‘Coringa’: tire a máscara que cobre o seu rosto

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Quando falamos em DC Comics, muito provavelmente o primeiro personagem que surge à mente é o Coringa, ícone da cultura pop. E, quando falamos em “Coringa”, muitos fãs de cinema e da DC pensam imediatamente no ator Heath Ledger, cuja encenação do papel, na trilogia “O Cavaleiro das Trevas”, foi incluída nos livros de história do cinema. Agora, é a vez Joaquin Phoenix entrar nos grandes passos de Ledger e imortalizar o personagem mais admirado do universo DC.

Ao contrário dos filmes anteriores, nos quais o personagem é sempre retratado como um vilão contra o super-herói Batman, agora surge, por assim dizer, a “história da origem” do tema do arqui-inimigo do Batman.

Arthur Fleck (o Coringa) está sempre sozinho, sofre de uma doença mental e simplesmente não consegue se conectar ao mundo em que vive. Mas enquanto caminha pelas ruas de Gotham City, Arthur usa duas máscaras, uma que pinta diariamente para o seu trabalho como palhaço. A outra máscara é que ela não pode (ou não consegue) largar que é a que ele usa para sentir-se como parte do mundo ao seu redor. Ele nunca mostra o seu verdadeiro eu.

Arthur cresceu sem pai e cuida de sua mãe doente, que carinhosamente o chama de “feliz”. Mas Arthur nunca foi feliz em sua vida – além disso, o antissocial está ficando cada vez mais distante de seus semelhantes – e está se aproximando de seu verdadeiro eu.

A história do personagem chega a se confundir com aquela música da Pitty, “Máscara”: “Diga quem você é, me diga, me fale sobre a sua estrada, me conte sobre a sua vida. Tira a máscara que cobre o seu rosto, se mostre e eu descubro se eu gosto do seu verdadeiro jeito de ser”.

Não apenas porque a letra da música e o filme discorrem sobre as várias máscaras que nós usamos diariamente para mostrar aos outros aquilo que não somos, mas porque ambos expõem a realidade da crueldade à duplicidade da alma humana que acabam por provocar extremos psicológicos com múltiplas facetas de uma sociedade com distúrbios mental.

Batido, humilhado e excluído, o palhaço profissional de Gotham City, a grande cidade fictícia do universo DC, começa a se tornar aquilo que ninguém quer ser, mas que todos trabalham para que sejam: “antisociedade”.

De um modo geral, Arthur Fleck não aparece no filme como o “Coringa”, nem como um terrível vilão, o grande oponente do Batman. Ele é retratado como uma alma carregada de sentimentos, desejos e necessidades que poucos compreenderão. De tantas desilusões convivendo em uma sociedade doente que pouco se importa em se colocar no lugar do outro, ele acaba por se tornar uma pessoa triste e doente, convivendo de maneira isolada no seu “infinito particular”, como diria Marisa Monte.

Com tudo isso, aos poucos, Coringa vai se transformando num psicopata brutal que mata e dá gargalhadas daquilo. Se você está se perguntando como uma pessoa pode se transformar a tal ponto, você precisa ler esse texto novamente desde o início e observar melhor o mundo ao seu redor, pois há muitas pequenas situações cotidianas manchadas, mudanças radicais, egoísmo e humilhações. Todos os dias surgem “novos” Coringas em nossa sociedade.

Joaquin Phoenix tem um desempenho brilhante em sua atuação. Ele consegue atuar com os olhos de uma forma tão poderosa que é capaz de “invadir” a psique de quem o assiste. Suas gargalhadas insanas e incontroláveis, bem como o corpo dançante são tentativas de ser como aqueles taxados de “normal”.

Leia também: Coringa: polêmicas, crítica e opiniões sobre o filme

 

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