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Como ajudar a criança a estudar durante a pandemia

Elis Bohrer 26 de agosto de 2021 às 03:36
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11 min
Foto: Canva
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A rotina escolar sofreu muitas alterações com o advento do coronavírus. Neste momento,  a maioria das crianças estão estudando em casa. As escolas, professores e pais precisaram se adaptar para ajudar a criança a estudar durante a pandemia.

Além das dificuldades no acesso a internet e a celulares e tablets, professores e pais enfrentam o desafio de prender a atenção das crianças em relação às aulas virtuais. Se presencialmente mantiver de 20 a 35 crianças centradas já era difícil, imaginemos a distância?

Nossa reportagem conversou com a Taís Fernanda Trentini, pedagoga que atua na cidade de Ariranha, no Noroeste Paulista. Ela confirmou a informação acima e falou mais sobre essas dificuldades, “Acredito que o maior desafio seja o acesso a internet e computadores em casa. Diversas famílias não possuem computadores em casa e, muitas vezes, a internet não comporta a plataforma utilizada pela escola.

Então, o que tem ocorrido é a escola disponibilizar os materiais e atividades impressas onde o aluno realiza sem precisar ter acesso às redes, um material que seria dividido para 5 horas de aula, por exemplo, acaba sendo feito em uma carga horária menor pelo fato da criança não ter o auxílio de um professor e a família não conseguir estar presente para essa quantidade de tempo orientando a criança, então isso acaba se tornando um grande desafio”, explica.

Segundo a pedagoga, ter organização é um ponto positivo para a criança que ainda está no estudo remoto, “Um passo muito importante para preparar as crianças para as aulas on-line é criar uma rotina com a criança como se ela estivesse na escola.

Ter um diálogo em que ela entenda que estamos em um momento atípico e que a aprendizagem vai ser em casa por um período. Então, estabelecer os horários para que ela fique ciente de que, aquele momento é como se ela estivesse na escola e não o momento de ver televisão ou de brincar, entre outros”, orienta Tais Trentini. 

A participação dos pais também é importante, entretanto a professora enfatiza a importância de deixar que a criança crie autonomia nos estudos, e que a interferência direta dos pais seja evitada,  “ Estar presente sempre que possível. Com as crianças em casa e uma família que trabalha, é preciso lembrar que ela terá apoio dos profissionais e da escola à distância, por isso, elas  precisam que os familiares estejam ali para orientar e não para fazer por elas.

O que ocorre muitas vezes, são os responsáveis chegarem em suas casas depois do trabalho e não ter a paciência para ajudar seu filho, acabam perdendo a paciência ou até fazendo para eles, isso não ajuda a criança a ter rendimento. Por isso a importância de estabelecer uma rotina que não seja cansativa para ambos e fazer com que o ensino em casa seja menos pesado”, destaca.

Um estudo realizado pelo Instituto Datafolha apontou no final de 2020 que 54% dos alunos que estavam realizando ensino remoto estavam desmotivados, “A indisposição acaba sendo comum. Na escola, a criança teria contato com outras crianças e com a professora, nas aulas virtuais ela só tem isso através de uma tela (ou nem isso). 

Se as aulas foram gravadas, o familiar pode observar se o horário em que a criança está assistindo não está sendo cansativo para ela, acordar ela muito cedo ou estar deixando para tarde da noite, por exemplo. Outro ponto, é observar em que local da casa a criança está participando das aulas, se for na sala, onde a televisão está ligada e sempre transitando outras pessoas, com certeza a indisposição e a falta de atenção irá piorar.

 A criança precisa estar em um local isolado de ruídos e de itens que tire sua concentração, como por exemplo, o celular. Observe também, se a criança está tendo pausas durante essas aulas, é importante lembrar que a criança continua tendo suas limitações, ela precisa fazer a hora do lanche e fazer suas necessidades básicas como se estivesse na escola. 

Por último, deixar a criança ser criança, ou seja, brincar, explorar, imaginar e criar, mesmo que seja dentro de casa, se chegar o momento da aula e ela não brincou, ou logo depois da aula ela tiver inúmeras outras tarefas chatas, com certeza a sua indisposição vai ser cada vez maior para a aprendizagem. Mais uma vez ressalto a importância de uma rotina, se organizar os horários para cada item: horário de brincar, horário de estudar, e outros, aos poucos ela irá se adaptar e acostumar com os horários definidos”, disse Taís.

Em 2020 também mais de 5 milhões de crianças e adolescentes ficaram sem estudar, um salto grande se compararmos com o número de 2019 que foi de 1,1 milhão. Um dos fatores que influenciou nesse crescimento repentino foi a suspensão das aulas presenciais somado às de acesso à internet, entre outros motivos. Pedimos a opinião da professora sobre a continuação desses índices, sua resposta foi otimista:

“Com o andamento das vacinas em 2021, acredito que não ultrapasse esse senso, em muitos estados do país, está sendo planejado para que as aulas presenciais voltem no segundo semestre de 2021.

A vacinação dos professores tem avançado nos últimos meses, isso cria uma segurança para que as aulas voltem. Porém, ainda assim, acredito que o trabalho será intenso, analisando que muitos alunos voltarão para as escolas com defasagem e dificuldades deixadas pelo ensino remoto”. Tais Trentini destacou também a importância das aulas presenciais, “A pandemia trouxe inúmeros desafios, inclusive para as crianças que gostam de brincar, interagir e se socializar, tivemos que mudar nosso estilo de vida rapidamente para a nossa proteção, se nós adultos demoramos a nos adaptar, imagine as crianças? De repente precisam cortar contato com a professora e colegas e a escola passa a ser em casa. 

Além disso, muitas crianças necessitavam do ambiente escolar para que seus pais pudessem trabalhar e até para que elas pudessem se alimentar, porque essa é uma realidade grandiosa no nosso país. 

Portanto é preciso respeitar esse espaço e essa mudança que a criança está tendo na pandemia e assumir um compromisso observando os pontos mencionados, sempre lembrando que a criança é um ser em construção e precisa do apoio dos pais em casa”, finaliza. 

A pandemia modificou drasticamente a rotina de gestores, professores, alunos e suas famílias. De forma repentina, o ensino presencial teve que adequar-se ao modelo EAD, enfrentando desafios colossais, para elaboração de uma nova didática de ensino e mudanças no processo avaliativo, em tempo recorde. No entanto, para além dos desafios já citados, o maior entrave do ensino remoto, concentra-se na dificuldade de acesso à educação, visto que grande parte dos educandos, não possui ferramentas digitais e conexão com o sistema global de redes interligadas.

Lady Lea de Souza, que leciona na rede pública de educação em São José do Rio Preto (SP), também concedeu uma entrevino esta ao Mais Minas. A definiu as mudanças no ensino como “repentinas”, e também entende a situação social dos alunos como o maior obstáculo: 

A pandemia modificou drasticamente a rotina de gestores, professores, alunos e suas famílias. De forma repentina, o ensino presencial teve que adequar-se ao modelo EAD, enfrentando desafios colossais, para elaboração de uma nova didática de ensino e mudanças no processo avaliativo, em tempo recorde. No entanto, para além dos desafios já citados, o maior entrave do ensino remoto, concentra-se na dificuldade de acesso à educação, visto que grande parte dos educandos, não possui ferramentas digitais e conexão com o sistema global de redes interligadas” esclarece Lady. 

Ela complementou sua fala: 

“A construção de um ambiente virtual de aprendizagem, se fez necessária no novo cenário mundial. Assim, o desenvolvimento de reuniões virtuais educacionais, passou a integrar a rotina de grande parte dos educandos.

A premissa para essa nova abordagem educacional, concentra-se no acesso a ferramentas digitais e dispositivos conectados a internet de qualidade. Entretanto, a excelência dessa prática, exige ações como a garantia de uma rotina de estudos, que envolva horários fixos e previamente definidos, ambientes favoráveis ao exercício da atenção e reflexão, sem distrações desnecessárias e o acesso organizado e facilitado aos materiais de apoio, para o desenvolvimento de múltiplas aprendizagens”.

Lady foi questionada sobre como os responsáveis podem ajudar um aluno a ter um bom rendimento educacional, em resposta ela disse: 

“O sucesso educacional é o objetivo de todas as ações e atores envolvidos nos processos de aprendizagens. A viabilização dessas expectativas, depende diretamente de atuações conjuntas envolvendo discentes, docentes e a contribuição efetiva da sociedade. 

Sob essa ótica, é possível afirmar que a família, em parceria com a escola, possui um papel crucial no bom rendimento dos educandos. Ações como a valorização do ensino no cotidiano familiar, a propiciação de hábitos de estudos na rotina diária, a criação de vínculos comunicativos envolvendo as experiências escolares, a participação ativa das famílias na comunidade escolar,  a celebração de bons resultados e o apoio e incentivo frente ao erro, são fundamentais para o crescimento de todo e qualquer indivíduo”.

A professora que também atende como “Tia Lady”, é a favor do diálogo, segundo ela conversar com as crianças é a melhor solução quando elas apresentarem indisposição quanto as aulas. 

“No mundo atual, a tecnologia é algo intrínseco ao universo infantil. Ferramentas e dispositivos digitais fascinam as crianças. Dessa forma, o desafio de utiliza-la em favor da educação, não se apresenta como uma barreira intransponível.

Diante da recusa das crianças, em utilizar os recursos tecnológicos a favor da aprendizagem, a construção de diálogos que oportunizem a conscientização e a reflexão acerca da importância da educação e a definição conjunta de metas e regras, que considerem o lazer condicionado ao dever, são passos importantes para a queda do entrave apresentado.”

A professora também critica a maneira com a qual a educação vem sendo gerida no Brasil. 

“A garantia dos direitos de aprendizagem nos últimos tempos constitui-se como um grande desafio. A dubiedade entre a necessidade de preservar a vida e oportunizar o ensino, em um país onde há tamanha disparidade social, deixou e deixará milhões de estudantes negligenciados.”

A pandemia do coronavírus mudou completamente a maneira de se fazer educação em todo o mundo. Crianças, adolescentes e adultos precisaram passar por situações atípicas e para isso contaram com os profissionais da área que, no caso do Brasil, nunca tiveram, contudo merecem o reconhecimento. 

“Os prejuízos educacionais gerados pelo cenário da pandemia, são incontáveis. Inesperadamente fomos aturdidos em meio à uma nova realidade, que se instaurou sem permitir qualquer planejamento prévio.

Em meio ao caos, nos adaptamos da melhor forma possível, priorizando o direito à vida, fazendo inovações diárias e construindo tentativas, com intuito de minimizar os danos, nos diferentes setores que compõem o nosso cotidiano”. 

Cinco dicas para ajudar a criança no ensino remoto 

– Ter uma rotina de horário, pelo menos durante a semana;
– Acompanhar os estudos e se certificar de que a criança está participando realmente da aula;
– Não realizar atividades, trabalhos ou avaliações pela criança
– Permitir que a criança brinque fora do horário escolar
– Cuidar da alimentação e hidratação (ingestão de líquido) da criança
– Participar das reuniões periodicamente para compreender quais são os planos da professora e escola