadas. Possíveis cenários: 1. Em caso de fraude, participou encobrindo o fato; 2. Não percebeu a inconsistência contábil e aprovou os demonstrativos. Independente do cenário a desconfiança se fará presente, ou por conivência ou por incompetência.

Os clientes também estão no horizonte das desconfianças em relação as Americanas. No atual momento, o que a empresa mais precisa é que as famílias (agente econômico) comprem, consumam, comprem, consumam… Tal consumo se faz necessário para elevar a receita de vendas da empresa elevando seu fôlego operacional e concedendo uma resposta satisfatória ao mercado (estamos aqui operando normalmente, viu?). Porém, o ruído de comunicação pode prejudicar a Americanas, tendo em vista que muitos consumidores desconfiados podem deixar de comprar no comércio eletrônico, por exemplo, com receio do não recebimento. Sugiro que o consumidor acompanhe de perto junto aos veículos de comunicação, notícias que relatem atrasos ou mesmo de não entrega de mercadorias.

Os fornecedores também se enquadram no grupo dos desconfiados. Geralmente uma empresa varejista ao comprar suas mercadorias negocia um período de pagamento em dias (30,45…) para arcar com a obrigação financeira. A lógica é a seguinte: receber primeiro as vendas para depois pagar os fornecedores. No caso da Americanas, com a falta de confiança do mercado, incluindo de quem fornece, a negociação de vendas junto a varejista deve migrar do prazo estendido em dias para pagamento, para um modelo à vista. Fornecedores com temor de calote vão querer o pagamento à vista, dificultando qualquer negociação com prazos. E isso é péssimo para a Americanas, tendo em vista a sua fragilidade de dinheiro em caixa, aliada a falta de crédito bancário. Um “gargalo” difícil, que tende a “estrangular” a operação.

Percebeu, caro leitor, como a confiança é a “mola propulsora” da economia? Sem a devida confiança, dificilmente os agentes econômicos caminharão na direção de consumir, investir, conceder crédito… O nível de confiança está diretamente vinculado ao risco envolvido na operação: quanto maior a desconfiança em relação a determinado agente econômico, mais elevado tende a ser o risco. E a desconfiança nas Americanas não se restringe ao tempo presente, pois os bancos credores já sinalizaram que caso no futuro a empresa necessite de crédito, as condições serão endurecidas.

Uma frente que já deveria ter sido aberta pela Americanas é fortalecer sua comunicação com o mercado, sobretudo com credores, investidores e clientes, para que possa ser minimizado toda a desconfiança existente. Para uma empresa de capital aberto, ruídos de comunicação alimentam especulações, que por sua vez reforçam cada vez mais a incerteza. Para qualquer empresa em crise, encarar os problemas com transparência é uma mostra de que a direção busca elucidar possíveis dúvidas existentes e corrigir os rumos do negócio.

P.S.: Com o desdobramento dos acontecimentos, a cada hora, na tentativa de buscar uma saída viável para a Americanas, credores e investidores, “o medo se fez fato”. A recuperação judicial tornou-se uma realidade. Com dívidas de R$ 43.000.000.000,00 (sempre desconfiei que não seriam os valores expostos no início do texto, mas mais) e um caixa de R$ 800.000.000,00, sem crédito bancário e de fornecedores a empresa não resistiu e teve que pedir judicialmente proteção. Triste para uma empresa tão tradicional! Esperemos as cenas dos próximos capítulos.

* Esse texto é um artigo de opinião do colunista e pode não representar a posição do portal Mais Minas sobre o assunto.

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