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Rodolpho Bohrer
Rodolpho Julio Marci Bohrer é socio-fundador e diretor geral do Mais Minas. Estuda jornalismo na Universidade Cruzeiro do Sul e atualmente é repórter de política, cidades e loterias. Contato: comunicacao@maisminas.org

Uma análise sobre “Um Índio”, de Caetano Veloso

As composições de Caetano Veloso das décadas de 80 e 90 trazem profundas reflexões e mensagens ocultas a serem desvendadas. “Um Índio” é um dos enigmas do artista. Lançada no álbum “Bicho”, ela abre o lado B de um dos discos mais épicos do baiano.

“Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul
Na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias”

Na primeira parte da canção, Caetano Veloso fala sobre um ser com poderes especiais que virá à América do Sul. Ele chama o ser “Um Índio” nome da música. Nessa parte o cantor expõe que este ser já exterminou todos os continentes da terra e falta apenas “o coração do hemisfério sul, na América”.

“Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá”

No refrão apocalíptico, Caetano compara a perfeição do ser vindouro a Muhammad Ali, o pugilista considerado um dos maiores no esporte.

Cassius Marcellus Clay era seu primeiro nome, no entanto, após se converter ao Islamismo, o boxeador mudou seu nome para Muhammad Ali-Haj. O esportista também gravou dois discos musicais e lutou contra o racismo, e quando esteve em Louisville para apoiar a luta da população local por moradia, declarou: 

“Por que me pedem para vestir um uniforme e me deslocar 10.000 milhas para lançar bombas e balas no povo marrom do Vietnam, enquanto os negros de Louisville são tratados como cachorros, sendo-lhes negados os mais elementares direitos humanos? Não, não vou viajar 10.000 milhas para ajudar a assassinar e queimar outra nação pobre para que simplesmente continue a dominação dos senhores brancos sobre os povos de cor mais escura mundo afora. É hora de tais males chegarem ao fim.

Fui avisado de que essa atitude me custaria milhões de dólares. Mas eu já disse isso uma vez e vou dizer de novo. O inimigo real do meu povo está aqui. Não vou desgraçar minha religião, meu povo ou a mim mesmo tornando-me um instrumento para escravizar aqueles que estão lutando por justiça, liberdade e igualdade…

Se eu pensasse que a guerra traria liberdade e igualdade a 22 milhões de pessoas do meu povo, eles não precisariam me obrigar, eu me juntaria a eles amanhã mesmo. Não tenho nada a perder por sustentar minhas crenças. Então, vou para a prisão, e daí? Nós estivemos na prisão por 400 anos.”

 

Caetano também compara o ser a Peri, um índio, personagem fictício do romance ‘O Guarani’, de José de Alencar. No conto, Peri abandona seu povo para viver uma história de amor com uma branca.

E Caetano Veloso continua a fazer comparações: “Tranqüilo e infalível como Bruce Lee”. Nessa parte muitos religiosos associam a comparação ao papado, e pelo título “infalível” que o compositor deu a Bruce Lee, outros comparam à besta do apocalipse, usando menções bíblicas para argumentar a tese.

Bruce Lee foi o maior representante da arte marcial chinesa Kunk Fu que passou pelas telas de Hollywood, onde seus filmes históricos o aclamaram como maior e mais infalível lutador de artes marciais.

O grupo Filhos de Gandhi, que Caetano menciona ao final do refrão, refere-se a um dos maiores grupos de afoxé, tendo seu surgimento em 1949, em Salvador (BA). O grupo mescla elementos da cultura africana ao induísmo, inspirados no líder ativista político Mahatma Gandhi, que militou pela paz mundial.

“Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto-sim resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará
Não sei dizer assim de um modo explícito”

Já na segunda estrofe da canção, Caetano Veloso faz uma analogia ao ser que virá, sendo ele existente no plano real, puro, bondoso, poderoso e misericordioso, que tomará atitudes nunca tomadas em todo o universo; atitudes não tomadas por todos os seres viventes que passaram e/ou passarão pela terra.

“E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio”

Caetano termina o enigma musical deixando nas entrelinhas que ao se revelar, “o índio” deixará todos de queixo caído, pelo fato de estar o tempo todo entre nós e não o notarmos.

Tire suas conclusões, ouça aqui a música “O Índio”, de Caetano Veloso.

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