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Polarização: Por que parte do Brasil comemora sua pior derrota desde o 7 a 1?

O Brasil perdeu a final da Copa América pelo placar mínimo na noite desse sábado (10), no Maracanã. A Seleção campeã foi a maior rival Argentina, mas esse revés não foi capaz de trazer raiva para uma parcela da população brasileira, muitos, inclusive, estavam torcendo para o adversário. Mas por que uma derrota desse tamanho é glória para os argentinos e não traz tristeza para parte dos anfitriões?

Perder para a Argentina em pleno Maracanã é motivo de decepção para o torcedor brasileiro, certo? Na verdade, para muitos não, pois esse sentimento frustrado e desanimado com a Seleção Canarinho parte de uma decadência esportiva notória desde o 7 a 1 contra a Alemanha, no Mineirão, em 2014. Mas, para muito além disso, a própria Copa América executada em solo brasileiro já havia gerado um desagrado de grandes proporções, algo que, inclusive, afetou até na audiência dos jogos que foram transmitidos pela SBT e não pela Globo com a tradicional voz de Galvão Bueno.

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O momento político e social que o Brasil vive é de muita instabilidade, com uma queda brusca de popularidade do atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido), além de uma estabilidade negativa da economia, que encareceu produtos, trouxe problemas para muitos brasileiros colocarem comida na mesa e o número de desemprego ainda é de altas proporções (14,4 milhões).

Além de tudo isso, o Brasil se tornou um epicentro da covid-19, matando mais de meio milhão de pessoas e no dia 11 de julho de 2021, um dia após a final da Copa América, nem 15% da sua população recebeu imunização contra a doença. Tem também o trabalho diário da popular Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que está investigando todas as ações do Governo Bolsonaro durante a pandemia, incluindo um superfaturamento na compra das vacinas.

Então, a Copa América que não pôde ser feita na Argentina, justamente por conta da pandemia, e na Colômbia, por conta do momento político, foi feita no Brasil, onde ambos os quesitos estão indo de mal a pior. Quando foi noticiado que jogadores e comissão técnica tinham um posicionamento contrário à execução da competição em território brasileiro, muitos acharam bobeira – “é só colocar quem quer jogar” – mas outros alimentaram uma expectativa de um “boicote heroico”, relembrando jogadores progressistas e que tomaram protagonismo dentro da política brasileira, como Sócrates, Reinaldo e Casagrande.

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O capitão da Seleção Brasileira, Casemiro, ainda deixou a entender que os jogadores realmente não iriam entrar em campo. Nisso, caiu o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Rogério Caboclo, houve murmúrio do técnico Tite ser sacado do time para colocar Renato Gaúcho, apoiador de Bolsonaro, no lugar. Até que todos se posicionaram: “Vamos jogar a Copa América”. A primeira decepção de grande parte dos brasileiros veio aí.

Esportivamente, até chegar à final, o Brasil não encantou em nenhum jogo. Contra adversário bem inferiores tecnicamente, Tite teve a oportunidade de experimentar jogadores na titularidade e novos esquemas táticos, o que para o brasileiro que ligou a televisão para assistir aos jogos foi um verdadeiro “porre”. Com muita facilidade, a Seleção Brasileira chegou à final da Copa América (que era praticamente uma Eliminatória para Copa com mata-mata, ou seja, um tanto quando entediante).

Enquanto isso, para os argentinos, aquela era a competição da vida deles, com jogos animados, contra adversários difíceis, como Uruguai, Chile e Colômbia. Além de tudo isso, um dos maiores jogadores da história do futebol, Lionel Messi, tinha sangue nos olhos, foi o artilheiro da competição ,com cinco gols, e líder de assistências, com quatro. Deu gosto de ver “La Pulga” jogar, como nos velhos tempos.

Mas, afinal, faz sentido torcer para a Argentina?

Se fizer uma análise de fora, mais fria sobre o assunto, nota-se que os problemas no Brasil são quase enumeráveis e o descaso com a população acompanha o tamanho fracasso esportivo, de uma Seleção que perdeu o encanto, que é só mais um time comum se auto intitulando de “pai” nas redes sociais e dizendo que estava “on” antes dos jogos, sendo que dentro de campo não se viu nem uma “bundinha de vagalume acesa”. O elenco da Seleção Brasileira é, de fato, muito bom (menos nas laterais), mas não apresenta um bom futebol e também não possuem um perfil de vencedor. O futebol não encanta e não traz brilho ao torcedor.

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No embate político, a “birra” que muita gente tomou da linda camisa da Seleção Brasileira só reforçou esse desgosto pelo clube de futebol representante do Brasil. A marra nas redes sociais nunca trouxe ao brasileiro um alto-astral, de também se achar o “rei da cocada”, como o samba de Ronaldinho Gaúcho já fez um dia. Tudo o que há na Seleção Canarinho hoje parece trazer é desgosto ao seu torcedor, o desestimulando a torcer e vibrar.

Mas ainda assim, cabe a ressalva quanto a Neymar. Muitas das vezes, a imprensa e a torcida erra a mão com o camisa 10 do PSG. Tudo bem que o jogador também não se ajuda em alguns momentos, porém a antipatia que ele gera em uma parte dos brasileiros está ligado a seus posicionamentos (ou falta deles), suas fotos com Jair Bolsonaro, suas atuações (de novela) dentro de campo, ou mesmo o seu grande pronunciamento contra pessoas que torcem contra a Seleção e ao mesmo tempo se cala sobre a falta de vacinas, emprego e saúde para as pessoas de seu país. Mas, enfim, é o craque do Brasil.

Após recapitular tudo isso, faz sentido torcer para a Argentina contra o Brasil na final? Ora, eu não vou melhorar o Corinthians torcendo para o Palmeiras, o mesmo vale para a rivalidade entre Atlético e Cruzeiro, Flamengo e Vasco, Grêmio e Internacional. Os argentinos ganharem a final ajuda em quê na situação dos brasileiros? Seja esportivamente, socialmente ou politicamente? “Assim eles veem que está tudo errado”, mas o 7 a 1 já mostrou isso. “Ah mas a história dos argentinos campeões depois de 28 anos, após a morte do Maradona, com o Messi ganhando seu primeiro caneco…” Ok, mas pergunta a algum argentino se ele quer brasileiro torcendo por eles. Muito pelo contrário, a maioria mais pulsante das redes sociais e nos arredores do Maracanã proferiram ofensas sujas contra os brasileiros, inclusive Messi.

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Projeção

O Brasil terá 10 jogos das Eliminatórias, competição na qual é líder, até o final de março do ano que vem. Lembrando que 2022 é ano de Copa do Mundo no Catar e, ao mesmo tempo, haverá novas eleições presidenciais. O futuro é confuso, ainda está nebuloso tanto em termos sanitários, quanto esportivamente e na política também. Ninguém sabe até onde essa polarização vai dar, se haverá emprego no ano que vem, ou mesmo vaga nos cemitérios.

Mas é preciso entender a mudança disso tudo não parte do jeito de Neymar jogar ou mesmo do Tite mudar sua escalação. Os brasileiros nunca estiveram tão desesperançosos com o seu futebol, com a sua política e coma economia, mas bater continência para outro país não é sinal de patriotismo e não resolve em nada a situação do Brasil. O que pode mudar está no voto, na consciência de classe, no olhar para o próximo com o mesmo cuidado que as pessoas se olham.

Não é obrigação da Seleção Brasileira ganhar nada, o território geográfico já basta para o brasileiro entender qual bandeira deve representá-lo. O Brasil ainda tem um inimigo forte nas ruas, que frequentemente entra nas casas das pessoas e rouba suas vidas. A população precisa de vacina, voltar a ter emprego, e, também condições de levar uma vida digna. A luta sempre esteve presente na história do país e segue diária para grande parte da população que precisa trabalhar horas e horas por dia para pôr comida na mesa, como todo país sul-americano subdesenvolvido é. Segue o samba de Beth Carvalho, “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

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