Todo Carnaval tem seu fim

Mais um carnaval se encerra e com ele vão embora cinco dias de brincadeira, diversão e amores de verão. Apesar de alguns se mostrarem extremamente críticos a uma das manifestações culturais mais importantes do país, eu particularmente adoro, ainda mais com as ótimas surpresas deste ano.

E o motivo para gostar da folia momesca de 2018 se dá pelo nível de politização dos foliões, em especial nos desfiles de escolas de samba e blocos carnavalescos, algo realmente inesperado, em especial pelo que se viu nos últimos anos.

Em relação aos desfiles das escolas de samba, quem mais teve destaque na mídia foram as apresentações das agremiações do Rio de Janeiro, com destaque para a Beija-Flor, que falou da corrupção e da intolerância, Mangueira, que levou fortes críticas ao prefeito da capital fluminense Marcelo Crivella, e, principalmente a Paraíso da Tuiuti, escola pequena de São Cristóvão e maior surpresa de todas.

Com um enredo que falava da escravidão, o carnavalesco Jack Vasconcelos conseguiu levar para a Sapucaí um desfile que ficou na história: comissão de frente que retratava os maus tratos dos negros nas senzalas, fantasias que mostravam a história de lutas dos mais pobres, alas que retratavam a mídia e os grandes empresários manipulando os chamados “paneleiros” e um carro que tinha como destaque um “vampiro neoliberal”, clara alusão ao presidente Temer. Cabe lembrar que tanto no desfile como nos “melhores momentos” a emissora televisiva detentora da transmissão simplesmente não explicou direito o desfile da Tuiuti, algo, no mínimo, estranho…

Apesar do maior destaque nas redes sociais e mídias alternativas terem sido os desfiles das escolas de samba cariocas, não foi só aí que se perceberam protestos a situação do país. Gritos de “Fora Temer” puderam ser ouvidos em diversas capitais, como em São Paulo, Olinda, Recife e Belo Horizonte, mesmo com as reportagens de TV tentando abafar.

Da mesma forma, blocos carnavalescos tradicionais como o Cordão do Bola Preta, Galo da Madrugada entre outros também apresentaram críticas bem humoradas a situação caótica que vive o Brasil, assim como as diversas fantasias de foliões pelo país afora. Políticos tradicionais que a justiça misteriosamente não condena, como Aécio Neves, Zezé Perrela e José Serra também tiveram suas devidas homenagens, algo que também foi feita com alguns “paladinos da moral”, como o juiz Sérgio Moro, um dos artífices da tenebrosa e lamentável Operação Lava Jato e que, também, pouco saiu na mídia tradicional.

Fatos como os que observamos no Carnaval deste ano mostram que a tal dicotomia entre se divertir e lutar por um país mais justo não existe, pelo contrário, uma coisa não anula ou atrapalha a outra, o desafio que se mostra é entender que nossa cultura não nos aliena ou nos tira do foco, como por exemplo, de lutar contra a Reforma da Previdência, nosso país é formado por um povo alegre, divertido e batalhador, esta sim é o nossa verdadeira imagem!

Talvez o ponto chave seja que nossa verdadeira imagem não seja refletida nos veículos midiáticos tradicionais, mostrando como se faz cada vez mais necessária uma mídia realmente democrática e transparente, algo que, infelizmente, não se enxerga por aí.

 Até a próxima.

Coluna do Peixe - Mais Minas
Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe) é Biólogo e Professor, Especialista em Gestão Ambiental e Mestre em Sustentabilidade. Atualmente é Doutorando em Evolução Crustal e Recursos Naturais pela UFOP/MG.

Leia também:

* Esse texto é um artigo de opinião do colunista e pode não representar a posição do portal Mais Minas sobre o assunto.