Se foi Rita Lee, mas os seus dizeres e sucessos serão eternos. Há um pedaço de Rita Lee em cada um de nós brasileiros, por isso ela é eterna. A paulistana de personalidade forte, que experimentou de um tudo, já não era a roqueira estereotipada como “lokôna” mais, embora grande parte da imprensa insista em descrevê-la assim. A vida e momentos de uma artista com a grandiosidade de Rita pode ser compreendida através de suas obras. Aquilo que ele grava/lança, na maioria das vezes, acompanha sua linha do tempo.

Rita Lee não foi uma Rita Lee e sim várias, como ela mesma se descreveu no livro “Uma Autobiografia”, lançado em novembro de 2016, quando a cantora tinha 68 anos, quando Rita Lee encontrou  “tempo para curtir minha casa no mato, para pintar, cuidar da horta, paparicar meus filhos, acompanhar minha neta crescer, lamber meus bichinhos, brincar de dona de casa, escrever historinhas, deixar os cabelos brancos, assistir novela, reler livros de crimes que já esqueci quem eram os culpados, ler biografias de celebridades com mais de setenta anos, descolar adoção para bichos abandonados, acompanhar a política planetária, faxinar gavetas, aprender a cozinhar, namorar Roberto e, se ainda me sobrar um tempinho, compor umas musiquinhas”, como ela escreveu.

Mas ela e todas nós sabemos de sua importância para o empoderamento feminino brasileiro. Aliás, se assumir “dona de casa” sem reservas é também empoderar-se. Quando jovem, a mutante psicodélica personificou a mulher livre, de opinião, de “culhão”, uma personalidade feminina que o Brasil ainda não conhecia.

Através do seu talento, criatividade, com uma vida pública polêmica para os conservadores, visual ousado e com muita, mas muita coisa a dizer, Rita Lee se consolidou como uma das maiores cantoras brasileiras. E em homenagem a esta grande artista que sintetiza o rock, a tropicália, a maior metrópole da América Latina, São Paulo, a liberdade e o ser feminino, trouxemos dez músicas que fizeram história e mudaram a maneira de pensar de muita gente.

Dez hits de Rita Lee que fizeram história na sociedade brasileira

As músicas gravadas e compostas por Rita Lee embalaram romances, lutas feministas, momentos de autocuidado e reflexões sociais, além da descontração. A artista conseguia trazer ponderações importantes por meio de sua arte, sem ser cansativa, de uma forma até mesmo divertida.

Panis et Circenses – 1968

Foi em Os Mutantes que Rita surgiu pela primeira vez na televisão brasileira. A música Panis ET Circenses, composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil foi um divisor de águas para a banda composta por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sergio Dias baptista, isso porque a proposta inicial da banda era ser de rock, com fortes influências de Jimi Hendrix, The Beatles e Sly & the Family Stone, mas acabou recebendo influencias do movimento Tropicália, ao qual também fizeram parte.

“Pão e Circo” traduzindo para o português, remete a uma sátira escrita pelo europeu Décimo Júnio Juvenal, no século II, quando o povo romano optou por receber pão (grãos) e espetáculos circenses e jogos gratuitamente no lugar de sua liberdade de voto.

Trazendo para o contexto brasileiro, os baianos Gil e Caetano satirizaram os sonhos dos verdadeiros artistas brasileiros. Enquanto em Roma as pessoas abriram mão de escolher seus representantes por momentos de diversão, no Brasil a sociedade e representantes nunca valorizaram os artistas. E foi através da voz de Rita Lee que essa reflexão passou a ser praticada no país.

Um trecho da canção diz “eu quis cantar minha canção iluminada de sol, soltei os panos sobre os mastros no ar, soltei os tigres e os leões nos quintais, mas as pessoas na sala de jantar, são ocupadas em nascer e morrer”.

Agora Só Falta Você – 1975

“Um belo dia resolvi mudar, e fazer tudo o que eu queria fazer”, imaginemos o que era para a sociedade brasileira uma mulher cantar essa frase em público? Revolucionário! Composta por Rita Lee e Luis Sérgio Carlini, a canção “Agora Só Falta Você”, que fez parte do álbum “Fruto Proibido”, da banda Tutti Frutti, na qual Rita era vocalista.

Rita trouxe a mulher em processo de empoderamento, querendo se libertar de toda e qualquer amarra que pudesse impedir essa mulher de se realizar na vida. “e fui andando sem pensar em voltar e sem ligar pro que me aconteceu, um belo dia vou lhe telefonar, pra lhe dizer que aquele sonho cresceu”.

Jardins da Babilônia – 1978

Jardins da Babilônia foi lançada com Ritta Lee ainda na banda Titti Frutti e em meio a ditadura militar brasileira, inclusive uma música que foi lançada no mesmo álbum (Babilônia), a “Eu e o Meu Gato” sofreu censura na época. Jardins da Babilônia por sua vez não foi “pega”, mas nas suas entrelinhas conseguimos identificar algumas críticas ao sistema político/militar vigente no país.

Era 1978 quando Rita Lee cantou “o palhaço ri dali, o povo chora daqui, e o show não para, e apesar dos pesares do mundo, vou segurar essa barra”, aqui o palhaço poderia ser o líder de estado e militar Ernesto Geisel, e apesar da ditadura, ela, a própria Rita, simbolizando a juventude teria que “segurar essa barra”, ou seja, se manifestar, ir ás ruas para pedir “Diretas Já”.

Mania de Você, Chega Mais, Doce Vampiro e Papai me Empresta o Carro – 1979

Em seu sétimo álbum lançado, Rita Lee emplacou quatro sucessos que a consolidaram como uma das maiores representantes da música brasileira. A bolacha que leva seu nome “Rita Lee” também ficou conhecido como “Mania de Você”, nome da canção de maior sucesso. Nesse bolero meloso a artista coloca a sexualidade feminina em destaque, “a gente faz amor por telepatia, no chão, no mar, na lua, na melodia”.

Já em “Chega Mais”, Rita também traz a maneira como a mulher gosta de ser tratada intimamente, só que de uma maneira mais leve e livre, “depois me leve pra casa, me prenda nos braços, me torture de carinho, beijinhos, abraços, depois me coce, me adoce, até eu confessar”.

“Doce Vampiro” é uma canção envolvente, quente e sensual. Tudo indica que a ideia de Rita nesse álbum era despertar as mulheres para o seu corpo e desejos através das músicas, por isso ela cantou “Beija a minha boca, até me matar”.

Uma provocação, uma mulher cantando a partir da narrativa masculina, Rita satirizou os “boys” em “Papai Me Empresta o Carro”, “tô precisando dele pra levar minha garota ao cinema”. Além disso, relembrou a uma sociedade conservadora de sua juventude no trecho: “na minha idade ‘cê’ pintava o sete”.

Lança Perfume, Baila Comigo, Caso Sério, Nem Luxo, Nem Lixo – 1980

Novamente Rita Lee lança um disco com o seu nome, que dessa vez ficou conhecido como “Lança Perfume”, justamente por causa da canção. Em homenagem ao seu pai corintiano, que quando seu time ganhava um jogo jogava lança perfume na família inteira, Rita Lee, com muita propriedade e arranjos até então inovadores para o país, lançava uma das musicas que mais a faria conhecida.

“Baila Comigo” também seguia uma vibe bolero, trazendo a natureza, os povos originários, o Sol entre outros elementos tropicais para uma canção que se desenrola no refrão “baila comigo, como se baila na tribo, baila comigo, lá no meu esconderijo”.

Deu para perceber nesse álbum que Rita Lee estava completamente envolvida pela música cubana, em “Caso Sério” mais uma vez a artista propõe um bolero bem romântico “você e eu somos um, caso sério, ao som de um bolero…românticos de cuba libre”. Diversos artistas gravaram a canção, uma das versões mais conhecidas e bem criticadas foi a de Ed Motta (voz e violão).

Já em “Nem Luxo, Nem Lixo, a rainha do rock extravasa e escancara toda a sua energia intelectual e sexual, “não acredito em nada, até duvido da fé…não quero luxo, nem lixo, quero saúde pra gozar no final”.

Mutante – 1981

Sim, Rita Lee foi lançando um disco por ano, como trabalhou essa mulher, não é mesmo? O álbum “Saúde”, com bastante influencia de New Wave, rendeu para a artista a canção “Mutante”, que posteriormente foi gravada por Daniela Mercury.

Também foram extraídos do mesmo álbum as músicas “Banho de Espuma”, que teve como nome original “Afrodite”, porém como foi censurada pela ditadura o nome e algumas palavras precisaram ser alterados e “Saúde”, que tem alguns arranjos de rock/blues.

Flagra – 1982

“No escurinho do cinema, chupando dropes de anis”, quem nunca ouviu? A música traz várias referencias do cinema como atores e personagens de filmes conhecidos. Não demorou muito e logo após lançada a música se tornou o hit do ano.

No mesmo álbum de “Flagra” foram lançadas as músicas “Cor-de-Rosa Choque” e “Brasil com S”, essa última em parceria com o João Gilberto. O nome do disco é Rita lee e Roberto de Carvalho.

Erva Venenosa e Pagu – 2000

Aqui Rita Lee encontrou mais tecnologia para suas produções. Seus lançamentos já deixarem de ser em discos e passaram a ser em CDs. Com sons e letras amadurecidos, a artista propôs o CD “3001”. Sempre a frente de seu tempo emplacou dois sucessos.

“Erva Venenosa” traz o humor como tônica para criticar pessoas maldosas. Já em “Pagu” o “buraco” foi mais em baixo, pois se trata de uma homenagem a escritora e ativista feminista paulista Pagu “nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda, meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem”. A canção se tornou um hino da luta pela liberdade feminina.

Tudo Vira Bosta – 2003

“Eu sei porque vocês vieram aqui, vocês vieram conhecer o segredo da vida, o segredo que faz este movimento do universo contínuo, essa beleza. Nós estamos fundando uma nova igreja, a igreja da escatologia. Se vocês quiserem mandar o dízimo para o palco diretamente, podem jogar, nós estamos aqui exatamente pra isso. Portanto o segredo da vida qual é? A gente nasce, a gente cresce, a gente estuda, trabalha, arranja um emprego, ganha grana, vai ao supermercado, tosta toda a grana na comida, chega em casa, faz comida, come tudo e TUDO VIRA BOSTA!”, disse Ritta Lee em um show antes de cantar uma das músicas que mais trazem reflexão sobre com o que ocupamos o nosso tempo.

Amor e Sexo – 2003

Do mesmo álbum de “Tudo Vira Bosta”, denominado “Balacobaco”, “Amor e Sexo” veio para colocar as coisas em seus devidos lugares. Através dessa música Rita Lee nos ensinou que “amor é latifúndio, sexo é invasão, amor é divino, sexo é animal, amor é bossa nova, sexo é carnaval”.

E é com essa música que encerramos a singela homenagem do portal Mais Minas a essa eterna artista. Descanse em paz Rita Lee.

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Amante da música, compositora e estudante de jornalismo. No Mais Minas é redatora nas editorias de entretenimento, cidades e moda.