Hospital Veterinário usa pele de tilápia para tratar feridas em animais

A equipe do Hospital Veterinário de Uberaba (HVU) recebe, de 27 a 29 de outubro, um treinamento para o uso de pele de tilápia no tratamento de animais com feridas ou queimaduras. A capacitação será feita pela pesquisadora, médica-veterinária, Behatriz Odebrecht Costa, da Universidade Federal do Ceará, onde a pesquisa foi desenvolvida. O estoque inicial de pele disponibilizado é de 30 unidades, suficientes para o atendimento de até 15 pacientes. 

O treinamento contará com palestras teóricas sobre o tratamento e cinco sessões práticas com a aplicação de pele de tilápia liofilizada (produto desidratado, irradiado e embalado a vácuo) em um tamanduá-bandeira, um gato, um cão e um equino. “Em função do aumento do número de queimadas no Brasil nessa época seca, muitos animais tiveram problemas sérios de queimaduras e estes pesquisadores trazem uma tecnologia avançadíssima de recuperação desses animais com o uso de pele de tilápia. Por meio dessa parceria com os pesquisadores cearenses, conseguimos viabilizar a capacitação de toda nossa equipe de docentes e de técnicos”, explica o Pró-Reitor de Pesquisa, Pós-graduação e Extensão da Uniube e Diretor-executivo do Instituto de Estudos Avançados em Veterinária “José Caetano Borges”, doutor André Fernandes.

A pele de tilápia é rica em colágeno, que protege a superfície da pele e que impede a perda de água, diminuindo a chance de infecções. É uma barreira biológica que não precisa ser trocada diariamente e muito útil no tratamento de animais silvestres, que não podem ser manipulados todos os dias. “Além da eficácia como curativo biológico para queimaduras, o produto também já foi testado com êxito no tratamento de veias varicosas e em cirurgias ginecológicas. Destaque para um procedimento inédito no mundo, a utilização da pele do peixe na reconstrução vaginal e em cirurgias de redesignação sexual. Com o dobro de colágeno em relação à pele humana, o produto melhora a cicatrização e evita infecções e perda de líquidos e de proteínas em feridas e queimaduras. A pele também está sendo testada internamente no corpo humano, como válvula cardíaca, vasos, telas para hérnia, prótese mamária, tendões, levantamento de útero e de bexiga, entre outros”, conta o coordenador da pesquisa, o cirurgião-plástico Edmar Maciel.

Outra grande vantagem da pele de tilápia é que a remoção dela só ocorre após a completa cicatrização, evitando as dores agudas provocadas pela troca diária de curativos. Além do Brasil, a técnica foi testada nos Estados Unidos, em 2018, durante incêndios na Califórnia/EUA. “Para nós, é uma grande satisfação desenvolver um produto que possa trazer mais conforto para um paciente com algum tipo de ferimento, diminuindo a dor e o número de trocas de curativos. A minha expectativa com este treinamento é que seja dado para estes animais uma alternativa de tratamento eficaz e menos dolorosa, principalmente para aquelas lesões que têm a cicatrização mais difícil e demorada”, enaltece a pesquisadora Behatriz.

O tratamento com pele de tilápia também foi utilizado recentemente nos animais silvestres queimados no Pantanal com a mesma equipe do Ceará. “Em parceria com a 5ª Companhia de Polícia Militar de Meio Ambiente e do 8º Batalhão do Corpo de Bombeiros Militar, o HVU tem resgatado animais silvestres recentemente com queimaduras na região do Triângulo Mineiro, devido aos incêndios, que foram os maiores nos últimos três anos. Por isso, esta capacitação é muito interessante, por se tratar de uma tecnologia brasileira de baixo custo, mas de eficiência comprovada em animais e até em seres humanos. As parcerias entre instituições de ensino demonstram que o caminho é sempre compartilhar tecnologia que irá ajudar os animais e os seres humanos”, diz o gerente clínico do HVU, médico-veterinário e professor universitário Cláudio Yudi.

Ainda, para o HVU, a parceria técnico-científica é de grande valia devido ao aperfeiçoamento dos tratamentos e do ensino repassado aos alunos de Medicina Veterinária, aprimorandos e mestrandos em Sanidade e Produção Animal nos Trópicos. “Vai ser muito importante a qualificação do nosso corpo técnico e clínico do Hospital, oferecendo mais um serviço para a comunidade, para os animais da região inteira do Triângulo e Alto Paranaíba. O HVU é uma referência e com o acréscimo destes serviços vai ser ainda mais importante para a região como um todo. A gente vê isso como um projeto muito relevante para a melhoria do portfólio de serviço que o HVU oferece à nossa comunidade”, pontua o Pró-Reitor André Fernandes.

A pesquisa, iniciada com o tratamento de queimaduras em humanos, já engloba 12 áreas da Medicina, além da Veterinária e da Odontologia, e foi destaque em quatro séries internacionais: The Good Doctor, The Resident, Grey’s Anatomy e Vampiros. Sob a coordenação do cirurgião-plástico Edmar Maciel, presidente da ONG Instituto de Apoio ao Queimado, a pesquisa conta com 242 colaboradores, está presente em sete países (EUA, Alemanha, Holanda, Colômbia, Guatemala, Argentina e Equador) e em oito Estados brasileiros (PE, RS, GO, SP, RJ, PR, MG e CE), já ganhou em primeiro lugar 16 prêmios, foi objeto de 24 artigos em publicações nacionais e internacionais e participou de dois projetos de pesquisa em parceria com a NASA.