João Victor Pena
João Victor Pena
João Victor Pena é estudante de jornalismo na PUC Minas e articulista da coluna "Rima em Prosa", no portal Mais Minas.

Rima em Prosa #28: Conheça Fenda, a girlgang mineira que busca trazer protagonismo feminino ao rap nacional

Formada por Laura Sette, Mayí, DJ Kingdom, Iza Sabino e Paige, a Fenda é uma ‘girlgang’ mineira com sede em Belo Horizonte. O grupo, que surgiu no ano passado, já lançou quatro singles até agora: Manda Foto de Agora, Casa das Prima, GIRLGANG e Não Se Ofenda. Abordando assuntos pertinentes da realidade da mulher, as rappers conseguiram rapidamente conquistar o respeito e o carinho do público. Com uma estética musical que se encaixa dentro da nova escola do rap nacional, as integrantes conseguem fazer seus versos dialogarem com diferentes perfis de ouvintes. Formada por artistas que já trazem uma carreira solo desenvolvida, a mob busca trazer protagonismo feminino para esse cenário. Até aqui, elas já se apresentaram em diversos shows e festivais dentro de Minas Gerais, tocando até mesmo no Mineirão, no Festival Sarará Digital.

Convidadas desta semana na Rima em Prosa, as meninas da Fenda contam em entrevista detalhes da formação do grupo e expõem suas visões sobre o cena do hip hop, a força feminina neste cenário e a parceria do grupo com grandes nomes do rap nacional. Confira:

A origem do grupo

“A ideia de criar a Fenda veio a partir de um convite da MacacoLab, uma produtora de eventos aqui de BH. Esse convite veio porque havia a demanda de um show de abertura para um show do Criolo, lá no KM de Vantagens Hall. E aí elas entraram em contato com a gente falando que tinham pensado em fazer um show com nós cinco: Mayí, Paige, Iza Sabino, DJ Kingdom e Laura Sette. Porque podia ser uma pessoa só, mas essa ideia foi incrível. Uma junção de cinco minas pra fazer a abertura do show do Criolo. Talvez fosse um lugar ocupado por só uma, mas aí chamaram cinco pra esse evento em específico. A gente não tinha ideia de continuar ou ser uma mob, tá ligado? Mas a gente chegou a realizar esse show, que foi tudo. E pra esse trabalho a gente precisava de um nome. E aí a Laura Sette tinha um EP ou disco, eu não sei, que ia ser lançado com o nome de Fenda. E ela deu essa ideia e a gente super curtiu. Super perpassou por esse meio da palavra, dos sentidos dela. Da potência desse nome. A gente criou pra divulgação desse evento né e depois dele a gente falou: “Pô, essa junção é bombástica”. Porque somos cinco minas totalmente diferentes. Tanto em personalidade quanto em gênero musical. Nem tanto em gênero, porque a gente compartilha de muitos sons que a gente curte. Mas somos diferentes. Fisicamente e de personalidade também. Aí resolvemos continuar e foi acontecendo”, disse Mayí, contando um pouco da origem do coletivo.  

A rapper, que ainda tem poucos trabalhos solo lançados, é música, percussionista e dançarina, tendo mais de dez anos de estrada. Como destaque, colocamos a faixa Spanka, que ela participa junto de Mac Júlia, Jvtphill e Pejota.

Ascensão da cena de Belo Horizonte e perfil do público

“É, a ascensão da Fenda tá ligada com ascensão do rap aqui de BH. A gente costuma brincar que BH é Compton, é o Brooklyn, BH é o Texas. Porque aqui tem um celeiro de artistas, e não só no rap. Temos os mais diversos artistas aqui em Belo Horizonte. A gente tem pra todos os gostos, todos os estilos, E a gente está ali, páreo a páreo com as outras cenas do Brasil. E se a Fenda apareceu nessa cena, é porque a gente foi influenciada por esse círculo, sabe? Essa vibe que tá rolando aqui. Da gente ter qualidade no trabalho, buscar referências e colocar na pista um trampo real e que vai influenciar outras pessoas, que vai ser significativo mesmo. E eu acho que é isso. O pessoal daqui costuma mesmo ouvir Fenda. A gente tem vários fãs de Belo Horizonte. Eu acho que se você é respeitado na sua casa, você é respeitado em qualquer lugar. Então a gente tem um respeito aqui da galera. Mas pinta uma coisa louca que BH não é o lugar se escuta mais Fenda. São Paulo é o lugar que costuma ouvir mais Fenda. Mas eu penso que é mais por conta da demanda mesmo. Em São Paulo eles tem um gosto por rap muito maior do que aqui. Talvez, pode ser. Aqui a cena tá mudando, tá se transformando. Então pode ser que seja por isso esse desnivelamento, sabe? Mas aqui em Belo Horizonte nós somos bem recebidas, nós somos bem quistas. E gente tem fãs do nosso trabalho. Parceiros mesmo. Pessoas que a gente vê em todos os shows, pessoas que comentam a gente, que fomentam nosso trabalho nas redes sociais, que estão sempre mandando mensagens… Isso é importante. Se a gente é respeitado em casa, a gente tem o respeito em todo lugar que a gente vai”, revela Kingdom. A DJ, que já é veterana na cena de BH, tem no seu currículo apresentações em festas como Bronka e Baile Room. Ela também falou um pouco sobre o perfil dos ouvintes da Fenda e a identificação criada com o público feminino. Veja:

“A maior parte do público da Fenda é feminino. Com certeza. A Fenda é vista como se fosse um veículo de conversa, de troca com outras mulheres. Até porque nas músicas a gente fala um pouco sobre nós, sobre nossos sentimentos, nosso anseios, nossas vontades, nossos desejos… E eu acho que é uma conversa aberta para com outras mulheres, sabe? Não importando sua orientação sexual, não tendo limites. E a gente também tem uma grande porcentagem de crianças que escutam o som da Fenda. E isso é legal. Significa que a gente tem uma conversa plural, mas muito verdadeira, saca? O feedback das nossas fãs é sempre positivo. Ouvir coisas como: “Vocês elevam nossa auto estima, vocês falam nas músicas o que a gente precisa ouvir, o que a gente precisa dançar, o que a gente precisa sentir naquele momento” é legal. Isso é real. É uma troca que é verdadeira. Tem esse grau de veracidade mesmo. Então, grande porcentagem do nosso público é feminino porque nós falamos sobre nós mesmas e nossos sentimentos. E é uma conversa franca, tete a tete, sabe?”.

O machismo enraizado no hip hop

A Fenda traz pautas importantes para o hip hop. O grupo aborda temas essenciais da vivência feminina, como o protagonismo das mulheres, a liberdade sexual e também os seus sentimentos. Ao levantar esses assuntos, o grupo bate de frente com as raízes machistas que ainda hoje estão presentes no meio do rap. Durante a entrevista, Mayí comentou um pouco sobre a sua posição dentro dessa realidade:

“Respondendo bem objetivamente: Eu acho que isso não tá enraizado só dentro da cultura do hip hop, entende? Isso é uma questão cultural nacional e mundial. Mulheres são objetificadas? Sim. Mulheres pretas, mais ainda. Mulheres trans pretas, ainda mais. São níveis de dores mesmo. De coisas ruins vivenciadas, tá ligado? Mas em questão ao gênero musical rap, dentro das letras, eu acho que tem muita ligação com vivência, sabe? É difícil julgar quando alguém aqui no ‘Braza’ fala: “mulheres vulgares, uma noite e nada mais”. Talvez isso na ideia do cara seja exatamente o que ele tenha vivido naquele momento. Talvez depois ele não tenha mais gostado disso, mas naquele momento era a vivência dele. E o rap veio do meio mais periférico, foi onde se proliferou primeiro, e a gente entende que na periferia o trabalho social é muito mais de difícil acesso. Na periferia se fala pouco sobre machismo, feminismo… Na quebrada isso é muito raro. Mas também existe um respeito de certa forma. É difícil explicar isso sobre o gênero musical rap, mas é uma parada que em questão a como os caras veem as mulheres, eu acho tranquilo, tá ligado? Também acho mais tranquilo ainda o jeito como as mulheres às vezes objetificam os homens. Eu acho que isso é escolha do quer ser passado no som de cada pessoa mesmo. Tem isso em algumas músicas, em outras não tem. Tem homem falando de mulher, falando que gosta de puta, piranha, vadia, e também tem mulher falando que curte cara de tal jeito e tarará, torotô. Tá ligado? São jeitos diferentes de se absorver, lógico, porque a gente tem essa conduta machista nacional enraizada, mas é isso. Tanto nacional, quanto internacional, na verdade. Na gringa os cara xinga também e a gente curte, escuta tranquilamente. ‘As mina’ também xinga os cara e xinga as mina… Vivências, histórias, fábulas, ou não, música, né? Então, respect à isso”.

A força feminina na cena do rap

Quem também falou sobre o impacto do machismo nesse cenário, foi Kingdom. A DJ refletiu a respeito surgimento de novas mulheres no rap e a influência que elas exercem sobre as meninas que as escutam.

“Se o grupo tivesse surgido a uns dois, três anos atrás, talvez hoje a trajetória seria diferente. Eu acho que o grupo surgiu no momento certo, na hora certa. É evidente que a cena tá com mais mulheres no momento. E isso se deve ao fato de que quanto mais mulheres aparecem desenvolvendo bons trabalhos, mais outras meninas ficam inspiradas a entrar nesse cenário. Com certeza, daqui uns dois ou três anos, terão outras meninas na cena, e assim por diante. Eu acho que a real mesmo é que a gente não pode deixar de fazer o nosso trabalho, sabe? A gente que quer entrar no meio artístico não pode se limitar pelas barreiras. A gente não pode se deixar levar pelo machismo, Porque o machismo não é também algo que a gente reproduz. É ‘os cara’ que reproduz. Então a gente tem que estar fazendo a nossa parte. A gente tem que estar confiando no nosso trabalho e colocando ele na pista. Colocando pra jogo para que outras meninas consumam nosso trampo e, quem sabe, dali, elas absorvam e se inspirem, para que daqui dois, três anos tenham outras meninas, outros grupos de rap. Enfim, a gente só não pode parar. A gente só não pode ficar estagnada”, afirma a artista.

Liberdade feminina e tabus

Autora do disco C. A. C., de 2019, Laura Sette vem publicando músicas continuamente desde 2018, quando iniciou uma nova em sua carreira, ao lançar a faixa Amor Colombiano. A rapper nos contou um pouco sobre como enxerga os temas e pautas levantados pela Fenda, como liberdade feminina e quebras de tabus:

“Os assuntos que gente aborda sobre esse tema não são nada além do que a gente já vive. Por isso é tão fácil de outras mulheres se identificarem. É uma coisa rotineira que acontece com o corpo feminino, sabe? A gente não ter essa liberdade, tudo ser tão hipersexualizado… Então, se quando a gente fala sobre a liberdade, as mulheres se identificam, é porque todas elas se sentem oprimidas pelo mesmo motivo”.

Também conversamos com Paige, que falou sobre o impacto que gerado pelas músicas do grupo:

“Quando a gente tá escrevendo, a gente sempre fala da liberdade de escrever sobre o que a gente sente, sobre que a gente tem vontade, sobre nossos sonhos, enfim, o que vier na nossa cabeça. E com certeza a gente quer que isso chegue pras pessoas de uma forma impactante e inovadora. Que as pessoas pensem: “Nossa, que louco, que bacana, que diferente, que novo”.  Enfim, acho que temos super intenção de de chocar e impactar todo mundo.

Paige é autora do EP Babygirl, lançado em agosto do ano passado. A artista começou sua carreira no início de 2019 e tem como um de seus destaques a faixa Lamborghini, com parceria de Sidoka e Luckao.

Parcerias com grandes produtores

Até aqui, quase todas músicas lançadas contam com a produção e direção do musical do consagrado beatmaker Coyote Beatz. A única exceção é a faixa Casa das Prima, lançada na mixtape Bando, da dupla de produtores paulistas Nagalli e Pedro Lotto. Confira o que a DJ Kingdom nos contou sobre essas parcerias:

“Neste mês de outubro a gente faz um ano de grupo. Mesmo com pouco tempo de estrada, a gente fez hits com alguns dos grandes produtores da nossa cena, que são o Pedro Lotto e o Nagalli, que nos convidaram pra participar de uma mixtape deles. E eles são uma dupla que tá na cena, que tá por dentro de todas as novidades musicais e de tudo que tá surgindo. São dois produtores muito foda. Ter participado em  Casa das Primas com eles foi assim uma honra. E a gente conseguiu chegar a SP, chegar na cena de SP e de SP pro Brasil inteiro. Isso é massa. Já o Coyote, a gente fica até sem palavras de falar dele. Ele tem sido nosso diretor musical. É o cara que tá desde o início da formação do nosso grupo até agora. Vamos caminhar juntos nessa. Ele é a pessoa que nos ajuda a construir e a direcionar nosso trabalho. Ele é muito foda! É o nosso professor e nós somos os alunos dele. A gente costuma brincar com isso. O Coyote dá aulas! É importante contar com esses grandes nomes, porque isso faz nosso trabalho ser reconhecido. E o nosso trabalho vai ganhando uma forma, vai ganhando uma identidade, sabe? Onde a gente consegue se desenvolver e disseminar nossa palavra dentros dos beats desses caras que são foda”.

Projetos futuros

“Temos um plano de lançamento, sim. Temos um single pra lançar dentro desse ano ainda, que já está bem trabalhado. Bem da hora. E a gente tem, sim, em mente umas ideias como EP, feats. Tá dentro do plano  lançar. Não esse ano ainda, mas tá dentro do plano. E é isso. Vamos trabalhar nesse EP e em alguns singles”, revela Paige.

Participações em grandes festivais

Apesar de estar na pista há apenas um ano, a Fenda já tocou em grandes palcos. Mais recentemente, a mob se apresentou na edição digital do popular Sarará, festival mineiro que todos os anos reúne milhares de pessoas no Mineirão. No Youtube do grupo, estão disponíveis os melhores momentos desse show, que também contou com a participação da rapper Karol Conka.

“Estar podendo tocar em grandes festivais como S.E.N.S.A.C.I.O.N.A.L. e Sarará Digital pra gente é uma honra. A gente se prepara muito para esses festivais. Por que a gente sabe como é o calor do público e o que ele espera. E o público de festival é muito exigente, né? Então a gente se sente apta a trabalhar mesmo, a ensaiar. Se tiver que dançar, a gente dança. Se tiver que melhorar a voz, a gente melhora. A gente se prepara para esses festivais e grandes  shows como se fosse um Destiny Child’s, sabe? (Risos). A gente sabe que o público é exigente e que os festivais são a porta. É garantido que as pessoas vão ter acesso ao nosso trabalho, então a gente faz com muito carinho. Todo show nosso a gente faz com muito carinho e muita dedicação. E ter tocado em grandes festivais é um mérito nosso. E a gente vem se desenvolvendo pra tocar em mais outros. Que venham muitos, muitos, muitos mais festivais por aí”, conta DJ Kingdom, exaltando a trajetória do grupo nos palcos brasileiros.

Iza Sabino também comentou um pouco sobre a emoção de tocar no Mineirão pela primeira vez:

“Foi um momento muito único e que vai ser lembrado, né? No meio dessa situação que estamos passando, ainda conseguimos fazer esse trabalho da melhor forma. Foi um sonho realizado, porque eu nunca tinha entrado dentro de um estádio de futebol, e aí a primeira vez foi pra fazer um trabalho meu. Isso foi muito emocionante e importante pra mim. Creio que pra todas da Fenda também”.

Parceira do estúdio Garena e do jogo Free Fire, Iza Sabino é autora do disco BEST DUO, lançado em parceria com o rapper FBC. Ela também prepara para os próximos meses Glória, o seu primeiro álbum solo.

Confira o mini documentário que conta a história dessa apresentação histórica da Fenda:

Escrita por João Victor Pena, Rima em Prosa é a coluna especializada em rap do Mais Minas. Nela, são publicadas notícias, matérias e entrevistas relacionadas à tudo de principal que tem ocorrido no rap nacional. Caso tenha gostado da entrevista com a Fenda, recomendamos a leitura de nossas matérias com Ebony, Cristal e Alt Niss.

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