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Analisando “Como Nossos Pais”, de Belchior

Rodolpho Bohrer Rodolpho Bohrer
12/04/2020
em Curiosidades, Música
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Existem canções que marcam toda uma geração. É o caso de “Como Nossos Pais“, escrita por Antonio Carlos Belchior e interpretada por Elis Regina. Com a bateria desafinada e trazendo arranjos do rock dos anos 70 cantado em português, a música mexeu e mexe com o pensamento e emoções dos ouvintes.

“Como Nossos Pais” foi lançada por Belchior e Elis no mesmo ano. Era 1979, e em meio a ditadura militar surgira um sucesso que mudaria o modo de pensar dos jovens outrora já desmotivados. A música traz uma letra carregada de crítica não ao velho no sentido físico, mas aos pensamentos tradicionais que impediam que a sociedade se desenvolvesse inclinando-se para o diverso, pelo contrário. Na ocasião as pessoas seguiam por um mesmo caminho sem o direito de questionar se ele estava certo ou errado, apenas caminhavam como se estivessem com uma venda nos olhos e ouvidos tapados.

“Não quero lhe falar meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos, quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo, viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é melhor do que a vida de qualquer pessoa”. Nas primeiras frases da música, Belchior traz uma versão triste, porém realista da vida, em que qualquer bem material pode ser mais importante do que a vida humana e por isso ele nem gostaria de falar sobre o que é viver realmente, fora das ilusões que a música traz. E para além, ele critica artistas que antecederam sua vinda, pois romantizavam a dura realidade da vida, em que o mais poderoso prevalece sob o mais fraco.

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“Por isso cuidado meu bem , há perigo na esquina, eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens. Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua, é que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz”. Como alguém que alerta com carinho, Belchior pediu que os jovens tenham cautela, pois os veteranos no jogo da vida venceram todas as dificuldades, no entanto, não se abrem para outras possibilidades, ou seja, os mais velhos possuem uma visão etnocêntrica sobre a vida e por isso são exigentes e mais duros com os jovens que chegam repletos de novos ideais. É como se eles podassem as novas ideias pelo medo de terem que mudar sua visão de mundo. No final da estrofe, o também artista plástico encoraja a juventude a espalhar amor por onde quer que passem, afinal é para isso que serve o ser humano.

“Você me pergunta pela minha paixão, digo que estou encantada, como uma nova invenção. Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão, pois vejo vir vindo no vento, cheiro de nova estação. Eu sei de tudo na ferida viva, do meu coração”. O nordestino de Sobral traz em “Como Nossos Pais” uma reflexão pessoal e ao mesmo tempo coletiva sobre como é difícil viver em determinadas regiões do país, pois quem saía do sertão árido nordestino além, de se encantar com as múltiplas possibilidades que a o sudeste brasileiro trazia na época, muitas vezes conseguia um emprego e até mesmo deixar de passar dificuldades financeiras.

“Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida. Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais. Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo o que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos, como nossos pais“. Nessa parte da composição, o professor Belchior, ao mesmo tempo em que encorajava a juventude, fazia críticas severas, pois muitos, devido ao período conturbado em que o Brasil se encontrava, deixavam de viver, de sair de casa ou de lutar pelos seus ideais de liberdade explicitado na descrição “cabelo ao vento”. E ele foi mais fundo, escrevendo que, por medo ou apatia, os jovens estavam se tornando como os próprios pais, realizando assim o que os mais velhos desejavam, que era desistir e permanecerem estáticos.

A forma pela qual somos criados diz muito sobre nós, muitas vezes é preciso deixar de lado a bagagem que carregamos uma vida inteira para conseguirmos enxergar o mundo pelas nossas próprias lentes e não através do que nos foi apresentado como o correto, e para além, deixar nossas convicções de lado para ter contato com o outro, outa cultura, outra maneira de observar a vida nos permite conhecermos a nós mesmos de forma mais eloquente. Não se trata de falta de respeito com os pais, mas é uma questão de possibilitar-se, liberta-se para se entender. Ficamos tão submersos em nosso universo e certezas que não conseguimos enxergar qualidade no outro, no novo e, consequentemente, julgamos o que se distancia de nós, como errado ou inferior. “Nossos ídolos ainda são os mesmos, e as aparências, não enganam não. Você diz que depois deles, não apareceu mais ninguém. Você pode até dizer, que eu ‘tô por fora, ou então que eu ‘tô inventando, mas é você que ama o passado e que não vê, é você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem”.

“Hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude, tá em casa, guardado por deus, contando vil metal. Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais“.

Mais uma vez o autor critica, desta vez carinhosamente, os mais velhos, o que nos faz pensar que apesar de toda a visão restrita sobre o desconhecido, os mais velhos merecem respeito e possuem experiência de vida, pois não há nada como a sabedoria do viver. Ainda assim, Belchior mexe na ferida do sistema capitalista tão defendido pelos mais velhos que passam o fim de suas vidas contando dinheiro. E ele volta a cantar que se os mais novos não se cuidarem terminarão como os seus pais.

Ouça a versão consagrada de “Como Nossos Pais” interpretada por Elis Regina:

Leia também: Uma análise sobre “Um Índio” de Caetano Veloso.

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Rodolpho Bohrer

Rodolpho Bohrer

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost e assistente de edição de texto da Agência de Notícias do Sul da Bahia (Ansuba).

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