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Todo corpo é político: trinta dias sem Marielle Franco

Não havia passado nem uma semana do Dia Internacional de Luta das Mulheres, comemorado no dia 08 de Março, quando na noite de quarta-feira, 14.03, fomos surpreendidos com a trágica notícia sobre o assassinato da Vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco. Um crime brutal, com requintes de crueldade: Marielle, que fazia duras críticas à atuação violenta da Polícia Militar nas comunidades do Rio de Janeiro, foi executada em seu carro com 04 tiros na cabeça, quando retornava de uma Roda de Conversas com Mulheres negras no bairro da Lapa. Seu motorista, Anderson Gomes também foi assassinado. 

No dia seguinte aconteceria seu velório na Cinelândia, arrastando milhares de pessoas para as ruas, num misto de luto e protesto que nos fez recordar o velório do estudante Edson Luís, silenciado pela ditadura cinquenta anos antes. A partir da morte de Marielle uma grande comoção tomou conta do país, rompendo com a aparente apatia, na qual acreditávamos que se encontrava imersa população. As mortes de Anderson e Marielle completam um mês no próximo sábado (14), porém até o momento o crime segue envolto em muitas perguntas e poucas respostas.

Imagem do Velório do Estudante Edson Luis, em Março de 1968, na Cinelândia.
Imagem do Velório do Estudante Edson Luis, em Março de 1968, na Cinelândia. – Fonte: http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/edson-luis-de-lima-souto/index.html
Imagem do Velório de Marielle Francomidia_ninja119677_velorio_marielle.jpgAutor:  Mídia Ninja - Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/308821-1
Imagem do Velório de Marielle Franco – Foto: Mídia Ninja – Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/308821-1

O trágico episódio de sua morte nos conduz a uma reflexão sobre o esforço que mulheres como Marielle empreendem para se construírem politicamente, e sobre todas as dificuldades enfrentadas por uma mulher negra, pobre e favelada para sair da condição de invisibilidade numa sociedade patriarcal, colonialista, e capitalista como a nossa. Estas dificuldades se iniciam já na infância com os estereótipos de gênero aos quais as meninas são submetidas, persistindo por toda nossa vida num país em que 12 mulheres são vítimas de feminicídio por dia. 

Devemos ainda destacar, as dificuldades que nós mulheres enfrentamos para disputarmos politicamente, dentro e fora dos partidos, com homens brancos que dominam o cenário político brasileiro. O Caso Marielle escancara a seletividade de gênero, de raça e de classe nos espaços de poder e na política brasileira, bem como todos os obstáculos à participação das maiorias invisibilizadas, a insuficiência de direitos e políticas públicas, o machismo institucional e a violência de Estado.

Como já explicamos em artigos anteriores, quando falamos de mulheres na política apenas representatividade não é suficiente. A parlamentar significava muito mais do que a mera representatividade. Além de ter cursado Ciência Política, atuava há mais de uma década em movimentos sociais e políticos e era militante da “pauta” das mulheres, do Movimento Negro, das favelas e dos Direitos Humanos. Marielle Franco construiu suas batalhas através na luta de classes e do povo oprimido. 

Ao se assassinar alguém não se busca apagar da história apenas um corpo físico, mas principalmente se objetiva apagar todo o simbolismo existente neste corpo. É preciso enfatizar: Todo corpo é político! E no caso de Marielle, este corpo era carregado de muitos simbolismos: Marielle era mulher, negra, favelada, lésbica e socialista.  Tudo isso já é suficiente para que o patriarcado (arranjo de poder no sistema capitalista, composto majoritariamente por homens brancos) desejasse seu fim. Era preciso acabar com Marielle, para que outras Marielles não surgissem, não florescessem. 

Reprodução/ Mídia Ninja
Foto: Reprodução/ Mídia Ninja

Por isso, a morte de Marielle tanto nos comove. Ao assassinar Marielle o recado que nos é dado é muito claro: “Vocês, mulheres, negras, lésbicas, suburbanas, maiorias invisibilizadas… Aqui vocês não tem vez! Neste golpe o lugar reservado a vocês é o de bela, recatada e do lar! Se vocês ousarem ser outra coisa veja o que pode acontecer”. Ao matarem Marielle querem dizer às meninas da Maré, às meninas do Morro Santana, às meninas da Piedade, às meninas do Veloso, às meninas do Santa Cruz, às meninas do Antônio Pereira, às meninas de Miguel Burnier, que não sigam seu exemplo, que não busquem estudar e aprender sobre política. E que jamais ousem lutar pela emancipação das mulheres. Ao matar Marielle tentam matar nossos sonhos e nossos ideais de emancipação da Humanidade. 

E como se não bastasse toda a dor desta perda, a morte de Marielle faz ecoar em todos os cantos: E Cláudia? E Amarildo? E Igor Mendes? E Helenira? E Edson Luís? E todos os outros injustiçados e oprimidos? Todos estes caíram, mas como diria Marighella: “A única luta que se perde é a que se abandona”. Eles tombaram, mas nós seguiremos resistindo. 

Tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes. MARIELLE FRANCO… PRESENTE! AGORA E SEMPRE!

* Esse texto é um artigo de opinião do colunista e pode não representar a posição do portal Mais Minas sobre o assunto.

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