Um grande conselho de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): dor de cotovelo é sempre uma premissa literária ruim. É uma premissa ruim para a maioria dos aspectos da vida – eu diria, e principalmente, no que se refere a relacionamentos –, contudo enriquece e traz fama para compositores e cantores populares.
O filósofo alemão Theodor Adorno (1906-1969) previu que a música se reduziria a slogans publicitários.
Sob tal ângulo, Marisa Monte e a dupla João Carreiro e Capataz não se diferem muito. São gênios atuais do apelo! Vejamos:
“Vem quente que eu tô fervendo / eu tô facim facim” (“Eu tô facim facim”, João Carreiro e Capataz);
“Eu não sou difícil de ler / Faça sua parte / Eu sou daqui, eu não sou de Marte / Vem, cara, me repara” (“Infinito Particular”, Marisa Monte).
Adorno afirmava que a banalização da arte aconteceria aos poucos e graças a expedientes supostamente poéticos, eruditos, elevados, canônicos, capazes de justificar as mudanças (sempre para pior).
Se você não sabe, o romantismo foi inventado na Idade Média para edulcorar a sexualidade nas cortes. Graças a essa invenção, entre outras, o clero e a coroa ressumaram hipocrisia; concentraram e dividiram o poder, irrestritamente, até o Século das Luzes.
Nos dias de hoje, o romantismo perdeu, digamos, a sua principal função social, que, aliás, pode ser dividida em duas partes: (1) manter homens e mulheres o maior tempo possível na fase dos rapapés e das juras e, assim, distantes do demônio; (2) justificar a culpa, a punição e a eterna obediência se por acaso alguém saísse dos trilhos.
Na verdade, cardeais e monarcas jamais abririam mão dessa inesgotável fonte de poder. E o romantismo, ambíguo e platônico, sempre dava margem para o desespero e deslize humanos.
Canções como, de Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, bem como as demais do LP homônimo de 2006, são geniais porque remexem nos ossos do finado romantismo.
“Infinito Particular” é um engodo para quem não conhece a História da ascensão e decadência do romantismo ou não quer conhecer. Eis a explicação de tamanho sucesso comercial.
Leia também: Quando a chuva vem