“Sou incapaz de entender por que alguém quer conhecer alguma cidade nos Estados Unidos antes de conhecer Mariana e Ouro Preto”

Frase dita pela ministra Cármen Lúcia em 2025 permanece como síntese de uma defesa da cultura brasileira como direito constitucional

“Sou incapaz de entender por que alguém quer conhecer alguma cidade nos Estados Unidos antes de conhecer Mariana e Ouro Preto”

Mais de seis meses depois de ter sido pronunciada, uma frase da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, segue ecoando como reflexão sobre identidade, patrimônio e cultura no Brasil.

“Eu sou incapaz de entender por que alguém quer conhecer alguma cidade nos Estados Unidos antes de conhecer Mariana e Ouro Preto.” A declaração foi feita em julho de 2025, durante participação da ministra em um seminário realizado em Belo Horizonte.

À época, Cármen Lúcia participou do encontro Cultura, Controle e Direito: Troca de olhares, saberes e fazeres, promovido na sede do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais. O evento reuniu representantes do Judiciário, gestores públicos e pesquisadores para discutir o papel da cultura na consolidação da democracia.

Ao mencionar Mariana e Ouro Preto, a ministra evocou cidades que concentram parte expressiva da formação histórica, artística e simbólica do país. A referência não surgiu como elogio turístico, mas como argumento sobre o lugar da cultura brasileira no mundo.

Naquele momento, Cármen Lúcia sustentou que o Brasil não é apenas consumidor de referências culturais externas, mas produtor de expressões reconhecidas globalmente. “Em qualquer lugar do mundo a nossa música é ouvida, cantarolada, aplaudida. No Japão, na Suécia ou na África”, afirmou durante o seminário.

A fala integrou uma defesa mais ampla do direito à cultura como fundamento democrático. Para a ministra, cultura não se limita à expressão simbólica, mas se traduz em um direito constitucional que garante diversidade, liberdade e dignidade.

“É isso que a cultura faz. Tornou-se um tema do Direito, tornou-se um tema garantidor da democracia, ao assegurar o respeito à diversidade”, declarou na ocasião. Segundo ela, a possibilidade de produzir, acessar e difundir cultura permite que cada pessoa se realize plenamente como sujeito de direitos.

Ainda naquele encontro, Cármen Lúcia alertou para a necessidade permanente de defesa do direito à cultura, sobretudo em contextos de fragilidade institucional. Lembrou que a Constituição Federal de 1988 não apenas protege direitos autorais, mas reconhece expressamente o direito à cultura entre os direitos fundamentais.

“A Constituição brasileira lista os direitos fundamentais e, para além dos direitos autorais, o constituinte especificou o direito à cultura”, afirmou.

Passados meses desde aquela fala, a declaração permanece como registro de uma visão que conecta patrimônio, identidade e democracia. Ao citar Mariana e Ouro Preto, a ministra sintetizou uma ideia que segue atual: a de que compreender o Brasil passa, necessariamente, pelo reconhecimento de sua própria matriz cultural.

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