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Tragédia de Mariana-MG: peixes do Rio Doce apresentam alta presença de contaminação por metais pesados e substâncias tóxicas

Tragédia de Mariana-MG: peixes do Rio Doce apresentam alta presença de contaminação por metais pesados e substâncias tóxicas

Um estudo científico sobre a contaminação da Bacia do Rio Doce indica que o consumo de peixes da região pode continuar representando riscos à saúde humana, mesmo anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais. A pesquisa foi realizada em 2019 por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com apoio da FAPESP, e teve os resultados publicados na revista científica Total Environment Advances.

O levantamento analisou 503 peixes de diferentes espécies, como: lambaris, cascudos, jundiás e mandis, e identificou a persistência da contaminação por 13 metais e substâncias potencialmente tóxicas, entre eles alumínio, bário, cádmio, cobalto, cromo, ferro, lítio, manganês, níquel, chumbo e zinco. Segundo os pesquisadores, esses contaminantes têm relação direta com os rejeitos liberados no rompimento da barragem, além da remobilização de sedimentos ao longo dos anos.

De acordo com o estudo, os metais cádmio, cromo e chumbo ultrapassaram os limites legais estabelecidos para consumo humano, levando os pesquisadores a desaconselharem o consumo do pescado da Bacia do Rio Doce. A recomendação permanece mesmo diante de análises que apontaram redução da poluição da água em períodos posteriores ao desastre.

A professora visitante da Universidade Federal do Ceará (UFC) e autora do estudo, Flávia Yamamoto, destacou que a pesquisa está entre as mais abrangentes já realizadas na região e chama atenção para os impactos de longo prazo da contaminação ambiental. Segundo ela, embora o rompimento tenha ocorrido em 2015, os peixes ainda apresentavam altos níveis de metais tóxicos cinco anos após a tragédia.

“O principal problema ambiental na Bacia do Rio Doce está relacionado aos efeitos crônicos da contaminação, ou seja, à exposição prolongada a poluentes ao longo do tempo. São impactos cumulativos que nem sempre aparecem de forma imediata, mas que podem trazer consequências graves à saúde”, explicou Yamamoto.

Além da análise do pescado, a investigação incluiu estudos sobre a bioacumulação de contaminantes, bem como análises químicas da água e dos sedimentos. A partir desses dados, foi realizada uma avaliação de risco à saúde humana considerando o consumo frequente dos peixes. A pesquisadora Larissa Ajala Batista, da UFPR, também participou do trabalho.

Durante as análises, ferro e manganês foram os metais mais recorrentes nos peixes. Já o cádmio e o cromo, classificados como altamente cancerígenos, e o chumbo, associado a problemas neurológicos, perda de memória e redução do coeficiente de inteligência (QI), apareceram em concentrações acima do permitido pela legislação.

Para o professor da Unesp Denis Abessa, supervisor do estudo de pós-doutorado de Yamamoto, a contaminação do pescado vai além de um problema ambiental e deve ser tratada como uma questão de saúde pública. “As populações ribeirinhas e tradicionais são as que mais consomem peixe. Ao recomendar que não se consuma o pescado, essas comunidades ficam diante de um dilema cruel: arriscar a saúde a longo prazo ou enfrentar a fome e a insegurança alimentar”, afirmou.

Nas considerações finais, os pesquisadores reforçam a necessidade de monitoramentos independentes contínuos e de uma comunicação clara com as populações afetadas. Para Yamamoto, é fundamental que os dados sejam divulgados de forma transparente. “A população precisa ter acesso a informações confiáveis para tomar decisões informadas sobre sua própria saúde”, concluiu.

O rompimento da barragem de Fundão ocorreu em 5 de novembro de 2015, provocando a morte de 19 pessoas e liberando cerca de 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério. Operada pela Samarco, empresa controlada pela Vale e pela BHP Billiton, a barragem causou danos ambientais e sociais em 230 municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo, com impactos que se estenderam até o Oceano Atlântico e seguem sendo objeto de estudos e debates mais de uma década depois.

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