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Rima em Prosa #32: Delatorvi comenta clipes excluídos, TikTok e novos projetos colaborativos

Natural de Nova Lima-MG, Delatorvi (Vitor Hugo Teixeira) alcançou reconhecimento nacional por conta de faixas como Para Sempre 21, Itália (feat. Yung Nobre), Shalom (feat. Raffa Moreira) e Mais do Que Essas Notas. O rapper é integrante do coletivo Savage Mob, que traz, além dele, artistas como Abbot, Loc Dog, Mordecai e Somynem. 

João Victor Pena 8 de abril de 2021 às 07:59
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16 min
Imagem: Reprodução/Youtube
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Estudante de jornalismo na PUC Minas e articulista da coluna Rima em Prosa, do Mais Minas.

A Rima em Prosa está de volta. Após alguns meses de hiato, enfim consegui colocar a coluna novamente nos eixos. Na edição de reestreia, vocês poderão conferir uma conversa que tive com o rapper Delatorvi, no fim de março. Atravessando um novo momento em sua carreira, o mineiro luta para recuperar os números que tinha em seu antigo canal no YouTube, que foi excluído da plataforma junto de todos os seus videoclipes e músicas, após uma grande polêmica que misturou suas vidas profissional e pessoal. Esta é a segunda matéria que faço com o artista, a quem já tinha entrevistado em 2019, no meu perfil no Medium. Já aqui na Rima em Prosa, ele participou de uma publicação do meu amigo e jornalista Maic Costa, onde falou sobre sua participação na edição de 2020 do festival Planeta Brasil.

Natural de Nova Lima-MG, Delatorvi (Vitor Hugo Teixeira) alcançou reconhecimento nacional por conta de faixas como Para Sempre 21, Itália (feat. Yung Nobre), Shalom (feat. Raffa Moreira) e Mais do Que Essas Notas. O rapper é integrante do coletivo Savage Mob, que traz, além dele, artistas como Abbot, Loc Dog, Mordecai e Somynem. 

(Aviso de gatilho: esta entrevista aborda temas sensíveis e que podem despertar gatilhos de suicídio e depressão).

TikTok

Ao longo dos últimos dois anos, o TikTok se tornou um grande fenômeno do mundo virtual. A rede social chinesa tem se consolidado como um importante canal musical ao promover vídeos de humor, dança e desafios com coreografias. No trap brasileiro, Kawe, Jovem Dex, Teto e Abbot são alguns dos artistas que viralizaram faixas no aplicativo. Inserido dentro desse cenário, Delatorvi comentou sobre sua relação ainda um pouco distante com o TikTok:

“Não sei lidar muito bem com TikTok, tá ligado? Eu já tô mais velho pra isso (risos), mas cheguei em um momento da minha carreira que eu consigo entender, tento entender tudo que acontece. E eu acho que a dança tá muito próxima das pessoas mais jovens. Desperta a alegria. Acho legal. Quem dera tivesse isso antes. E o Abbot mora comigo, então ver essa ascensão através do TikTok é muito foda. Principalmente por tudo que aconteceu por trás da música (Hylander, feat. Somynem.grin) e etcetera. Ver isso chegar nas pessoas mais jovens de forma tão infantil é muito bom. Mostra que a música tá acima de outros corres. O único vídeo que eu fiz pro TikTok foi um fumando um chá na frente da viatura da polícia, porque eu sou gangsta (risos). E tem alguns virais lá, algumas pessoas dançando umas músicas minhas. O filho do Tiririca lá (Tirullipa) colocou o áudio da Tilelê com o Djonga pra tocar e eu tô até recebendo por isso, eu nem sabia”. 

Nova fase musical 

Ainda comentando sobre TikTok, perguntei a Delatorvi se em seus próximos lançamentos poderíamos esperar músicas mais comerciais e com refrões chiclete, que se encaixam melhor no perfil que atinge mais o público do aplicativo. “O próximo lançamento, sim, vai ter um refrãozinho mais chiclete. Eu tô pra lançar duas músicas aí: a com beat do Gordeno, que é a Freestyle 2021, e tem a Shereselfie, que é com o Xitter, e tem o refrãozinho mais chiclete. Eu acredito que vai bater, tá ligado? A gente gravou o clipe com a Lala Feliciano e a Tata Cordeiro, que é uma tiktoker aí. Essas são as informações que eu posso dar, o resto é segredo”, respondeu o rapper, revelando detalhes de algumas de suas próximas faixas. Ao longo da entrevista, Delatorvi comentou bastante de seus novos projetos, que incluem mixtapes e o seu primeiro álbum oficial:

“Eu tenho um projeto de R&B e trap com o meu mano Guuh, que é um dos melhores cantores de R&B de BH. Essa mixtape vai chamar Colecionadores de Groupies (risos). A gente vai soltar aí, vai vir pesado. E tem o meu álbum, Frank Lucas, que é meu projeto principal para esse ano de 2021. Em breve vou anunciar os feats, a tracklist, como vai ser distribuído e etc, etc. E tem a mixtape Me Leva a Sério como meu mano Xitter também e várias participações. Então pode ficar tranquilo que esse ano vai ter muito conteúdo. Até agosto, 60% disso aí já vai estar na pista”. 

Perguntado sobre um possível projeto individual, Vitor disse que pretende trabalhar suas faixas solo mais no formato de singles e videoclipes. “Talvez no disco eu venha com algumas solo, mas o momento agora é de fazer feats, porque eu preciso disso pra recuperar o gás do meu canal e ajudar outras pessoas, eu tenho noção disso”, complementou. Apesar disso, ele destacou o impacto da track Di Rocha na sua volta ao rap: “O lançamento foi da hora, tá ligado? Os números são mais baixos que os de antes, lógico, por tudo que aconteceu com o meu canal, mas pra mim foi muito importante lançar uma música solo. Eu voltei com um feat (Eu Juro), com o Sem Mentiras no Meu Rap (Nvnes), e depois meti a Di Rocha, que é a solo. Direção do Diego Esteves, que fez o documentário Trap de Cria. Tivemos uma vivência muito da hora, foi gravado em dezembro do ano passado, antes de ter acontecido tudo isso com o meu canal. Então foi uma música que eu não poderia deixar de soltar. E fiquei feliz pelos sete mil plays que ela já bateu”. 

Por fim, o rapper também falou sobre seu novo selo, o Escrevendo Sonhos. Vitor disse que ainda está desenvolvendo o projeto, por isso não pode dar muitos detalhes, mas explicou como será a dinâmica do grupo: “Então, infelizmente eu não vou poder falar muito sobre a gravadora Escrevendo Sonhos. É um projeto que eu ainda estou escrevendo, mas acredito que até o final do ano isso já esteja executado. Eu tenho quatro artistas em mente que vão ser artistas da Escrevendo Sonhos. É um processo de composição, entendeu? Esse projeto terá como foco principal a composição de faixas. Nós iremos compor músicas um para o outro e para outros artistas que tiverem interesse. Então isso é só o que posso falar sobre o projeto, por enquanto. Em breve ele vai estar na pista também, depois que todos os outros projetos saírem”.

Polêmica nas vidas pessoal e profissional 

Em dezembro do ano passado, Delatorvi foi às redes sociais pedir ajuda pois precisava recuperar os vídeos e clipes de seu canal do YouTube que, segundo ele, haviam sido excluídos por hackers. Na ocasião, o rapper acabou revelando que estava bem mau com a perda de suas músicas e havia tentado cometer suicídio. Cerca de um mês depois, já em janeiro deste ano, o ex-produtor e primo do artista, Bob Bastos, publicou em seu Twitter pessoal uma série de posts contando novos detalhes dessa história. Lá, acabou revelando publicamente que os conteúdos haviam sido apagados pela produtora musical Attlanta,  namorada de Vitor na época do ocorrido. Posteriormente, no mesmo dia, ele e ela publicaram seus lados da história no Twitter. Bastante pessoais, os relatos expunham detalhes do namoro, da tentativa de suicídio do músico, e de chantagens emocionais e traições que ocorreram por parte dele.

“Atualmente não tenho contato algum com ela, e a minha proximidade com o Bob, que é meu familiar, reduziu um pouco, mas, acho que isso é questão de família, um dia isso vai ser resolvido. Sangue é sangue”, explica Delatorvi. O artista preferiu não entrar em detalhes sobre seu tratamento e demais questões levantadas na polêmica: “Foi um erro. É bizarro pelo menos pensar nisso, tentar reviver isso. Eu não gosto de pensar nisso. Eu segui um tratamento… Prefiro não entrar em detalhes sobre esse assunto”.

“Eu só gostaria de deixar um adendo: eu fui prejudicado. Minha renda foi cortada pela metade, todos os meus videoclipes foram excluídos e ninguém me ressarciu isso monetariamente. E mais uma vez, a única desculpa que eu devo é às pessoas que trabalharam ali para que aqueles clipes fossem executados”, reitera o rapper. Além de seu canal pessoal, o perfil da gravadora AnteHype Music no YouTube também foi apagado. 

Durante a nossa conversa, ele comentou também sobre a evolução de seu estado emocional: “Estado emocional, acho que a definição seria apreensivo. Mas eu tô tentando renderizar tudo isso, vamos dizer assim. Ressignificar, ter resiliência para seguir em frente… E, pelo menos na parte da minha música, eu tô satisfeito com o que tenho trabalhado, com o que tenho feito, com os acessos que eu tenho conseguido de forma independente, sem literalmente ninguém dessa vez ao meu lado. Tá sendo um processo de aprendizado para ver valor em coisas que antes talvez eu não via. O novo Delatorvi hoje é uma pessoa mais experiente, literalmente”. 

Declaração sobre Djonga

Em dezembro de 2020, dentro de uma série de publicações no Twitter onde desabafava sobre sua carreira e lembrava de feats com rappers grandes que nunca foram lançados, Delatorvi disse que Djonga havia deixado de soltar uma faixa gravada com ele há quase um ano, por conta de seu namoro com Attlanta. Comentando sobre o caso, Delatorvi disse estar arrependido de sua declaração:

“Sobre essa questão aí, eu me arrependo de ter dito. Eu acho que ninguém é obrigado a apoiar ninguém, nem nada. Cada um tem sua parte, cada um tem seu merecimento e cada um deve saber até onde a empatia do outro deve ir. Sigo admirando ele musicalmente e eu faço minha parte aqui, e ele faz a dele lá. É isso. Só é uma pena esse trabalho não ter saído, porque ficou uma música muito boa. E a gente se identifica, querendo ou não. Nossas letras sempre sempre foram parecidas, de certa forma”. Caso lançada, essa faixa seria a segunda colaboração da dupla, que já havia lançado Tilelê, canção que faz parte do disco Homem Negro Mundo Branco, lançado por Delatorvi em 2016.  

Temporada em São Paulo e retorno para Minas

“Cara, viver em São Paulo nesses últimos dois meses foi rejuvenescedor. Eu estava me sentindo muito mal, preso… Ainda mais com a pandemia, e depois de tudo o que aconteceu. Eu tava vindo de uma boa sequência de shows, cachê e tal, e aí acabei perdendo a minha renda pela metade com a exclusão do canal. Então, voltar para São Paulo me deu uma nova visão de vida. Pra parte do rap, pra parte cultural. Vi que tem muita gente no corre também, passando dificuldade maior. Me fez crescer, amadurecer. Eu acredito que me ajudou muito. Conheci outros artistas também. Artistas tão impactantes quanto os que eu conhecia antes, tá ligado? Então é isso. Viver em São Paulo pra mim foi uma experiência completamente positiva. Tanto pra experiência, quanto pra parte negativa de você falar “nó, véi, tô precisando disso” mas você ver que, de cerma forma só você pode resolver seus problemas, sabe?”, disse Delatorvi, ressaltando a importância do período que passou em terras paulistas. Durante sua estadia no estado, o rapper gravou faixas com Yung Nobre, Denov, LordPrince, DevilGreen, Klyn, entre outros artistas.  

De volta a Minas, Vitor também falou sobre sua nova rotina: “Tô morando em Belo Horizonte, na favela do Cabana. Me sinto bem recebido lá. BH é minha casa é onde vai terminar meu rap, mas tô tentando viajar pra vários estados agora (quando a entrevista ocorreu, Delatorvi estava em Florianópolis-SC), pra girar um novo rap. Nunca tinha feito isso na minha carreira, e agora aos 27 eu quero fazer”. 

Faixas apagadas do YouTube

Durante a entrevista, ao comentar sobre as faixas excluídas de seu canal, Delatorvi confirmou que está planejando fazer remixes de duas das músicas que foram removidas do YouTube. O artista preferiu não comentar muito a respeito, mas confirmou que uma das faixas escolhidas é a clássica Para Sempre 21, seu trabalho solo de maior sucesso até hoje. “Para Sempre 21 remix feat é um plano para o futuro. Só não posso falar com quem, porque você já sabe: toda vez que eu falei na minha caminhada com quem eu iria gravar parece que as más línguas acompanharam e a energia ruim veio (risos). Então não vou citar com quem, mas vai acontecer”, complementou. 

O cantor também refletiu sobre os motivos que contribuíram para a exclusão desses trabalhos e a falta de suporte do YouTube:

“Com certeza há uma falta de suporte do YouTube. Se não, não teria acontecido, né. Se eu tivesse números grandes, talvez nada disso teria acontecido. Mas eu acho que o hate é muito grande. Quando você é um artista ácido, quando você tem opiniões impopulares e que acabam atingindo coletivos de pessoas que não querem pensar no coletivo, isso afeta a sua própria carreira a partir do momento que você abre brecha. Então eu acredito que, apesar de tudo, de terem acontecido injustiças, eu também abri brecha por ser muito ácido em alguns momentos e causar ódio em outras pessoas. E a gente não pode controlar o ódio dos outros. A resposta foi isso. Eu nunca imaginei que teria pessoas na minha vida que seriam capazes de fazer isso, mas eu tenho certeza que todas as pessoas que fizeram isso não são parecidas comigo esteticamente, nem racialmente. Curiosamente, todas essas pessoas que excluíram os videoclipes, inclusive a que excluiu o videoclipe de Itália, do Yung Nobre, são pessoas brancas, tá ligado? Isso reflete muito na estrutura brasileira. São pessoas brancas apagando o trabalho de pessoas negras”.  

Futuros feats

Com prévia lançada nas redes sociais e campanha de divulgação pronta, a faixa Espírito Santo, que contará com a participação do rapper Sant, teve sua estreia adiada indefinidamente. Delatorvi comentou a respeito: “Cara, o lançamento com o Sant iria acontecer dia 04/12, que era o meu aniversário. Eu pretendo dropar a track ainda, mas nós ainda não tivemos oportunidade de trocar ideia exatamente sobre isso. Porque tem o álbum dele pra ser lançado… Tudo o que aconteceu… acabou esbarrando na carreira, né. Então eu tenho noção de que eu tenho que ter sabedoria de esperar. Espero que meus fãs entendam isso também”. 

Outro feat muito aguardado pelos fãs de Vitor, é com o MC paulista Denov. “Sim, eu vou estar no novo álbum do Denov, na faixa Eu Não Confio em Ninguém. Muito foda. Ficou muito louca. Acho que foi a minha música de resposta para tudo que aconteceu. Postei a prévia no Twitter e ela bateu uns 60K, mas ainda não temos data pra dropar ela. A gente vai filmar o clipe dela ainda esse mês. Mas ainda não sei se tem data para soltar. Provavelmente vai sair no álbum do Denov e eu não sei como ele vai distribuir nas plataformas, mas vai sair. E não é uma música só, são duas; e a outra tem feat do Klyn. Então essas são as duas faixas que estão pra vir”, comenta o músico.

Shows durante a pandemia 

Outro discussão que vem dividindo opiniões nos últimos meses, é a respeito dos shows (clandestinos ou não) que tem ocorrido ao redor do Brasil durante a pandemia. Dentro do rap, a questão ganhou evidência quando Djonga realizou um grande show no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, em dezembro. O rapper logo virou um dos assuntos mais falados do Brasil e sofreu muitas críticas, tendo que ir a público falar a respeito. Além dele, artistas como Belo, Dfideliz e Cleber e Cauan também se envolveram em polêmicas relacionadas. Segundo Delatorvi, não houve nenhuma proposta ou conversa para que ele realizasse apresentações durante a quarentena. “Um dia antes de começar a pandemia eu tinha um show marcado pra BH, que acabou não acontecendo. Foi um tour, um rolo compressor de notícias, né. Mas eu acabei fazendo uma participação no Baile do Totonete, no Rio, no final do ano passado. Foi durante a pandemia. Tava ali aquele baile reduzido, mas acabou acontecendo. Depois disso não tive mais nenhuma apresentação, mas pretendo voltar. Espero que com a vacina chegando agora pras pessoas mais idosas, e a pessoas se cuidando mais, possa voltar tudo ao normal. Já não vejo a hora de fazer um show, pular no palco, abraçar as pessoas…”, complementou. 

Ao mencionar críticas do público, e perguntar sua opinião a respeito do cancelamento de artistas que estão realizando apresentações, Delatorvi me respondeu mostrando sua indignação com essa cultura:

“Eu odeio o cancelamento cada dia mais. Não importa qual âmbito seja, tá ligado? Com exceção de jack (estuprador). Pra mim, a internet criou um poder sobrenatural sobre outras pessoas. Quando a barriga aperta, a gente passa a repensar sobre essas coisas, então eu pretendo finalizar essa entrevista dizendo que todo mundo que gosta de cancelar as pessoas tem que se foder também, pra ver como é ruim!”.

Escrita por João Victor Pena, Rima em Prosa é a coluna especializada em rap do Mais Minas. Nela, são publicadas notícias, matérias e entrevistas relacionadas à tudo de principal que tem ocorrido no rap nacional. Caso tenha gostado da entrevista com o Santzu, recomendamos a leitura de nossas matérias com Santzu, Derek e DaLua.

Última atualização em 8 de outubro de 2021 às 08:03