Analisando “WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?”, de Billie Eilish – Parte I

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When We All Fall Asleep, Where Do We Go é o primeiro e único álbum oficial da popular artista norte-americana Billie Eilish, principalmente por seu hit “Ocean Eyes”, uma balada vítrea e direta, mais jogada para o Pop. O EP “Don’t Smile At Me” faz uma fusão de vários gêneros, sons e estilos, confissões honestas de uma adolescente que conheceu desgosto, ódio e amor. Já no seu mais novo álbum, Billie Eilish nos apresenta suas experiências em seu mundo próprio: gótico e pesado.

O álbum se passa em cenários completamente diferentes do que havíamos visto na trajetória da jovem até pouco tempo, pois apresenta algo sombrio, excêntrico e assustador. Ela literalmente passou a encher seus vídeos com lágrimas negras, agulhas e aracnídeos, ao invés de paisagens urbanas elegantes e rostos bonitos, desconstruindo padrões que geralmente impedem artistas, que se lançaram inicialmente no Pop, de se expressar de outras maneiras.

Inspirado pela paralisia do sono frequente e sonhos lúcidos, o álbum manipula compulsões sombrias, porém a artista se mostra com uma diferente visão dos acontecimentos mostrados ao decorrer de tal, se mostra sobre o controle do que acontece, mais nítida, mesquinha e autossuficiente, dissemelhante à persona de Eilish em Dont Smile At Me, que é de uma jovem frustrada com as coisas ruins que a vida lhe ofereceu durante sua “jornada”, que, perdida em seus sentimentos, buscava apenas desabafar da forma mais espontânea possível, e que claramente não tinha intenções de aprender a lidar com eles, só expô-los, gritando o que esteve guardado para si mesma por muito tempo, e o resultado foram músicas que explicitaram que ainda era uma adolescente inocente, sonhadora, irada, deprimida e principalmente, encantadora.

“WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?” E “!!!!!!!”

Em When We All Fall Asleep, Where Do We Go?, Billie Eilish é fria e sádica em relação aos acontecimentos contados no álbum, e até mesmo na sua própria postura a eles, se deliciando com sua nova identidade, se orgulhando de ser assim e todo o tempo reforçando sua nova ideologia, falando de tragédias com um ar de deboche, e envaidecendo-se de seus atos. É possível notar grande parte disso em suas primeiras duas faixas “!!!!!!!” e “Bad Guy”. A faixa introdutiva “!!!!!!!” começa com ruídos estranhos e é basicamente uma conversa entre Billie e seu irmão Finneas, ela ecoa orgulhosamente o sentimento: “tirei meu aparelho, e esse é o álbum!!”, e dá uma gargalhada… Definitivamente a calma antes da tempestade, já que o álbum é baseado no tema sombrio dos medos.

“BAD GUY”

Agora direcionaremos os “holofotes” na música que simplesmente ultrapassou “Old Town Road” de Lil Nas X, que ocupou o primeiro lugar por 19 semanas consecutivas, no Hot 100 da Billboard. A música foi nomeada para “Record Of The Year”, “Song Of The Year” e “Best Pop Solo Performance” e para o 62º Annual Grammy Awards, “Bad Guy”, o maior sucesso da artista, e com 17 anos, Eilish se tornou a pessoa mais jovem a liderar o ranking desde o sucesso de 2013 de Lorde, “Royals”, que alcançou o primeiro lugar quando ele tinha 16 anos. Ela também se tornou a primeira artista nascida no novo milênio a ter o single nº 1. Na música, imediatamente, fica claro que Billie está brincando com a dinâmica do poder, questiona a maneira como as mulheres são estereotipadas nos relacionamentos. Ela está usando colônia, ela é dominante, e a outra mulher na vida desse cara é intimidada por ela, interpreta uma personagem tanto quanto “satírica”.

As letras retratam o ponto de vista de alguém que se considera ruim e se orgulha disso. A irreverência para o personagem Bad Guy é fácil de ver no videoclipe, assim como o som da música, que mistura batidas funk e groovy com vocais perturbadores. A música é uma mistura de uma história macabra com uma felicidade distorcida, que é o que torna o som da música tão cativante e as letras e o vídeo tão perturbadores. A frase que mais tipifica essa atitude é a afirmação sombria e distorcida de “Eu sou o cara mal”, seguida por uma leve pausa e o brincalhão “duh” de Billie. Este é um forte sinal de que Billie não pretende que a música seja levada a sério, o que é uma coisa boa, considerando o quão perturbadoras são algumas das confissões que sua personagem faz. Basicamente, o hit Bad Guy é sobre as mulheres subvertendo os estereótipos que são colocados sobre eles nos relacionamentos, uma forte crítica à forma que todos os produtos de mídia ditam a posição “adequada” das mulheres na sociedade, revoltando-se contra diversos estereótipos e exigências direcionados a mulheres.

O videoclipe de Bad Guy é o mais animado, colorido e menos sombrio que ela lançou até agora, Billie o explicou em uma entrevista em uma rádio (102.7, “KIISFM”), como “basicamente uma zoeira com as pessoas e seus jeitos de ser, incluindo o meu também. A ideia inicial para música é: pessoas que tem que falar para todo mundo que são de um determinado jeito o tempo todo? Elas não são daquele jeito. Em geral, eu sinto que vocês nunca vão ver uma pessoa má dizendo para todos que é má”.

 

“XANNY”

“Xanny” é uma música única. Não envolve desempenhar um papel, ela não é o “cara mau”, ela fala por experiência pessoal. Billie não tenta ser assustadora nessa música, mas traz sua bela voz e habilidades líricas, assim como Finneas acrescenta seu toque único à produção. A música em si é uma homenagem a seu amigo, o falecido rapper xxxtentacion, que faleceu em 2018. A letra também faz referência ao uso de drogas pesadas e suas experiências com os amigos depois de uma noite de festa muito difícil. Uma das coisas mais admiráveis ​​sobre “Xanny” é a disposição de Billie de fazer uma declaração verdadeira e lindamente escrita sobre um assunto que muitos artistas pop aprovam. O fato dela ser capaz de deixar clara sua opinião sem ser pregador apenas mostra como ela é talentosa como letrista. Ela conta sua história, permitindo-nos sentir o cheiro da fumaça, sentir a confusão e a preocupação, e simpatizar com sua frustração quando seus amigos se recusam a aprender. Podemos ser encorajados a não estarmos sozinhos em nosso desejo de evitar o estilo de vida das festas de adolescentes que é tão normalizado na cultura pop. Felizmente, isso lembrará aos usuários e não usuários de todas as idades a dor que acompanha a cultura de festas que tantas vezes vemos glamourizada.

Em Xanny, Eilish questiona introspectivamente o tópico do uso irresponsável de drogas recreativas. O título da música é uma referência ao Xanax, um medicamento prescrito usado para tratamento da ansiedade e conhecido popularmente por seu uso recreativo, como comumente descrito na música hip-hop, principalmente por rappers do SoundCloud.

Os vocais de Billie são suaves e levemente incomuns em uma faixa de ritmo lento e correspondem ao assunto da música. A instrumentação mínima da música inclui partes esparsas de baixo, piano, um sintetizador de baixo e um baixo pesado de 808. O áudio do diálogo em segundo plano também pode ser ouvido ocasionalmente durante a música. A música termina com as belas harmonias de Eilish a cappella.

No começo do mês de dezembro, foi lançado o videoclipe de Xanny. No vídeo, Billie está toda de branco, sentada em um banco branco, na frente de um pano de fundo branco. Enquanto canta, a câmera se aproxima e mãos aleatórias começam a queimar seu cigarro no rosto. A certa altura, ela agarra a garganta como se estivesse engasgando e depois se levanta do banco, que fica envolto em fumaça. A ausência de cores pode ser relacionada ao estado mental das pessoas durante o uso de drogas, como foi descrito pela própria artista em “A Snippet into Billie’s Mind – xanny” , em que ela descreve a situação em que se encontrava na noite anterior da composição das letras de Xanny, uma festa em que todos estavam bêbados e drogados. “Fiquei assistindo meus amigos se tornarem pessoas completamente diferentes do que elas realmente são, vendo suas personalidades sendo arruinadas e se esvaírem”.

A cantora também comentou sobre qual foi seu raciocínio ao tentar descrever as emoções que sentiu no momento, que foi tentar encontrar uma maneira de fazer com que a música soe de uma forma em que as pessoas sintam a fumaça em seus pulmões. O início da música, calmo e suave, representa pulmões e respiração saudáveis. Já o refrão, mais pesado e bem distorcido, representa pulmões que respiram mal, respiram fumaça, mesmo que passivamente. Billie Eilish disse também que ao ouvir os versos de Xanny você sente como se houvesse uma imensa cortina de seda branca flutuando ao seu redor, é possível associar as observações de Billie ao vídeo também, pois também traz sensações de vazio, sem emoção, desconforto, que foi justamente a intenção: “soar como uma dor de cabeça”. Tanto a música quanto o vídeo retratam basicamente as amizades tóxicas, e como ela vive no meio desse meio tão nova, e sobre as pessoas usarem as drogas como uma válvula de escape e não perceberem que estão “se matando aos poucos”, como descreve Eilish. É sobre ter uma amizade aonde você vê que seu amigo está sofrendo e morrendo lentamente na sua frente e você não pode fazer nada, porque só depende exclusivamente dele, é possível identificar isso no trecho da música: “Não posso me dar o luxo de amar alguém que está morrendo por engano”. Billie descreve tal como ”amar alguém, dar tudo de você para aquela pessoa, te esgota. Mesmo que seja algo bom, mesmo que você ame alguém que te ama de volta, isso exige demais de você. E eu não quero amar alguém que sei que vou perder, porque aquilo está a matando aos poucos”. Soa basicamente como: “Não quero perder meu tempo gastando minhas forças que algo que vou perder”, mostra-se cansada de ter todo o trabalho de se apegar a alguém e ter que sentir a dor de vê-la se distanciar cada vez mais de todos e principalmente de si mesma, e todos em volta considerando tudo isso “normal”. Analisando outros aspectos do vídeo, há diversos momentos em que, como dito anteriormente, mãos queimam o rosto de Billie com cigarros, é simples identificar a mensagem que ela quer passar com isso, mas além disso, algo que também chama a atenção é a tonalidade das cores do cabelo da artista, que é extremamente próxima ao natural, “e o que há com isso?”, esses dois fatores nos levam a concluir que o que Eilish quer dizer com tudo isso é algo mais profundo do que apenas “não use drogas”, e sim algo como:  “Drogas não são algo que é possível controlar, e alguma hora elas vão começar a te machucar, essas coisas prejudicam as pessoas, então o porquê de vocês estarem usando? Olhem para mim nesse vídeo, estou sendo vulnerável aqui por um momento e continuo sendo afetada por essas coisas, por pessoas que conheço, por pessoas que eu me importo muito, então pra que manter essas coisas e pessoas próximas de você sendo que sabe que fazem mal para você?”. Também é ressaltada a questão do medo, no trecho “intoxicada demais para estar assustada”, o medo é algo muito retratado em suas músicas, em seus vídeos, mas não como algo negativo, como em “ Bury a Friend ” (nona música do álbum), em que Billie “enfrenta” seus medos e suas inseguranças, e que é escrita da perspectiva do monstro de Billie Eilish debaixo da cama. A faixa detalha um relacionamento confuso com essa ‘entidade’ e ambiguamente a define como o próprio monstro, e em Xanny até mesmo o medo é melhor do que perder sua própria “essência”. Quando você sente medo, você se sente ainda mais conectado consigo mesmo e com as poucas coisas em sua volta que podem te favorecer para sair dessa situação, já quando você não é você, não é capaz de fazer nada, e ainda machuca quem está em volta.

 

“YOU SHOULD SEE ME IN A CROWN”

“You Should See Me in a Crown” é a quarta faixa do álbum. É um single que foi lançado muito antes do lançamento do álbum, produzido pelo irmão de Billie, Finneas O’Conne, que é constante colaborador na elaboração e execução da composição e da produção das músicas. Na música, a persona dominadora e orgulhosa de “Bad Guy” está de volta. Nela, Billie mostra que ela tem poder, ela quer ser poderosa, senão, a mais poderosa entre todos. Ela quer que pessoas que a admiram quase a adorem. Porém se mostra mais obcecada por todo esse poder, tornando-o uma necessidade, dizendo que irá “matar” para estar no topo. Ela gosta tanto do poder que lhe dá satisfação ver os outros caindo, em relação a “Eu gosto do jeito que todos gritam”. Ela diz no trecho: “’Venha querida, eu acho você bonita’. Eu estou bem, eu não sou sua ‘querida’. Se você me acha bonita, você deve me ver em uma coroa…”, o que significa basicamente que, se alguém acha que ela é bonita, então ela diz que eles devem vê-la governando o mundo. Ela não quer ser reduzida apenas pela sua aparência. Ela quer ser conhecida pelo que pode fazer. Ela se compara a uma rainha, ela não deixa que alguém lhe chame alguma coisa ou lhe diga o que fazer, mas, em vez disso, ela quer que eles saibam que ela é poderosa.

A música teve também inspiração de Sherlock (série de TV). Durante sua entrevista com Annie Mac na “BBC Radio 1”, Billie revelou o programa de TV exato de onde o título e o tema da música foram derivados. Segundo ela, enquanto assistia à série de TV da BBC Sherlock, o vilão, “Professor Moriarty”, pronunciou uma frase que ela e Finneas acharam muito “jiggy”. A frase em questão era: “You Should See Me in a Crown”, ou “Você deveria me ver em uma coroa”.

You Should See Me in a Crown tem diversas similaridades com “Copycat”, primeira música de seu EP “Don’t Smile At Me”, que teve muita repercussão por Billie Eilish ter o lançado muito jovem e ter sido recebido muito bem por críticos. Em Copycat, como característica de sua idade que carregava muita instabilidade e principalmente, diversas coisas novas na vida da artista, era completamente normal e esperado que ela não saberia enfrentar e solucionar seus problemas da melhor forma possível, então acabou sendo um canal em que ela despejou toda a sua insatisfação por quem vive tomando conta de sua vida e tentando ao máximo a copiar, Eilish praticamente “zoou” as intenções fúteis dessas pessoas mandando um recado com um tom sarcástico para elas: “Por que tão triste, querida? Você não pode ter o que é meu”. É mais um desabafo de uma adolescente, a persona de You Should See Me in a Crown não soa como a mais madura de todas, mas é mais fria, calculista e sádica do que a de Copycat, é como: “Você não precisa ter feito algo diretamente para mim, mas toda essa tentativa de parecer feliz e perfeito o tempo todo para os outros já é o suficiente para me fazer o odiar.” Muitos dizem que essas personas dentro do álbum são completamente distintas, e Billie, ao compor e interpretá-las, não faz mais do que “desempenhar papéis” designados por produtores de grandes gravadoras, como a Interscope, por exemplo.

Mas, são partes fragmentadas da identidade dela que se mostram predominantes em determinados momentos de sua vida, mesmo se toda a espontaneidade e sinceridade fossem apenas estratégias de marketing, como o diálogo em “!!!!!!!”, para causar o famoso “engajamento”, máscaras também podem ser rostos. Billie Eilish participou de um programa do canal “TheEllenShow” em que suas fãs relatam terem saído de episódios depressivos graças a suas músicas, mas além disso, o que havia de diferente era que ela estava entre elas, mas disfarçada. Será que óculos e roupas convencionais realmente conseguem esconder a personalidade explosiva da artista que domina suas entrevistas e videoclipes? O que muda não é principalmente o visual (roupas, cabelo etc.), e sim o comportamento, a atitude, a forma de pensar e agir e a forma de expressar isso para o mundo. Seria ótimo relacionar isso a um personagem que entende muito bem disso. Quem é o “verdadeiro” Kal-El? O Clark Kent, ou o Superman? É simples, ele não tem que decidir entre os dois. Não há necessidade em eliminar um, pois estamos nos transformando em pessoas diferentes o tempo todo, numa cena de um de seus filmes em que ele pensa em contar a “verdade” para a Louis, ele muda a voz, a postura, o olhar, a atitude, e naqueles poucos segundos foi possível entender tudo. Tanto You Should See Me In a Crown quanto Bad Guy e diversas outras músicas do álbum falam sobre a liquidez da identidade humana. Tentar encontrar uma persona em si mesmo que seja mais verdadeira que as outras é uma completa perda de tempo, temos um personagem para cada ambiente, para cada situação, personagens tão diferentes que nem parecem habitar o mesmo corpo, mas ao invés de tentar encontrar apenas um protagonista entre todos eles, é melhor aceitar a existência de todos eles e fazer com que seu corpo e sua mente se pareçam menos com um palco em que há espaço apenas para quem está em evidência, para que se pareça mais como uma comunidade em que todos podem se expressar.

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