Em setembro de 1960, em meio a um Brasil que tentava se afirmar como nação moderna sem romper totalmente com seu passado, Simone de Beauvoir caminhou pelas ladeiras íngremes de Ouro Preto. Ao seu lado estava Jean-Paul Sartre, companheiro intelectual e afetivo, com quem dividia não apenas a vida, mas também um projeto filosófico que atravessaria o século XX. A visita à antiga capital de Minas Gerais não foi apenas turística. Foi um encontro simbólico entre a história colonial brasileira e uma das mentes mais influentes do pensamento moderno.
A passagem de Beauvoir por Ouro Preto integra uma viagem mais ampla ao Brasil, realizada entre agosto e outubro de 1960. Convidados pelo escritor Jorge Amado, o casal veio ao país para participar do I Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, em Recife. Mas o roteiro extrapolou os compromissos acadêmicos. Durante quase dois meses, Beauvoir e Sartre percorreram diferentes regiões, do Nordeste ao Sul, visitando capitais, cidades do interior, áreas rurais e centros históricos.
Ouro Preto, nesse percurso, ocupou um lugar especial. Antes mesmo de chegar ao Brasil, Beauvoir já ouvira falar da cidade. Em Paris, durante um jantar com intelectuais brasileiros, Gilberto Freyre lhe presenteara com um livro ilustrado sobre a antiga Vila Rica. O material despertou sua curiosidade sobre aquele que fora um dos centros mais ricos da América portuguesa no século XVIII, moldado pela mineração do ouro e marcado por profundas contradições sociais.
Um Brasil em transição
A viagem ocorreu em um momento singular da história brasileira. O país vivia os últimos meses do governo de Juscelino Kubitschek, marcado pelo lema desenvolvimentista “50 anos em 5”. Brasília havia sido inaugurada poucos meses antes e simbolizava a aposta em um futuro moderno, racional e planejado. Ao mesmo tempo, desigualdades históricas permaneciam evidentes, sobretudo fora dos grandes centros urbanos.
Beauvoir observou esse contraste com atenção. Em seus diários, mais tarde publicados em A Força das Coisas, a filósofa registra impressões contundentes sobre a pobreza, o racismo estrutural, o papel subalterno atribuído às mulheres e a distância entre o discurso oficial do progresso e a realidade cotidiana da maioria da população.
É nesse contexto que a visita a Ouro Preto ganha densidade. Diferentemente de Brasília, erguida do zero para representar o futuro, Ouro Preto surgia como um testemunho vivo do passado colonial. Suas igrejas barrocas, suas ruas estreitas e suas ladeiras de pedra narravam uma história de riqueza concentrada, exploração do trabalho escravizado e produção artística sofisticada.
A chegada à cidade histórica
Ao chegar a Ouro Preto, Beauvoir encontrou uma cidade que parecia suspensa no tempo. O traçado urbano, praticamente preservado, impunha um ritmo próprio aos visitantes. Caminhar exigia esforço físico. Subir e descer ladeiras fazia parte da experiência. Esse aspecto, longe de incomodá-la, contribuiu para a impressão de autenticidade do lugar.
A comitiva visitou igrejas emblemáticas, como a de São Francisco de Assis e a de Nossa Senhora do Pilar, ambas associadas à obra de Aleijadinho. Beauvoir ficou impressionada com a força expressiva do barroco mineiro, que lhe pareceu menos ornamental e mais dramático do que o europeu. A arte sacra, segundo ela, refletia uma espiritualidade marcada pela dor, pela culpa e pela desigualdade.
A filósofa também passou pela Praça Tiradentes, antigo centro administrativo da cidade, onde a memória da Inconfidência Mineira permanece materializada em monumentos e símbolos. Para alguém profundamente interessada nas relações entre história, poder e opressão, aquele cenário oferecia mais do que beleza estética. Era um espaço carregado de significado político.
Ouro Preto vista por Simone de Beauvoir
Entre todas as cidades brasileiras visitadas, Ouro Preto foi uma das que mais agradaram Simone de Beauvoir. Em seus registros autobiográficos, ela menciona a cidade com entusiasmo raro, destacando o impacto visual e emocional provocado pelo conjunto arquitetônico e pela atmosfera histórica.
O contraste com Brasília foi inevitável. Poucos dias depois de deixar Minas Gerais, Beauvoir visitou a nova capital e demonstrou desconforto com o que considerou uma cidade artificial, excessivamente planejada e socialmente segregadora. Enquanto Ouro Preto lhe parecia orgânica, construída ao longo do tempo, Brasília simbolizava, em sua avaliação, um projeto que ignorava as condições reais de quem a ergueu.
Essa comparação revela muito sobre o olhar de Beauvoir. Embora comprometida com ideais de progresso e transformação social, ela desconfiava de projetos que sacrificavam pessoas concretas em nome de abstrações políticas. Ouro Preto, com todas as suas contradições históricas, parecia-lhe mais honesta do que a modernidade encenada da nova capital.
Filosofia, política e cotidiano
A presença de Simone de Beauvoir em Ouro Preto não se deu em isolamento. Ela estava inserida em um circuito de debates intensos. Ao longo da viagem, participou de encontros com estudantes, intelectuais e militantes. Suas falas sobre a condição feminina causaram impacto significativo, especialmente em um país onde o divórcio ainda não era permitido e os direitos das mulheres eram severamente limitados.
Beauvoir não adotou um tom didático ou condescendente. Observou, perguntou, ouviu. Em conversas privadas e públicas, comentou as diferenças regionais, apontou o peso da moral religiosa e destacou a vulnerabilidade jurídica das mulheres brasileiras, especialmente das que viviam fora do casamento formal.
Embora Ouro Preto não tenha sido palco de uma conferência específica da filósofa, sua passagem pela cidade integrou esse movimento maior de escuta e observação. Caminhar por uma cidade moldada pela escravidão e pela exploração do ouro reforçou suas reflexões sobre desigualdade estrutural, tema central de sua obra.
Repercussão e memória
A visita de Beauvoir e Sartre ao Brasil teve ampla cobertura da imprensa à época. Jornais acompanharam o casal em diferentes cidades, registrando palestras, encontros e declarações. Sartre chegou a ser tratado como celebridade. Beauvoir, por sua vez, despertou curiosidade e admiração, especialmente entre mulheres que viam nela uma referência intelectual rara.
Em Ouro Preto, a passagem do casal não gerou grandes eventos públicos, mas ficou registrada na memória local e em fotografias. Uma das imagens mais conhecidas mostra Sartre sentado em uma ladeira da cidade, em atitude informal, como se absorvesse o ambiente ao redor. A cena sintetiza o espírito da visita: menos protocolo, mais experiência.
Décadas depois, pesquisadores brasileiros e estrangeiros voltariam a esse episódio para analisar o olhar de Beauvoir sobre o Brasil. Seus registros são hoje considerados fontes importantes para compreender como o país era percebido por intelectuais europeus engajados politicamente no pós-guerra.
Um encontro entre tempos históricos
A visita de Simone de Beauvoir a Ouro Preto pode ser lida como um encontro entre diferentes camadas do tempo. De um lado, uma cidade que carrega marcas profundas do Brasil colonial, da escravidão e da formação de elites locais. De outro, uma pensadora que dedicou sua vida a questionar estruturas de opressão, especialmente aquelas naturalizadas pela história.
Ao caminhar pelas ladeiras de Ouro Preto, Beauvoir não encontrou apenas igrejas e casarões. Encontrou evidências materiais das desigualdades que tanto analisou em seus textos. E, talvez por isso, tenha se sentido tão impactada pela cidade.
Mais do que um episódio curioso na biografia de uma filósofa francesa, a passagem de Simone de Beauvoir por Ouro Preto é um capítulo revelador da história cultural brasileira. Um momento em que a cidade, com seu passado denso, dialogou silenciosamente com uma das vozes mais críticas do século XX.
Legado simbólico
Hoje, mais de seis décadas depois, Ouro Preto segue como referência histórica e cultural. Saber que Simone de Beauvoir percorreu suas ruas acrescenta uma camada simbólica a esse patrimônio. Não se trata de fetichizar a presença estrangeira, mas de reconhecer que a cidade foi capaz de provocar reflexão em alguém acostumada a pensar o mundo de forma radical.
A visita não deixou placas, bustos ou homenagens oficiais. Seu legado é mais sutil. Está nas páginas escritas por Beauvoir, nas fotografias preservadas, nos relatos que sobreviveram ao tempo. Está, sobretudo, na ideia de que Ouro Preto, longe de ser apenas um cenário do passado, é também um lugar que continua interpelando o presente.