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Reação de políticos à fala de Solange Couto no BBB 26 mostra que a direita ainda é eficiente em pautar o debate

Reação de políticos à fala de Solange Couto no BBB 26 mostra que a direita ainda é eficiente em pautar o debate

O BBB 26 começou na segunda-feira, 12 de janeiro, e em menos de 24 horas já provou que não vai ser apenas sobre jogo, romance e votação. Na manhã de terça-feira (13), Solange Couto soltou uma fala que atravessou o entretenimento e caiu direto dentro do campo político, aquele onde todo mundo reage rápido, todo mundo posta antes de pensar e quase ninguém quer perder a chance de ser o primeiro a lacrar.

A atriz contou uma história em que uma adolescente teria sido desencorajada a estudar por causa de um “benefício”. Solange não citou o Bolsa Família, mas deu a entender que era esse o assunto. A frase que virou combustível para tudo foi simples e explosiva: “Você tem benefícios? Porque é melhor você ter filhos do que estudar.”

É o tipo de frase que, em qualquer rede social, nasce pronta para virar recorte. E é aí que o debate começa a ficar interessante, porque não importa só o que foi dito. Importa o que o público vai fazer com isso. Importa como cada campo político vai reagir. E importa quem ganha no barulho.

A reação veio em ondas. Primeiro, indignação. Depois, cobrança. Em seguida, disputa por interpretação. E, por último, políticos e influenciadores tentando se apropriar do tema para construir narrativa. O roteiro é velho. O BBB só entrega o palco.

O que chama atenção é como esse tipo de episódio mostra que a direita ainda é muito eficiente em pautar. Não necessariamente porque tenha “mais razão” ou “mais prova”, mas porque sabe jogar o jogo do engajamento com menos travas morais internas e com mais disciplina estratégica.

E não é exagero. É um padrão de comportamento que se repete. Um padrão que muita gente finge que não vê, mas que continua funcionando.

Não dá para saber se Solange Couto entrou no BBB já pensando em absorver esse nicho, já que ousou incluir um assunto polarizador logo de imediato. Pode ter sido espontâneo, pode ter sido memória real, pode ter sido uma interpretação pessoal mal formulada, pode ter sido tudo junto. Mas o fato é que o tema escolhido, de cara, foi um gatilho perfeito para gerar engajamento e dividir o público.

E a política digital hoje vive disso. A polêmica é a moeda. O recorte é o produto. A reação vira campanha.

Nesse cenário, existe uma percepção que é muito real no jogo político digital atual. A direita frequentemente funciona como um clube em expansão e não como um tribunal. A lógica é menos sobre punir e mais sobre incorporar. Menos sobre cobrar pureza e mais sobre conquistar gente nova.

Mesmo quando a pessoa fala algo confuso, incompleto ou baseado em senso comum, é comum aparecer o discurso que parece sempre pronto, como se estivesse esperando alguém tropeçar na frase certa.

Tá vendo, ela acordou.
Ela tá percebendo.
Mais uma que entendeu.
Bem-vinda.

Essas frases não são só comentários aleatórios. Elas funcionam como convite. Funcionam como acolhimento. Criam uma sensação de pertencimento rápido. E pertencimento, no ambiente digital, vale mais do que argumento. Pertencimento gera comunidade. Comunidade gera defesa. Defesa gera repetição. E repetição vira pauta.

Do outro lado, a esquerda frequentemente reage com cobrança moral imediata. E aqui entra exatamente o ponto central dessa crítica. A militância muitas vezes tem urgência em reagir.

E reage como?

Condenando primeiro.
Explicando depois.
Cancelando antes de disputar a narrativa.

Esse comportamento cria um problema sério de previsibilidade. Quando a esquerda responde sempre no impulso, ela vira um gatilho automático do próprio engajamento da direita. A direita sabe que basta cutucar um tema e esperar. A indignação vem. A cobrança vem. O rótulo vem. A tentativa de punição vem. E com isso o recorte se espalha ainda mais.

A esquerda, que muitas vezes tem bons argumentos e dados a favor, acaba perdendo o controle da conversa porque entra na disputa já com um tom de julgamento, não de persuasão.

E aqui é importante deixar claro um ponto para não distorcer a crítica. Defender o Bolsa Família e lembrar que o programa tem regras ligadas à frequência escolar é correto e necessário. Isso não está em debate. O problema é que no formato atual do debate público, ter razão não garante vitória narrativa.

Vencer narrativa exige estratégia. Exige saber que o público do BBB não é uma sala de aula. É um ambiente de emoção, torcida e recorte. Se você não souber falar nesse idioma, você pode ter todos os dados do mundo e mesmo assim perder o alcance para uma frase mal colocada.

O BBB 26 só está começando, mas já escancarou o que acontece no país inteiro. Um comentário vira símbolo. Um símbolo vira guerra. Uma guerra vira palanque. E o palanque vira oportunidade para quem tem mais eficiência em transformar polêmica em movimento.

Talvez Solange Couto não tenha entrado pensando em nada disso. Talvez tenha entrado apenas como alguém que fala o que pensa. Mas na política digital, intenção importa menos do que efeito.

E o efeito foi claro. A direita encontra espaço para acolher e crescer. A esquerda encontra espaço para cobrar e punir. Enquanto uma abre porta, a outra fecha. Enquanto uma transforma em “bem-vinda”, a outra transforma em “condenada”.

No fim, o resultado costuma ser sempre o mesmo. A direita pauta. A esquerda corre atrás.

E aí, de novo, o país discute o tema do jeito errado, com energia demais no cancelamento e pouca energia na disputa real de narrativa.

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