Rima em Prosa #20: Ebony fala sobre “Condessa”, o seu primeiro EP

No início do ano passado, uma jovem MC começava a ganhar destaque nacional. Considerada por muitos como a grande revelação de 2019 no rap brasileiro e uma das mais promissoras rappers da atualidade, Ebony deu seus primeiros passos com músicas como Flow BabyGirl, CASH CASH e BratZ. Com apenas 18 anos na época, a cantora, que é natural do Rio de Janeiro, já ganhou o reconhecimento de outros artistas logo de cara, ganhando elogios e compartilhamentos em redes como Twitter e Instagram.

Naquele momento, poucas minas vinham trabalhando com trap no nosso país e ver uma garota tão jovem, rimando com tanta qualidade, chamou a atenção não só de de rappers, como do público e também de produtoras, como a Blakkstar e a Fresh Mind. Hoje, bem mais experiente e com bem mais músicas lançadas, Ebony vem trabalhando na divulgação de Condessa, seu primeiro EP, lançado pouco mais de um mês atrás.

Aqui no Mais Minas, Ebony foi destaque e capa de uma matéria de janeiro, onde elenquei dez grandes promessas do rap nacional para este ano de 2020. Na publicação, ressaltei a qualidade da artista e disse que ela já estava mais próxima de ser uma realidade do que uma promessa. Eu não poderia estar mais certo. Alguns meses depois, a rapper se encontra muito bem estabelecida e participando cada vez mais de grandes projetos e feats. Além de ter colocado nas ruas o seu primeiro disco.

Entrevistada dessa semana na Rima em Prosa, a rapper nos contou detalhes da produção de Condessa e nos mostrou algumas de suas visões quanto à mente do artista, o papel da produtora Fresh Mind em sua carreira e como ela enxerga o panorama do trap no Rio de Janeiro. Confira:

Condessa

Lançado no dia 21 de julho, Condessa é o primeiro EP da carreira de Ebony. Com seis faixas, o disco traz as participações de Yunk Vino e Sidoka; e beats de AJ, Celo, Nagalli e Lotto. Logo ao início de nossa entrevista, a artista nos contou alguns detalhes da produção do disco. Perguntada sobre em que momento do processo de criação definiu o que Condessa e sobre quanto tempo ela trabalhou no projeto, a rapper respondeu:

“Eu acho que foi na terceira música. Porque até ela eu sabia que eu ia fazer uma coisa com todas, só que eu não sabia como conectar. E eu descobri como eu ia conectá-las na terceira faixa. Então, à partir daí, eu soube que seria Condessa. E do zero até a finalização, acho que foram em média seis meses de trabalho”. Ebony também falou sobre as músicas planejadas pro EP e o que acabou ficando de fora da produção:

“Então, algumas músicas passaram por Condessa. A primeira do Vino não foi criada com esse intuito, mas virou depois e foi essencial, na minha opinião. E tivemos duas músicas descartadas que vão ser publicadas como single mais pra frente”.

Mais adiante na conversa, a rapper abordou e explicou um pouco de seu intuito com Condessa:

“A mensagem que eu busquei trazer pro público, com Condessa e com relações amorosas e afetivas que eu trato dentro, é mais sobre o fato de que nós enquanto negros estamos longe de uma certa afetividade. Ou como eu prefiro dizer, a gente não sabe amar ainda. Então, em Condessa, eu me permito errar, amando, através das músicas”

Apesar de ter sido lançado apenas em julho de 2020, o primeiro EP de Ebony vem sendo prometido desde o ano passado. A artista foi enfática ao explicar o motivo da demora em seu lançamento:

“Então, eu não acho e não vou fazer algo que que eu não quero ou não gosto. Não é pra isso que eu faço música. Não esperem isso de mim. Eu sabia que eu iria fazer um EP algum dia, porque eu sabia que um dia eu estaria pronta. Mas eu não tinha pressa nenhuma para esse dia chegar e não ia fazer sem eu estar pronta. Então por isso que demorou (risos)”.

Outro tópico abordado em nossa conversa foi a produção de suas músicas. Perguntei à Ebony se nesses quase dois anos de carreira ela já havia produzido por produzir ou se tudo que ela fez tem significado e a cantora respondeu:

“Eu me esforço o máximo possível para não produzir por produzir. Mas é trabalho, então às vezes acontece, honestamente. Mas é raro, porque eu gosto muito do que eu faço. Eu gosto de ir pro estúdio e eu gosto de fazer música. Então é muito melhor do que pior, e é isso que conta”.

Relação com beatmakers

Apesar do pouco tempo de carreira, Ebony já colaborou com grandes produtores do rap brasileiro. Além dos já citados anteriormente, Malive, Azmuth, Go Dassisti e Jogzz são alguns dos grandes beatmakers que já assinaram batidas para as músicas da cantora. Perguntada sobre seu processo de escolha de beats e sua relação com profissionais da produção musical, a rapper respondeu:

“Graças a Deus eu tenho um beatmaker (AJ) que é muito foda e conheço vários beatmakers foda. Então, sempre que eu tô na área deles, eles me chamam pra gente fazer session de estúdio ou me mandam beats também. E quando calha de eu estar com muito vontade de rimar e não tenho nenhum beat, eu pego algum e uso de referência. Mas não gosto muito de pegar beats dos outros, não. Tipo da internet. No caso, eu prefiro que façam”.

Relação com a Fresh Mind

Além de sua relação com os beatmakers que colabora, a rapper também falou sobre o seu relacionamento com a Fresh Mind, produtora carioca que administra sua carreira:

“Cara, honestamente, a Fresh Mind me auxilia em todos os âmbitos da minha vida. Como eles me auxiliaram em todo o processo de criação do EP? De todas as formas possíveis. Me levando pro estúdio, me apresentando beatmakers, me dando autoridade de escolher coisas e etc”.

Ebony também ressaltou os benefícios de trabalhar ao lado de uma equipe de produção:

“Eu acho que é mais confortável para nossa mente enquanto artista. Pra gente ter tempo pra pensar e tudo mais. E eles cuidam de várias coisas que se eu tivesse que cuidar sozinha, eu provavelmente teria muito menos tempo pra gastar com a minha arte. Eu acho que esse é o benefício de trabalhar com uma equipe de produção”.

Artista da produtora desde 2019, Ebony já lançou algumas músicas no canal da empresa. Entre elas, a faixa Lovesong, o seu mais recente lançamento. Confira o clipe do single:

A mente do artista

Em julho do ano passado, em uma entrevista publicada na minha página pessoal no Medium, conversei com a Ebony sobre diversos fatores de sua carreira, que ainda estava bem no início, longe de todo o sucesso e reconhecimento de hoje. Na matéria em questão, a rapper disse adorar a forma como a mente dos artistas trabalha. Durante a realização dessa nova entrevista aqui para a coluna, perguntei a ela se esse assunto ainda a interessava e ela respondeu:

“Cara, eu amo artistas. Até os que eu odeio, eu amo. Porque são pessoas muito únicas e que passam a impressão que são muito sinceras com elas mesmas e que abraçam seus piores e melhores lados. Os que eu admiro, pelo menos. E eu também (risos). Então eu acho que essa humanidade torna incrível. Tem coisas que distanciam, né? Tipo preconceitos com base em gênero e raça. Infelizmente eu não posso fazer nada e nem quero fazer sobre isso. Por que honestamente, né, vou fazer o quê? Mas isso não torna um artista menos artista. Independente dele ser famoso ou não, ele continua sendo um artista. E eu acho isso incrível.

Ascensão feminina no trap

Outro assunto abordado em nossa primeira entrevista, e que foi retomado aqui, foi a ascensão feminina no trap. Na época, Ebony me disse que gostava de ser a primeira mulher a fazer trap no Brasil, mas que se assustava, já que deveriam ter mais minas na cena. Hoje, a rapper já enxerga uma evolução nesse cenário.

“Hoje eu consigo ver mais mulheres, mas eu ainda acho que a gente tem um problema muito grande com a estrutura que o rap tá inserido. É muito forte o machismo, né, mas eu já vejo mais mulheres e acho que isso é um bom começo. Isso é ótimo” disse a rapper, em seu breve comentário a respeito.

O trap no Rio de Janeiro

“Como carioca, nascida e criada aqui, eu posso dizer com certeza que São Paulo lida melhor com o dinheiro. E com o trabalho. Principalmente envolvendo música e arte. Eles lidam melhor, eles tem mais organização e eles fazem o dinheiro girar melhor. E esse é exatamente o único ponto que pode melhorar aqui no Rio. Fora isso, é “nóis” demais. Porque eu sou cria, “tendeu”?” de forma bem descontraída, Ebony ressaltou a cena carioca e apontou o que deve melhorar no rap do estado. Em plena ascensão, a vertente tem crescido muito no Rio de Janeiro e vem gerando artistas de muito destaque, como ela, Flacko, Borges, Bin, Daddy, entre outros.

Os próximos passos na carreira

Vivendo uma grande fase em sua carreira, Ebony tem se tornado figurinha carimbada em grandes projetos. Do ano passado para cá, a rapper já deixou sua marca em produções como Poetisas no Topo 2, Synthetico (Rap Box), Fresh Stars 2020 PNPL e RIMAR. Perguntada a respeito, a artista disse que amou muito participar do Poetisas no Topo e do Rap Box, mas afirmou que não tem um favorito entre os dois. Ela também ressaltou a vontade de participar de mais projetos assim.

Ebony também falou sobre novos feats. Ela disse que tem várias colaborações vindo por aí, mas que não quer falar muita coisa, pois prefere mostrar do que falar. Apesar disso, a cantora confirmou que novas parcerias com Chris e Azzy vem por aí.

Ao final da descontraída entrevista, a rapper disse que ainda não sabe bem quais serão seus próximos passos na carreira, mas aos risos disse que espera estar viva amanhã. E garantiu aos fãs que eles podem esperar música dela, pois isso é a única coisa que ela pode prometer para o futuro.

Rima em Prosa é a coluna especializada em rap do Mais Minas. Nela, são publicadas notícias, matérias e entrevistas relacionadas à tudo de principal que tem ocorrido no rap nacional. Caso tenha gostado da entrevista com Yung Buda, recomendados as nossas matérias com Yung Buda, Samantha Machado, Aka Rasta e Yunk Vino.

Comentários