EntretenimentoEsporteExclusivaFeminismoMulher

O mundo machista presente nos jogos eletrônicos

Uma pesquisa feita em 2016 pela Sioux (uma agência de tecnologia interativa), a Blend New Research (empresa especializada em consumo) e a Game Lab (divisão da ESPM dedicada à experimentação e pesquisa em jogos), afirma que 52,6% do público consumidor de jogos eletrônicos são mulheres. Ou seja, a maioria dos usuários desse mundo.

Porém, mesmo sendo a maioria, a realidade dentro dos jogos é completamente adversa a esse fato. A opressão feita por parte dos homens é gigante. A comunidade gamer por si só já é descrita como “tóxica”, mesmo entre os jogadores do sexo masculino. Entretanto, quando se trata das mulheres, essa “toxidade” é ainda maior. Frases como “o seu lugar é na cozinha, não aqui”, “você é mulher, não sabe jogar”, “só podia ser mulher” (quando fazem algo errado no jogo), “cala a boca, você não sabe de nada, você é mulher”, “sua puta, vagabunda”, são “ouvidas” diariamente, fazendo com que, muitas vezes, a saída encontrada por elas, é de esconder seu gênero por trás de um nome (no mundo gamer chamado de ‘nick’) masculino.

Mas, muitas vezes, só isso não basta. Algumas decidem abandonar os jogos por não aguentarem mais sofrer esse tipo de violência. Como no caso de Vanessa Nascimento, que adorava jogar “League of Legendes” (LOL), mas há três anos parou de jogar depois de um episódio traumático de machismo. Tudo aconteceu porque o sinal da internet ficou ruim no meio da partida, o que nada tem a ver com seu gênero.

Ela contou para O Globo como aconteceu o episódio:

Eu estava em uma partida com um amigo meu, que estava conectado comigo pelo Skype. Quando começou a partida, minutos depois, o sinal da minha internet ficou fraco, travando a partida. Eu perdi o controle do jogo. A única coisa que funcionava era o chat, onde não parava de subir mensagem. Até esse momento, ninguém sabia que eu era mulher, eu não usava o meu nome. De início, só falavam que eu não podia entrar no jogo se a minha internet estivesse ruim. O meu amigo tentou me defender e entregou que sou mulher. A partir daí, o nível dos ataques mudou. Até de crioula e macaca eu fui chamada, e olha que sou branca.

O machismo enfrentado por elas vai além de insultos em chats, vai além de ter sofrido somente dentro do ambiente virtual. A situação é tão grave e estrutural, que atinge diferentes patamares.

Personagens sexualizadas

Bom, o problema já começa aí, na própria estrutura dos jogos, que reafirmam todo o machismo presente nesse ambiente. A discussão sobre esse assunto já ocorre há muitos anos, mas nada ainda foi feito para resolver o problema. Várias opiniões e estudos diferentes giram em torno do tema.

Para contextualizar: em qualquer jogo online, seja de luta, FPS, moba, RPG, enfim, existem personagens femininas, e todas elas (ou sua grande maioria), são representações extremamente sexualizadas, com roupas curtas, ou praticamente inexistente, decotes e afins, além da imposição de um padrão de beleza, com personagens de seios avantajados, cinturas extremamente finas, bundas grandes e traços delicados. Veja alguns exemplos:

O mundo machista dentro dos jogos eletrônicos
Miss Fortune de League of Legends
Personagens de vários jogos
O mundo machista dentro dos jogos eletrônicos
Personagens femininas de Mortal Kombat

O mundo machista dentro dos jogos eletrônicos
Lara Croft do jogo Tomb Raider

Uma das questões levantadas é que a representação estética das personagens fazem com que as mulheres que jogam tenham uma insatisfação com seus corpos. Mas, segundo um estudo feito pelas universidades Steston University e Fairleigh Dickinson University, jogar com personagens femininas com um padrão corporal e sexualizadas, não tem um impacto tão grande assim na satisfação das jogadoras.

O estudo se baseou na experiência de 100 mulheres ao jogar duas versões de Tomb Raider, o Tomb Raider Underworld, de 2008, e o Tomb Raider Reboot, de 2013. No primeiro, a personagem principal, Lara Croft, é sexualizada ao usar biquínis e roupas de mergulho coladas, que enfatizam a cintura, quadris e os seios. No segundo, ela usa calças cargo e blusa, com um visual mais comum e não tão apelativo.

Após jogarem com os dois, as 100 mulheres preencheram um estudo de autoavaliação. Os resultados mostraram que a personagem sexualizada não fazia com que se sentissem pior com relação ao seu corpo, tendo em vista que elas consideravam como uma personagem ficcional, sem fonte realista de comparação.

Entretanto, isso não faz com que a representação sexualizada das personagens não esteja errada. Já, que, por mais que as mulheres não se sintam inseguras com seu próprio corpo devido às personagens femininas estereotipadas, essa representação mostra como as mulheres são tidas e vistas como um “objeto sexual” dentro dos jogos. Que, fundamentalmente, são assim para atrair um certo público: o masculino. Que até uns anos atrás era parte predominante.

Ao vender uma imagem sexualizada, inferior, fraca, das mulheres, muitos homens acabam comprando a ideia de que mulheres reais são basicamente isso também, dentro do jogo. Ou, que, por não serem iguais as personagens, elas são discriminadas. Um estudo estudo de pesquisa sobre padrões comportamentais humanos percebeu que a sexualização de personagens femininas nos jogos é uma “condição de influência” para que haja assédio sexual online contra as mulheres.

Além da sexualização, tem também um pouco do lado inverso… quando as personagens não são extremamente sexualizadas, como se o seu papel dentro do jogo fosse inferior aos dos homens, como se fossem, dentro todos, os personagens mais fracos, ou que estão ali apenas para “enfeitar” o jogo, há também as personagens “em perigo”. Como, por exemplo, a princesa Peach, de Mário World, que sua única função é “ser salva pelo seu príncipe encantado”. Sempre colocando a mulher no papel de submissa.

As dificuldades enfrentadas dentro do jogo e no competitivo

Como dito, mesmo as mulheres sendo a maior parte do público gamer, “a presença das mulheres infelizmente tem sido rechaçada pelo universo masculino”, diz Alexandre Ottoni, o Jovem Nerd, ao Tech News, ao lembrar que os gamers homens ainda hostilizam jogadoras que entram em fóruns. Mesmo que as coisas tenham melhorado, ainda está longe de ser o ideal. A maior parte das principais competições internacionais aceitam participantes de qualquer gênero, em tese. Porém, na realidade, a maioria esmagadora ainda é de homens, que disputam os troféus e holofotes mais importantes do mundo dos games.

No competitivo de CS:GO, existe o Team oNe, formado exclusivamente por mulheres, quebrando completamente o paradigma de um mundo dominado por homens no e-sports. Mesmo estando em nível profissional, as meninas contam como essa trajetória foi e ainda é complicada.

O medo começou quando percebi que esse mundo dos e-sports era predominantemente masculino e ainda havia muito preconceito estampado nesse meio. Eu sabia que seria difícil, e que teria que dar o dobro de mim para ultrapassar algumas barreiras. E senti muito isso ao longo dos anos em que me dediquei para chegar ao cenário profissional, sofri com alguns preconceitos ali e aqui, simplesmente por ser mulher. Diana “MIttens” Trevisan, membro do time

 

Também do Team oNe, Julia “Julih” Ferreira, conta que, em 2018, ao jogar uma partida ranqueada no Dia Internacional da Mulher, foi insultada por um dos participantes do time, sofrendo agressões verbais com palavras extremamente machistas e ofensivas. Ela reportou a atitude do jogador para a Valve, mas ele nunca foi punido, o que acontece muito.

Várias situações machistas que as mulheres enfrentam dentro dos jogos, inclusive no meio competitivo, reforçam a necessidade da existência de campeonatos exclusivamente femininos, já que parece praticamente impossível que todos os gêneros possam jogar em harmonia. Isso não é o ideal, mas uma alternativa que possa contribuir para o crescimento das mulheres nesse meio, além de uma oportunidade de novos taletos surgirem, tendo em vista que muitas mulheres preferem não se expor, devido às retaliações.

Algumas empresas já promovem esse tipo de campeonato, porém, ainda estão muito escassos, e não existem de todos os jogos. Além disso, o investimento é bem reduzido. Na competição feminina de CS:Go deste ano, o prêmio foi de 60 mil dólares, enquanto na competição principal, o prêmio máximo foi de 500 mil.

Mesmo que ainda muito difícil e aos poucos, o mundo do eSports vem tendo pequenos avanços para se tornar um ambiente mais igualitário e menos misógino.

Deixe seu comentário

Etiquetas
Mostrar mais
Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar