João Victor Pena
João Victor Pena
João Victor Pena é estudante de jornalismo na PUC Minas e articulista da coluna "Rima em Prosa", no portal Mais Minas.

Rima em Prosa #31: Santzu apresenta “Pícaro Sonhador”, a sua nova mixtape

Felipe Santzu é um dos nomes mais criativos do rap de Brasília. Apesar de ser mais conhecido pelo grande público por conta da mixtape Homem Não Para Nunca, lançada em 2019 em parceria com seu amigo Froid, o ele já está há mais de cinco anos na cena e tem vários singles e projetos lançados. Nesta semana, conversamos com o rapper, que comentou o lançamento de Pícaro Sonhador, disco que chega às ruas nas próximas semanas. O artista também falou sobre Alaska, a sua nova gravadora, e sobre os desafios da carreira de artista independente. Confira esta entrevista:

Pícaro Sonhador

Pícaro Sonhador chegará às plataformas digitais no dia 01/12. Esta é a terceira mixtape de Santzu, que também é o autor de Flores e Flores, de 2018, e O Homem Não Para Nunca, Vol.1, de 2019. Segundo a descrição do artista, este trabalho faz referência ao sonho de viver de sua arte de forma independente, criando suas próprias oportunidades. Ele também afirma que o seu desenvolvimento começou há um certo tempo, por isso o projeto traz faixas produzidas há dois, três anos atrás. “Ainda não consegui lançar toda a demanda de materiais que tenho guardado, mas, pela forma como estamos caminhando, isso logo será resolvido”, reitera o rapper.

Rima em Prosa #31: Santzu apresenta "Pícaro Sonhador", a sua nova mixtape
Capa do disco Pícaro Sonhador
Rima em Prosa #31: Santzu apresenta "Pícaro Sonhador", a sua nova mixtape
Contracapa do disco

No ano passado, em uma entrevista que fizemos em maio, Santzu já mencionava a produção desta mixtape. Contudo, o projeto demorou a sair do papel. O cantor explica a demora: “A ideia inicial acabou ganhando uma outra dimensão. A princípio a ideia era lançar um projeto curto, mas no processo eu senti a necessidade de contar com a colaboração de mais pessoas, o que acabou aumentando um pouco mais o prazo”.

Ao contrário de muitos artistas que descartam músicas que estão “datadas” ou há um tempo na gaveta, Santzu mantém esses projetos de pé. Ele nos contou o segredo para manter esses trabalhos “atemporais”: “Eu busco sempre me reciclar, ouvir muita coisa e me desprender das minhas playlists. Isso me possibilita sempre fazer algo novo. No meio dessa tentativas, surgem músicas que marcam, porém não é o meu foco quando estou trabalhando. Estou sempre em busca de produzir algo que eu gostaria de ouvir, até para fugir de um ‘padrão’. Acredito que é por aí que está o segredo”.

Por fim, o rapper falou um pouco sobre as diferenças entre este novo projeto e os antigos: “O meu primeiro disco foi todo produzido por mim e segue uma referência bastante experimental, tanto na construção de rimas, quanto na escolha de timbres. Este novo trabalho que está para sair soa muito mais atual, além de contar com produções não só minhas, mas também de alguns amigos produtores. Isto traz uma grande influência no final, pois são outras visões somando no projeto”.

Os desafios da carreira independente

Santzu é um artista que lança poucas poucas faixas. De um ano pra cá, por exemplo, apenas o single Planetas em Colisão foi lançado. Durante a entrevista, o rapper falou um pouco sobre essa questão: “Eu entendo que para um artista sempre ter novidades é muito importante. Mas, com a evolução do mercado e da forma que o público vem consumindo música, se torna cada vez mais importante o investimento nos trabalhos. Atualmente, soltar muitos trabalhos sem planejamento, estrutura e uma apresentação profissional é muito pouco promissor. Por isso tenho trabalhado a fim de captar os recursos e encontrar sempre a melhor forma de apresentar meus trabalhos para o meu público”.

O artista também comentou as estratégias que ele e sua equipe tem desenvolvido para o médio e longo prazo de sua carreira: “Inicialmente estamos desenvolvendo algumas estratégias direcionadas para as redes sociais visando expandir a base de fãs. Entendendo as métricas que as plataformas nos dão, a médio e longo prazo o estímulo desses números é o que possibilitará que a engrenagem continue girando, fazendo os outros trabalhos crescerem na mesma proporção. Todo esse trabalho visa a possibilidade de um lançamento periódico em um período mais curto entre cada lançamento”.

“Sendo independente, criar uma estratégia é algo difícil. Na música em si, existem muitos profissionais em diversas áreas por trás do backstage. Uma boa relação com uma label ou distribuidora te traz um direcionamento mais assertivo. As próprias plataformas de streaming tem seus tópicos que auxiliam na estratégia. Algo que considero muito importante é essa curiosidade. Buscar entender sobre estratégia de lançamento faz a diferença, pois no final das contas o sucesso do seus trabalho vai muito além de lançar músicas e esperar que elas convertam rápido e de forma orgânica”, reiterou.

Trabalho como produtor

Além de rapper, Felipe também é produtor musical. Em Brasília, sua cidade natal, o músico administrava um estúdio, onde recebia outros artistas. Enquanto conversávamos, o perguntei sobre os impactos da pandemia na área. Segundo ele, durante pandemia houve sim uma queda na procura, mas não foi apenas isso que mudou: “Houve sim uma queda, mas além disso passamos por algumas mudanças. Eu acabei me mudando, então hoje já não tenho mais essa renda. Passei a trabalhar com um outro amigo, que é quem tem feito esse trabalho. Hoje não tenho meu foco tão direcionado para a área de produção em si. Tenho buscado outras alternativas dentro do nicho. Estou direcionando minha atenção mais para a minha carreira. Vejo que a saturação do mercado não me permite mais ficar parado fazendo as mesmas coisas, então estamos estudando o possibilidade de lançar um curso de produção mais pra frente, e exercer minhas funções dentro da minha gravadora com os artistas com quem já estamos trabalhando. Para o artista independente, dois pilares fundamentais: o planejamento de carreira e o orçamento para conseguir concretizar seus trabalhos”.

Alaska

Para falar atual momento da carreira de Santzu, precisamos falar da Alaska, a sua nova gravadora. Formada por ele e por outros grandes nomes como Dalsin, Froid e Cynthia Luz, ela surgiu no segundo semestre de 2020 e vem se solidificando dia após dia. “Hoje eu sou um dos artistas da gravadora, que também é responsável por esse meu próximo disco. Além disso, lá eu desempenho outras funções, como a de produtor. Também já estamos trabalhando em um projeto maior para o ano de 2021. Eu sempre fiz as coisas por conta própria, então agora com uma equipe ao meu lado eu tenho a possibilidade de focar no meu trabalho de forma mais intensa e exclusiva”, afirma Felipe.

Segundo o rapper, uma das estratégias da gravadora é baratear os custos do produto final investindo em estrutura e equipamento. “Falando em lançamentos, estamos desenvolvendo os próximos trabalhos visando criar portfólio dentro da gravadora, que cuida de todas as questões financeiras atualmente. Também estamos terminando de organizar nosso espaço para conseguir trabalhar de uma forma mais otimizada. Temos alguns projetos já  produzidos, assim como bastante material gravado. Ainda não posso dar muitos detalhes, mas logo estaremos anunciando novidades (risos)”, ele completa.

Dentro do canal próprio da Alaska, já estão disponíveis alguns singles, como as faixas Kyoto, do Froid, Pássaros, do Chris MC, e Desastre, do Victor Xamã. Pícaro Sonhador será o segundo disco lançado pelo selo, que iniciou seus trabalhos com Não é Só Isso, álbum de Cynthia Luz lançado no mês de setembro.

Projeto com Froid, Xamã e Major RD

Apesar de não ter revelado muito sobre os futuros projetos da Alaska, Santzu comentou um pouco sobre a mixtape colaborativa que ele e Froid desenvolveram com Xamã e Major RD. Os quatro MC’s se reuniram em Brasília e gravaram esse projeto que deve ser lançado nos próximos meses. “Esse foi um projeto até rápido. A partir do planejamento, conseguimos o desenvolver em cerca de uma semana. O Xamã e o RD são dois irmãos com quem já dividimos palcos e a estrada, então a proximidade ajudou o projeto a ser concretizado. Na oportunidade que a gente teve de estúdio, estivemos trocando muitas referências e compartilhando alguns trabalhos uns com os outros. Desse brainstorming surgiram as músicas – não com um conceito definido, mas com o direcionamento que definimos para cada faixa”, diz o rapper, que também fez questão de ressaltar a importância de expandir seu contato com outros artistas:

“A parte mais valiosa do processo é esse network. A gente aprende muito quando trabalha com outros artistas. Eu sou uma pessoa muito curiosa, como falei, então estou sempre buscando me atualizar sobre ferramentas novas, sobre meus números e gráficos. E o network eu vejo como a maior ferramenta. Não só falando sobre mercado, mas em um contexto geral. Dentro de qualquer área, trabalhar o network às vezes é mais valioso que fazer números apenas. Para o artista que é independente e está começando, é muito difícil enxergar essas coisas ainda. E pelo fato de serem muitos detalhes que devem ser levados em consideração, se torna ainda mais difícil que ele tenha essa ideia bem clara. Eu, por exemplo, demorei alguns anos até ter esse insight, mas faz toda a diferença. Muito mais importante do que enviar sua música pra toda sua lista de contatos com um texto colado e pedir atenção, é buscar se relacionar com as pessoas de uma forma mais pessoal”. 

Confira o clipe de Fica Bem, single de Santzu, Xamã, Froid e Major RD que abre as portas do projeto colaborativo dos MC’s:

Escrita por João Victor Pena, Rima em Prosa é a coluna especializada em rap do Mais Minas. Nela, são publicadas notícias, matérias e entrevistas relacionadas à tudo de principal que tem ocorrido no rap nacional. Caso tenha gostado da entrevista com o Santzu, recomendamos a leitura de nossas matérias com Menestrel, Derek e DaLua.

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