O anúncio do novo salário mínimo de R$ 1.621,00 para 2026, determinado com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), passou a repercutir em economias locais que enfrentam desafios particulares, como Ouro Preto e outras cidades de Minas Gerais com forte presença da mineração. No contexto desses municípios, a elevação do piso nacional expõe aspectos ligados ao custo de vida, poder de compra e desigualdades regionais.
Em Ouro Preto, empresários e representantes do setor comercial observaram que o reajuste, embora represente aumento nominal de renda para trabalhadores com carteira assinada, pode não ser suficiente para suprir as necessidades de famílias diante de pressões nos preços de produtos e serviços. Pesquisas e dados regionais reforçam que essa realidade é ainda mais complexa em municípios marcados pela atividade mineradora.
Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Administrativas (Ipead) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra que o custo de vida em cidades mineradoras é significativamente mais alto quando comparado a municípios com economias semelhantes, mas sem a presença da mineração. Na comparação entre Mariana e João Monlevade, por exemplo, o índice de preços é cerca de 9,4% superior em Mariana.
Impacto nos preços e no poder de compra
Dados da pesquisa apontam que o preço da cesta básica em Mariana foi maior do que em João Monlevade, e que a inflação estrutural nessas cidades mineradoras torna mais difícil manter o padrão de consumo com base no salário mínimo. Estudos também indicam que, para uma família que vive com um salário mínimo anual, a diferença no custo total de vida em cidades mineradoras pode representar uma perda de poder de compra de até R$ 1,8 mil por ano em municípios como Mariana.
Entre os itens que pressionam os preços estão habitação, despesas pessoais, saúde e alimentação, que apresentaram variações superiores em cidades mineradoras frente a seus pares sem mineração. Em Mariana, por exemplo, os valores relativos a aluguel podem ser até 27,5% mais caros do que em João Monlevade, influenciando diretamente o orçamento familiar.
Reflexos para a economia local
A diferença nos preços e o aumento no custo de vida observados em áreas mineradoras têm repercussões no consumo e na dinâmica econômica das cidades. Enquanto trabalhadores empregados diretamente por grandes empresas mineradoras podem receber salários e benefícios acima da média, trabalhadores terceirizados, informais e famílias com renda perto do salário mínimo enfrentam maior pressão financeira.
Esse desequilíbrio torna ainda mais evidente que, apesar de o reajuste do salário mínimo garantir um incremento nominal de renda, o impacto efetivo sobre o poder de compra depende das condições econômicas locais, sobretudo em regiões onde os preços de produtos e serviços são historicamente mais elevados devido à presença da mineração.