Nietzsche for speed – A filosofia moral que capota, mas não freia

por Júlio Dash

Existem duas réguas morais que todos usamos pra estabelecer nossos limites, aqueles que admiramos e aqueles que antagonizamos.

Nietzsche for speed – A filosofia moral que capota, mas não freia
Imagem: Mais Minas

Dificilmente uma pessoa normal vai ir além daqueles que ela admira, esse será seu teto, seja em qual área for, ela sempre estará limitada pela linha que ela marcou no horizonte ao definir que aquela forma de ser era o ideal.

Aqui não digo que você vai alcançar seus ídolos em tudo, o que digo é que você nunca vai ultrapassá-los.

Isso acontece porque essa é só uma parte da questão, a outra é quem você antagoniza.

Tudo que você demarca como inadmissível, horrendo, grotesco, tosco ou odiento, vai ser a risca que você vai traçar no chão para o outro lado.

Existem lugares, físicos e morais, que você não se permite ir.  Em geral eles são representados por alguém, normalmente mais de uma pessoa, ou um grupo de pessoas.

Então você tem o ideal de sucesso e você tem o chorume moral, o que seria a lógica? Ir em direção ao que é bom e deixar o ruim de lado, mas… sejamos sinceros, o que mais vemos são as pessoas reclamando das atitudes de fulano e beltrano lá no caixa prego enquanto deixa coisas boas de lado.

Recentemente saiu um estudo de Robert Heath na revista Science Magazine onde mostra que em situações em que as pessoas podiam estimular áreas do cérebro livremente, entre todas as opções que tinham, entre sentir prazer, calmos ou embriagados, apenas com o efeito psicológico da experiencia, as pessoas optaram por estimular áreas que causam frustração ou raiva.

Então isso meio que define a forma como a maioria das pessoas vive, elas focam no ruim e isso basta. Porque se eu me manter longe daquele lugar que ojerizo, tudo bem. Eu sou uma boa pessoa desde que não faça aquilo que aquelas pessoas que elegi fazem.

É uma forma de sucesso sem esforço. Nada preciso fazer, aliás, posso até ser preguiçoso, porque assim não animo de cometer mais nenhum pecado e isso se torna uma virtude. Também posso ser raivoso e cheio de luxúria, passar o dia na internet falando mal de alguns e dizendo o quão errado são suas atitudes em comparação a forma como vivo.

Também posso ser rancoroso e não perdoar as pessoas por tornarem o mundo ruim. Não preciso fazer dele um lugar melhor, se eu não fizer nada, já tá bom, eu sou virtuoso pelo simples fato de não andar pelo vale das sombras que eu mesmo delimitei.

Com milhões de bolhas digitais e algoritmos dando mais do que consumimos, criamos nossa própria matrix e vivemos bem ali, alimentados de likes provenientes de julgamentos morais dados do conforto de um aparelho eletrônico, aparelho que você até já ouviu falar que foi construído por crianças escravas em algum pais no oriente, mas não pesquisou melhor, porque afinal, como você poderia criticar algo e fazer uso ao mesmo tempo?

Só hipócritas fazem isso e você não é hipócrita. Você só é um guerreiro moral seletivo.

Olhando de perto, ninguém é perfeito e a internet nos possibilita olhar muito de perto, até demais, pras pessoas. Então algumas decidiram que essa linha moral pode dar alguns contornos ao redor de determinadas figuras politicas ou artísticas e pra esses tudo bem se ultrapassar a linha, eu permito, afinal a linha é minha e faço o que quiser com ela.

E enquanto tudo isso acontece, alguém, em algum lugar, tá indo pro outro lado, em direção ao que traçou como bom. Essa pessoa vai viver os meus sonhos, vai realizar meus objetivos, vai ir nos lugares que eu só conheço pelo instagram, mas se ele pensa que vou admirá-lo, está enganada. Porque todo e qualquer podre que eu puder usar pra dizer que seu sucesso não é merecido, eu farei…

De certa forma nossa cultura se tornou Nietzscheniana e tem feito seu crepúsculo dos ídolos, mas também, de certa forma, está fazendo isso muito errado.

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