Analisando o “O Canto das Três Raças”, eternizada na voz de Clara Nunes

por Elis Bohrer

Uma das canções que mais expressam a identidade do povo brasileiro é “O Canto das Três Raças”, eternizada na voz de Clara Nunes. A canção une três tempos da história do país, traçando um paralelo com o atual.

Analisando o “O Canto das Três Raças”, eternizada na voz de Clara Nunes
Cantora Clara Nunes (12/8/1942 a 2/4/1983) - Foto: redes sociais da cantora

Assinada em 1861, a Lei do Ventre Livre previa que a criança de toda mulher escravizada seria livre, ficando sob a tutela do dono da mulher escravizada até completar oito anos de idade. Então esse dono tinha duas opções: entregar a criança para a tutela do estado e receber uma compensação em troca, ou ficar com a criança até os 21 anos de idade, com o direito de usufruir da mão de obra da mesma até que ela completasse tal idade. 

Apesar de absurda para os tempos atuais, a Lei do Ventre Livre garantia o gradual e lento fim da escravidão no Brasil.

Mas o que essa lei tem haver com a música, redatora? Talvez você esteja se perguntando. A canção “O Canto das Três Raças”, escrita por Paulo César Pinheiro, musicada por Mauro Duarte e gravada por Clara Nunes em 1976 narra uma longa tentativa do povo brasileiro de tentar se libertar das amarras dos poderosos.

Vamos por partes para termos uma maior compreensão. Na primeira estrofe da música temos “Ninguém ouviu, um soluçar de dor, no canto do Brasil”. Essas frases são interessantes pois podem se referir ao verbo cantar, logo, “no canto do Brasil” ou a indicação de solidão e desprezo, colocando a palavra canto no substantivo como aresta, ponta, um local solitário e triste em que alguém estivesse soluçando de dor. Então, substituindo teríamos “Ninguém ouviu, um soluçar de dor nas arestas do Brasil”, o que nos faz pensar “o que teria nessas arestas, nesses locais isolados, nos cantos do Brasil?” Profundo, não?

Continuamos analisando essa letra para encontrarmos mais dicas do que pode se tratar. Na segunda estrofe podemos encontrar uma chave, veja.

Um lamento triste sempre ecoou, desde que o índio guerreiro, foi pro cativeiro e de lá cantou”. Então já conseguimos entender de que “canto” se tratava a primeira estrofe, o canto dos desprezados, dos humilhados, dos sequestrados, daqueles que tiveram suas culturas e seus corpos subtraídos e foram lançados ali em um canto do Brasil, em um cativeiro, como se não tivesse alma, como se não fossem seres humanos.

Se pensarmos que quando o Brasil foi colonizado, já existiam aqui os povos originários, os nativos, os índios, entendemos que o compositor está falando desses povos. Mas não é tão simples de se compreender, pois o letrista foi específico, ele não escrevei índios no plural e sim “Índio Guerreiro“, no singular, um forte indicativo de que a letra se trata das Guerras Guaraníticas.

Sabemos que quando os europeus “descobriram” as américas, a América do Sul foi dividida em duas partes, sendo que uma fazia parte da Coroa Portuguesa e outra da Espanha, por isso se fala português e espanhol aqui em “bajo”, é o famoso Tratado de Tordesilhas. Como todavia os portugueses gostavam de se apropriar de cada vez mais territórios afim de estabelecer seu poder no máximo de extensão territorial o possível, eles invadiram uma terra que fica de frente para Buenos Aires, na Argentina e claramente pertencia à Espanha, os portugueses batizaram o local como Colônia do Sacramento, onde permaneceram por 70 anos, até que a Coroa Espanhola não aceitou mais.

A Coroa Portuguesa pediu em troca de sair das terras dos espanhóis, os sete povos das missões, esses povos das missões eram compostos por 30 povos diferentes que viviam onde hoje é o Rio Grande do Sul, Argentina, Uruguai e um pedaço do Paraguai, um desse lugares é um canto do Brasil. Esse combinado é chamado de “Tratado de Madri”. Bom, todo mundo ficou feliz, só tinha um detalhe “pequeno”, ninguém consultou os 30 povos guaranis sobre sua vontade de deixar suas terras e obviamente eles não aceitando, atacaram uma comissão formada por portugueses e espanhóis que estavam ali para demarcar as terras. Na ocasião, os índios mataram cerca de 230 europeus.

Portugal reagiu e contra-atacando com o seu exército, iniciou-se então as guerras Guaraníticas. Os povos guaranis tinham como líder Sapé Tiaraju, que ao invés de bolar uma estratégia de guerra, preferiu enfrentar o exército português de frente. Ele teve o cavalo derrubado, foi atingido por uma lança e levado em cativeiro, onde ficou preso, foi torturado até a morte. Pelo menos 1.500 índios morreram neste confronto.

Acontece que Sepé Tiaraju virou mártir, um heróis. Até os dias atuais ele é tido como um santo, São Sepé, no Rio Grande do Sul. Com muitas histórias e mitos sobre sua vida, depois de executado Sepé também recebeu o nome é Índio Guerreiro. Simmm, este mesmo que está na música de Clara Nunes. Uauuu, né!!

Acho que conseguimos desvendar uma das “Três Raças” da música. Vamos seguindo para a terceira estrofe. “Negro entoou um canto de revolta pelos ares, no Quilombo dos Palmares, onde se refugiou“. Primeiramente precisamos compreender o significado de quilombo, que é esconderijo na mata, era onde as pessoas negras que foram escravizadas no Brasil e tentavam fugir daquela cruel realidade se escondiam. Os quilombos sempre existiram, desde o descobrimento do Brasil por Portugal, pois sempre houveram pessoas negras que não aceitavam se submeter ás vontades e castigos de outras pessoas que pensavam terem o direito de possuir outros seres humanos somente por causa do da cor de suas peles.

Pois bem, quilombo então sempre existiu, mas o Quilombo dos Palmares foi notoriamente um dos mais importantes, pois foi onde nasceu o Zumbi dos Palmares, um dos principais representantes da resistência negra à escravidão na época e pela liberdade de culto religioso e prática da cultura africana no Brasil. A figura de Zumbi é tão importante que o dia da Consciência Negra é a data de sua morte, que aconteceu em 1695.

Zumbi dos Palmares foi líder do Quilombo dos Palmares, comunidade livre formada por escravos fugitivos das fazendas. Localizado em Maceió, no estado de Alagoas, outro canto do Brasil. Então esse verso da música “O canto das Três Raças”, fala sobre a história de luta dos negros que foram trazidos de países africanos para serem escravizados no Brasil.

Sigamos, “Fora a luta dos inconfidentes, pelas quebras das correntes, nada adiantou“. Sintetizando, essa é uma história bastante conhecida e lecionada nas escolas. Além dos povos índios e negros tentarem se libertar do domínio europeu, brasileiros também tentaram. O movimento da inconfidência mineira aconteceu em cidades como Ouro Preto. Ele teve como líder e mártir Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes. Depois da descoberta das riquezas naturais na região dos Inconfidentes, sobretudo o ouro. A Coroa Portuguesa acreditava que o ouro de Ouro Preto, Mariana e região era eterno, houve um período de intensa extração chamado pelos historiadores de “Ciclo do Ouro “. Com o passar do tempo o ouro começou a acabar.

Obviamente os impostos que os extratores de ouro para Portugal começou a diminuir. Nesse mesmo período, um grupo de burgueses se reuniram para tentar se livrar do império português e implementar um sistema republicano. Só que a Coroa descobriu, prendeu todos os envolvidos, chamados de conspiradores. Mas como matar todos seria um escândalo, eles fizeram um trato, absorver todo mundo e executar apenas um, este seria o exemplo para que as conspirações não se repetisse. Tiradentes foi o escolhido. Ele foi esquartejado, as partes do seu corpo foram distribuídas por diversas cidades, expostas, para servir de lição e impor medo em quem pretendesse planejar algo parecido.

Parte dos inconfidentes também pleiteavam a abolição da escravatura. Então eles queria uma política republicana sem escravatura, mas não eram todos que concordavam com a parte da abolição da escravatura, embora a maioria sim. Então esse trecho música trata desta parte mais especificamente, dos brasileiros tentando emancipação e na busca pela liberdade dos negros escravizados.

E de paz em paz, de guerra em guerra, todo o povo desta terra quando pode cantar, canta de dor“. Recordando essas três guerras, que aconteceram em períodos cronológicos diferentes e associando-as a esse esse trecho da música, compreendemos que de tempos em tempos o Brasil precisa se libertar de alguma amarra. Os grilhões se renovam e a vontade do ser humano de oprimir seus semelhantes se redesenha, seja através do palpável ou do impalpável, como as redes sociais.

Para finalizar temos “e ecoa noite e dia, é ensurdecedor, ai, que agonia, o canto do trabalhador, esse canto que devia, ser um canto de alegria, soa apenas, como um soluçar de dor“. Aqui a letra trata dos brasileiros mais contemporâneos (a época de Clara Nunes e até os dias atuais), que taralham dia a dia e são oprimidos pelo capitalismo selvagem. Aquelas pessoas cujo os seus corpos servem à grandes empresas, aos magnatas desta terra, mas ao final de semana não conseguem rendimentos nem para levar suas crianças para um passeio. Não conseguem, com seus “salários de fome” conquistar bens, formar seus filhos ou viajar. A escravidão foi abolida no papel, mas muitos ainda são escravos da sobrevivência.

Relembre a canção “O Canto das Três Raças”, interpretada por Mariene de Castro.

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