Volta à Câmara, relação com Angelo Oswaldo e jeito menos “explosivo”: Após eleito, Kuruzu concede entrevista exclusiva ao Mais Minas

É quase impossível ser indiferente e não pautar Wanderley Rossi Júnior, o Kuruzu, quando se fala da política ouro-pretana. Seguido por muitos, e odiado por outros tantos, o ex-aluno capixaba da UFOP marcou a cidade usando uma forma pouco convencional de se fazer política em comparação ao que se via das atuações políticas antes da sua primeira eleição, que ocorreu em 2000. Com o Partido dos Trabalhadores (PT) em alta, incluindo,dois anos depois, a ascensão de Lula à liderança do país, Kuruzu esteve no protagonismo em Ouro Preto ao longo de muitos anos, intensificando um debate público em torno de lutas que até então pareciam adormecidas, como é o caso do direito à moradia e do transporte público. Aliás, foram os movimentos sociais que tiraram Kuruzu da condição de coadjuvante e, após 12 anos, o colocam de novo sob os holofotes da opinião pública, agora em uma época distinta daquela que o fez se reeleger em 2004, se levarmos em consideração a luta que o PT enfrenta para voltar a conquistar o papel que tinha no seu tempo áureo.

Admitindo que os últimos 12 anos que esteve fora da Câmara os fizeram mais maduro, e que a forma como agora ele deve atuar pode ser diferente, buscando mais diálogo e menos “explosão”, Kuruzu diz que independente da forma, a busca por uma sociedade mais justa e menos desigual continua sendo o seu referencial político.

Décimo vereador eleito mais bem votado em Ouro Preto, nas Eleições de 2020, Kuruzu concedeu uma entrevista exclusiva ao Mais Minas.

Entrevista de Kuruzu ao portal Mais Minas

Se preferir, a transcrição do diálogo pode ser conferida a seguir:

Mais Minas (MM): Você se elegeu vereador após um período de 12 anos seguidos sem um mandato no Legislativo Municipal, situação que é rara de um modo geral no Brasil e inédita no município. Você procurou se reinventar para ser eleito novamente vereador em Ouro Preto ou você acredita que houve algum cenário político na cidade favorável à sua eleição agora:

Kuruzu: Na verdade a gente que acredita que um outro mundo é possível e se dispõe a lutar pela construção desse outro mundo, a luta da gente não para. Estando em exercício de mandato ou não, a luta da gente continua. Creio que por estar sempre na luta do povo, o povo resolveu me reconduzir à Câmara Municipal de Ouro Preto. Aproveito para agradecer a generosidade e a confiança que o povo de Ouro Preto mais uma vez depositou em mim.

MM: Por muitos desses anos você esteve envolvido diretamente em movimentos sociais. Considerando um especificamente, o de direito à moradia, você já tem projetos pensados e/ou prontos para serem apresentados na Câmara? Caso sim, esses projetos são viáveis de serem implementados a curto prazo?

Kuruzu: Nossa luta é por moradia e também por planejamento urbano, pelo direito à cidade. Que a cidade seja uma cidade mais humana. Uma cidade onde as pessoas de baixa renda são expulsas para morar nas encostas, nas nossas montanhas, nas nossa áreas de risco, essa cidade não é boa para ninguém. Mesmo quem mora no centro histórico sofre, por exemplo, com o impacto no trânsito, devido a mão de obra estar na encosta, na montanha, chamada “Serra de Ouro Preto”. Boa parte da mão de obra por muito tempo morou nessa serra, enquanto o emprego ficou do outro lado. Por exemplo, a antiga Alcan, Novelis, hoje Hindalco, além da fábrica de tecidos, a antiga paulista, a universidade, o IFMG, etc., ficou a mão de obra de um lado e o emprego e o trabalho do outro. E isso fez com que se intensificasse cada vez mais o trânsito no centro. Pessoas precisam ir e voltar para o trabalho. Então essa cidade desigual, que não se preocupou com a questão da moradia e do planejamento urbano, fica ruim para todo mundo. Na Câmara, o poder do vereador não é tão grande assim. Para resolver mesmo, quem resolve é o Executivo. Mas há leis que a gente pode debruçar sobre elas, como é o caso do Plano Diretor e da Lei de Parcelamento e Uso de Ocupação do Solo. Aí sim a gente pode atuar na condição de parlamentar e buscar aperfeiçoá-las, fazer com que essas leis tornem nossa cidade mais humanizada. Nós demos início à revisão do Plano Diretor de Ouro Preto no inicio deste ano. O plano estava vencido fazia mais de oito anos, então nesse tempo que passamos no governo, aproximadamente oito meses, nós demos início à revisão desse plano em um evento histórico, com a presença de mais de 400 pessoas no Centro de Artes e Convenções da UFOP. Posteriormente, esse trabalho foi interrompido em função da pandemia. Tanto a elaboração quanto a revisão do Plano Diretor precisam ser feitas com ampla participação popular. Então, esse trabalho está suspenso e nós pretendemos colocar o nosso mandato a serviço dessa causa também. Nós trabalharemos muito intensamente nessa revisão do plano, sobretudo incentivando e fazendo o que está ao nosso alcance para propiciar uma maior participação popular possível no processo.

MM: Você foi um vereador de oposição de destaque quando Angelo foi prefeito de Ouro Preto, entre 2004 e 2008. Pelo cenário de inexperiência política de muitos dos vereadores eleitos para o mandato de 2021-2024, já se fala nos bastidores da politica que você será o político que “dará trabalho” ao prefeito na Câmara. Após eleito, você conversou com Angelo Oswaldo? Existe algum tipo de mágoa entre você e ele?

Kuruzu: Na verdade eu fui de situação por um tempo e de oposição nos dois últimos anos ao então prefeito Angelo Oswaldo. Fiz parte da articulação que formou uma grande frente que o elegeu em 2004. Aí houve um distanciamento durante o exercício do nosso mandato. Não tenho mágoa absolutamente nenhuma. Política não comporta esse tipo de sentimento. Mágoa, rancor, ressentimento, isso não é da política. Em algum momento a gente está caminhando junto e em algum momento a gente pode se distanciar, e depois de reaproximar. Aliás, isso é como a vida. Me parece que a gente entra nesse jogo da demonização da política, criteriosamente pensada pelas elites dominantes, porque é através da política, e só através dela, a gente pode construir esse outro mundo no qual a gente acredita: mais humano, mais fraterno, mais justo e menos desigual. Então a gente entra nesse jogo, sem perceber, e tudo que é ruim parece que é da política. Mas na verdade o ser humano é assim. O vizinho se desentende com o outro, e depois fazem às pazes. Pai e filho rompem relação e depois retomam. Isso é do ser humano, isso não é da política só. Às vezes as pessoas falam assim, “politico é tudo sem vergonha“, porque hoje estão brigados e amanhã estão juntos, como se isso fosse um grande defeito. Isso é da arte da política. Então, na minha forma de fazer política não há espaço para mágoa, rancor e ressentimento. Há sim momentos de convergência e momentos de divergência. Não pretendo dar trabalho ao prefeito não. Espero que ele [Angelo Oswaldo] trabalhe para o nosso povo, principalmente para os menos favorecidos, porque são eles os que mais precisam das ações dos governos. Se o prefeito fizer um bom trabalho e der atenção principalmente para solução dos problemas dos pobres, eu não darei trabalho nenhum ao prefeito, pelo contrário, estarei pronto para somar e colaborar com o trabalho dele. Eu não conversei com o prefeito depois da eleição, aliás, nem com ele e nem com o atual prefeito Julio Pimenta.

MM: Há algo diferente que um vereador eleito pelo Partido dos Trabalhadores (PT) possa oferecer ao município que outro não possa?

Kuruzu: A gente espera que não seja só de vereador eleito pelo PT, mas que vereadores eleitos por outros partidos também tenham mais compromisso com o trabalho do que o com o capital. Que tenham mais compromisso com a base da pirâmide, mais compromisso com os trabalhadores, com os oprimidos, com os discriminados. Então, um vereador do PT não pode fugir desse caminho. Às vezes a gente faz aliança com diversos partidos, com diversos políticos das mais diversas matrizes ideológicas, mas sem perder o princípio da gente. Eu já fiz aliança com Marisa Xavier, com Angelo Oswaldo, com José Leandro e com Julio Pimenta, sem, contudo, abrir mão dos meus princípios. As alianças são feitas de acordo com a conjuntura do momento e com compromissos feitos. Eu confio que essa Câmara, cujo mandato se inicia em 1º de janeiro próximo, será uma Câmara marcadamente comprometida com uma Ouro Preto menos desigual, com uma Ouro Preto mais fraterna, mais justa, onde ninguém passe fome, onde ninguém não tenha um lugar digno para morar, onde a Saúde atenda a todos, onde tenha Educação, enfim, onde as causas sociais tenham destaque nas agendas dos vereadores e da vereadora.

MM: Os quatro últimos presidentes da Câmara de Ouro Preto não estarão com mandato em vigor na próxima composição do Legislativo. O que se percebe é que o cargo se torna cada vez mais uma opção “penosa” politicamente para quem pretende ocupá-lo, visto o desempenho político de quem se candidatou após ocupar o cargo pelo menos nos últimos quatro mandatos. Você que também já foi presidente da Câmara, acredita que houve um desgaste do seu mandato por causa disso? Você pretende se candidatar à presidência da Câmara?

Kuruzu: Absolutamente! Quando fui presidente da Câmara, foi quando a Câmara teve a melhor avaliação, segundo uma série histórica de avaliações feitas pela Neaspoc (Núcleo de Estudos Aplicados Sócio-Políticos Comparados da Ufop), da Universidade Federal de Ouro Preto, do núcleo de pesquisa. Quando eu fui presidente da Câmara foi o momento em que eu tive maior aprovação popular devido a algumas ações que a gente desenvolveu e também pelo trabalho sempre buscando bom entendimento entre os colegas e as colegas vereadoras. Quando eu fui presidente, nós devolvemos 2 milhões e 700 mil reais, em dois anos. Nós criamos uma série de serviços na Câmara, como o Centro de Atendimento ao Cidadão, internet popular, confecção de Carteia de Identidade – que antes era uma fila terrível na Polícia Civil -, Câmara Cine, Câmara Itinerante, projeto Vereador Estudante, cortamos o 14º e 15º salários dos vereadores, enfim, nós tivemos várias iniciativas que fizeram com que a Câmara tivesse alto índice de aprovação.

MM: Há algo que você pretenda fazer de diferente em relação aos seus outros mandatos? Há algum erro no passado que você acredita que tenha cometido?

Kuruzu: Nós continuaremos na mesma linha coerente com os nossos princípios, procurando a solução sempre primeiro por intermédio do diálogo, do entendimento. Agora, se a gente perceber que está sendo cometido injustiça, ou que o governo não está atendendo o nosso povo, que está desviando daquilo com que ele se comprometeu durante a campanha, aí sim, se necessário, seremos mais enérgicos. Então, não pretendemos mudar não. Agora, é claro, são 12 anos passados. A gente fica mais experiente, mais maduro. É próprio do ser humano, quando se está mais novo, se está mais explosivo, mais incisivo. Na medida em que os anos vão passando, a gente muda a forma de resolver o problema, mas não perde o foco, que é a busca incessante da solução daquele problema, daquela injustiça. É claro que a gente tem muitos defeitos, mas também temos nossas qualidades. E uma que eu prezo muito é a perseverança. Então quando a gente busca um objetivo, como é o caso da luta por moradia, estamos nessa luta desde 2004, e tivemos momentos difíceis. Por mais de uma vez, por exemplo, a polícia entrou na minha casa sem ordem judicial e revirou minhas coisas. Também já houve ameaças de mortes, agressão física, tentativa de contratar companheiro da Ocupação para participar de um plano para me executar. Então passamos por momentos difíceis. Muitas vezes somos incompreendidos. Somos, às vezes, tratados como bandidos, como fora da lei, quando na verdade o que a gente está fazendo é buscando que se cumpra a Lei, a Lei que dá o direito para que todas as pessoas tenham uma moradia digna, a Lei que diz que toda propriedade tem que cumprir uma função social, então a gente é incompreendido por setores da sociedade. A nossa luta é pelo cumprimento da lei. Interessante, por exemplo, como que as pessoas podem, e são até mesmo incentivadas, construir nas áreas de alto risco de deslizamento, em terras que são públicas ou devolutas, em áreas de preservação permanente, e ali os poderes públicos permitem e às vezes até incentivam, agindo completamente fora da lei, enquanto, por outro lado, terras boas, terras firmes, terras adequadas para serem habitadas – já estudadas inclusive, como é o caso das terras da Febem, estudadas por professores da universidade [UFOP], havendo inclusive carta geotécnica de aptidão à urbanização elaborada por esses professores apontando que aquelas terras da Febem são terrar próprias para expansão urbana – e essa terras estão lá abandonadas, fora da lei. Os responsáveis, os prefeitos que ficaram com essas terras sob sua responsabilidade, as abandonaram, não cuidaram delas, foram negligentes ao não cuidar do patrimônio público, enfim, eles estiveram fora da lei por todo o tempo. Entretanto, quem é tratado como fora da lei é quem está lutando para que essa terras cumpram a função social delas, para que os governos tenham programa de habitação que garanta o direito constitucional à moradia digna.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.