Opinião | A imprensa ouro-pretana e o “mestre mandou”

Certamente quase todo mundo que teve uma infância com maior liberdade, àquela de poder brincar na rua, se divertir com colegas, já teve a oportunidade de brincar de o “Mestre mandou“, jogo em que uma pessoa assume o papel de “Mestre” e emite instruções para as demais, que devem ser seguidas somente quando precedidas da frase “Mestre mandou”. Em Ouro Preto, parece haver adultos brincando de o “Mestre mandou” até hoje, principalmente certos setores da imprensa dependente exclusivamente de verbas do poder público municipal.

A última coletiva da Prefeitura de Ouro Preto, que tratou da polêmica evacuação de partes de moradores do distrito de Antônio Pereira, revelou para a imprensa local, estadual e nacional, e demais presentes, que mesmo que o “mestre não mande”, há quem esteja sempre disposto à “servir” e até “a se oferecer”.

Chega a ser constrangedor presenciar parte da imprensa, que deveria estar no papel de questionar e tirar suas dúvidas, fazer questão de demonstrar todo seu “apoio”, “admiração”, “respeito”,  “estima”, “afeição”, “ternura”, ou quaisquer outros adjetivos aos gestores locais, em um momento em que se tratava apenas de repasse de informação do poder público acerca de um determinado assunto, e não um “cafezinho na cozinha de casa”.

E essas pessoas ficam tão presas às bolhas de adulação que nem percebem os olhares de deboche e constrangimento em volta, até mesmo de quem recebe tamanha sabujice. Sinceramente, não condeno quem escolhe o meio ao qual vai tirar seu pão de cada dia, mas estudar suados quatro anos um curso superior, estufar o peito pra dizer que tem um trabalho profissional, e simplesmente se rebaixar a tanto deve ser algo frustante profissionalmente, ou não, pois há quem goste de viver nesse ciclo ignóbil, pois é mais confortável assim.

Por outro lado, parece que muitos setores da imprensa que estiveram presentes não gostaram do “pedido” arrogante de “responsabilidade da imprensa” por parte do “Mestre”, diga-se gestor municipal, pensando no carnaval, ao noticiar os fatos. Esse pedido não foi atendido para a maioria que quis levar a informação a sério, logo, entende-se que gestor municipal não é “patrão”, tão pouco conselheiro da imprensa – apenas da sua assessoria de comunicação. Além disso, após tantos anos do rompimento da barragem de Fundão e um ano de Córrego do Feijão, cabe aqui mencionar pedido de responsabilidade a alguém por parte do poder público em ações envolvendo política e a mineradora Vale?

Vidas do distrito de Antônio Pereira valem tanto quanto vidas da sede, e aqui pouco importa se a notícia influencia nas reservas dos hotéis do belo centro histórico, que é muito sustentado pelo longínquo distrito com grande exploração minerária. Dados econômicos do carnaval jamais poderia ser o foco da notícia nesse momento, tão pouco a distância da lama para o centro histórico da folia, que “está livre” dos problemas que acontecem com o povo a 40 km de distância.

A imprensa séria queria mesmo era saber a destinação do povo impactado diretamente pela ação da Vale, esclarecer os fatos para as pessoas do distrito que há tantos anos vem sofrendo por descaso do poder público.

A imprensa independente ali não estava preocupada em reeleger ninguém e garantir sua “mesadinha”, e por isso, nessa situação, pouco importa se o carnaval do prefeito x ou y seria “bombante” ou “minguado” por causa da notícia que seria dada.

Mas, infelizmente, como diz aquele velho ditado, “enquanto houver cavalo, São Jorge não anda a pé”. Ou seja, enquanto houver quem se preze a esse papel, o nível jamais poderá ser elevado.

Falando diretamente de imprensa local, seja em Ouro Preto ou qualquer outra lugar, é possível você acolher parte da verba de imprensa sem se rebaixar a tanto, basta que ninguém se “menospreze” dessa forma, assim toda a imprensa poderá trabalhar com mais liberdade e menos “palancagem”.

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