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EAD e Ensino Remoto não são a mesma coisa!

Em tempos de pandemia, talvez um dos maiores debates que tenhamos assistido seja como fica a educação. Observamos, por alguns, pressão para aulas on line, por outro lado temos também diversas pessoas que são radicalmente contrárias a este modelo.

Bom, para iniciar nosso debate, o primeiro ponto a se pensar é se temos de fato o Ensino a Distância (EAD) quando trocamos, do nada, um professor presencial pelo mesmo atrás do computador (PC). Isso não é a EAD, isso é gambiarra! Que garantia de aprendizado temos num quadro como esse? A meu ver muito pouco…

Por outro lado, para debater educação remota, é preciso pensar que todos têm acesso a recursos computacionais, mas será mesmo? De acordo com o IBGE, 66% das casas da zona rural não têm acesso à internet; 58% das casas não tem internet, 59% das pessoas das classes D e E nem navegar na internet navegam e 38% das casas não tem acesso à internet.

Assim sendo, será que é justo oferecer educação via PC para só uma parte da população? Eu penso que não, e mais, os números que expus no parágrafo anterior mostram que milhões de estudantes pobres e de zona rural, na prática não terão e não tem como estudar durante a pandemia, ficando excluídos do processo educacional.

Além disso, é preciso pensar nas condições de trabalho dos professores. Para dar conta de tudo que se coloca no tal ensino remoto, diversos profissionais estão trabalhando bem mais que sua carga horária, estando estressados e estafados, some-se a isso o fato de muitos terem filhos pequenos e precisarem, juntamente, ainda realizar tarefas domésticas, algo que dá bastante trabalho e dificulta a realização do próprio trabalho, será que é justo que o professor tenha que levar a culpa de um vírus que ninguém tem culpa?

E tem mais: como faz com aqueles educadores que não tem acesso a computador e a internet de banda larga em casa? Ele vai ter que pagar para trabalhar? É preciso pensar que os salários da educação básica, em nosso país, são extremamente rebaixados, trazendo mais essa pauta para a nossa reflexão.

Outro ponto que devemos pensar: educação infantil. Como colocar na frente do computador crianças tão pequenas? Eu desafio qualquer pai ou mãe a deixar a criança, nessa idade escolar, por 50 minutos em frente ao lap top assistindo aula, eu duvido que consiga! E não consegue porque a educação, nessa fase, é tátil, não abstrata, ou seja: não tem como ser realizada da forma proposta por alguns!

Quero também trazer para a nossa pauta a educação superior. Imagina um engenheiro fazendo aula de topografia à distância, será que é capaz de aprender a usar um teodolito ou mesmo uma estação total sem vê-la de perto?

E os médicos e demais cursos de saúde? É possível ensinar a aplicar injeção pelo computador? Ou a fazer cirurgia de outra forma que não seja a presencial? Eu penso que não.

Assim, podemos perceber que nas mais diversas esferas educacionais não é possível oferecermos aulas remotas sem o devido preparo de alunos, professores e da própria família.

Somando-se a todos os esforços eu pergunto: é mesmo possível oferecer educação via internet sem todos terem internet? Eu creio que não, pois infelizmente ações como essa só contribuem ainda mais para a exclusão social, e devemos lutar contra isso, afinal a educação deve ser inclusiva, não exclusiva, ou seja: EAD e ensino remoto não são a mesma coisa! Viva a educação básica presencial, abaixo a gambiarra cibernética!

Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe) é Biólogo e Professor, Dr. em Ciências Naturais e Docente do IFMG

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