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Em entrevista exclusiva, Flavio Gomes fala sobre palestras, GP do Brasil e papel do jornalismo no combate ao preconceito

Em alta por seu atual trabalho na Fox, o jornalista Flavio Gomes é um dos mais renomados especialistas em automobilismo do Brasil. Com três décadas de experiência na cobertura de Fórmula 1, o paulista é o responsável pela fundação do Grande Prêmio, maior site da modalidade no país. Hoje, Flavinho é um dos membros do Fox Sports Rádio, um dos programas esportivos líderes em audiência na TV fechada. Chamando a atenção pelos memes, polêmicas e discussões acaloradas, que movimentam telespectadores no Twitter e Facebook, a atração é comandada por Benjamin Back.

Em entrevista exclusiva, Flavio Gomes fala sobre palestras, GP do Brasil e papel do jornalismo no combate ao preconceito
Bancada do Fox Sports Rádio – Crédito da foto: Fox Sports/Reprodução

Em entrevista exclusiva ao Mais Minas, o jornalista conta ao repórter João Victor Pena sobre a sua participação em roda de conversa na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), as suas opiniões sobre o GP do Brasil disputado no último domingo (17), o futuro da Fórmula 1 no país e a importância da visão crítica do jornalista no mundo moderno. 

Palestra na UFOP

Durante o último dia 9, o jornalista esteve presente em Mariana para a realização de uma palestra na UFOP, onde falou sobre confluência entre literatura e jornalismo, jornalismo esportivo, liberdade de imprensa e expressão em tempos de perseguição, cobertura da morte de Ayrton Senna, dentre outros assuntos.

MM: Algumas semanas atrás, você veio a trabalho até as cidades históricas de Ouro Preto, onde está sediado o Mais Minas, e Mariana. Como foi essa experiência?

F: Foi ótima. Apesar de ter ficado pouquíssimo tempo, pude conhecer um pouco de Mariana e Ouro Preto, que ainda não conhecia. São cidades lindas, embora pudessem ter um tratamento turístico melhor. Os centros históricos são belos e preservados. Mas o entorno é maltratado e a urbanização inexiste.

MM: Durante essa vinda, você realizou uma palestra na UFOP. O que você tirou de positivo desse encontro com os estudantes?

F: Sempre aprendo muito com estudantes e isso não é clichê. É uma forma de me manter em contato com as gerações mais novas, suas aflições, angústias e ideias. Todos estavam muito interessados e a troca de informações foi valiosa.

MM: Muitos dos jovens presentes eram do curso de jornalismo. Quais as características e atitudes você acredita que alguém que pretenda seguir na área deva ter?

F: Falamos disso na palestra. Capacidade de se indignar, hoje, é a principal qualidade que um jornalista deve ter. Escolher um lado, saber que estamos vivendo um momento em que não se pode permanecer neutro diante de tantas barbaridades que emanam de um governo abjeto.

Interlagos 2019 e o futuro da Fórmula 1 no Brasil

Realizado mais uma vez no Autódromo de Interlagos, o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 ocorreu no último dia 17 de novembro. Considerado por muitos como a melhor corrida de 2019, o GP foi um sucesso de público. Vencida por Max Verstappen, a corrida também chamou atenção pela colisão dos pilotos Sebastian Vettel e Charles Leclerc, ambos da Ferrari.

Em entrevista exclusiva, Flavio Gomes fala sobre palestras, GP do Brasil e papel do jornalismo no combate ao preconceito
Bruno Senna, sobrinho de Ayrton Senna, deu volta no circuito de Interlagos no carro do falecido piloto, antes do início do GP do Brasil – Crédito da foto: Douglas Magno/AFP

MM: Com a expansão das redes sociais da Fórmula 1, a modalidade voltou a ganhar grande destaque. No Brasil, com a falta de um piloto brasileiro na elite do automobilismo, muito se discute sobre até quando o público daqui se interessará pelas corridas. Como você vê o futuro da F1 no país?

F: Acho que independe de piloto brasileiro. Torcedor brasileiro quer brasileiro ganhando, não participando. São torcedores que se apropriam das vitórias alheias. Se sentem vencedores quando falam de Senna. Mas não se assumem perdedores quando mencionam os muitos pilotos que nunca tiveram grandes resultados. Torcedor brasileiro é meio besta. Mas há os fãs da F1 como esporte, e esses gostam de corrida com brasileiro ou sem. Vai ser bom apurar, nos próximos anos, qual é essa base de fãs da categoria. E será bom também ver sendo formada uma geração que gosta do esporte independentemente de brasileiros estarem lá. Serão fãs mais críticos e exigentes.

MM: Apesar das conspirações a respeito do futuro, o último GP do Brasil foi um sucesso de público e audiência, tendo sido considerado por muitos como o melhor de 2019. O que você achou da edição desse ano do GP?

F: Foi um dos melhores, ao lado do GP da Alemanha. O campeonato teve ótimas corridas, embora seu desfecho fosse previsível. A Fórmula 1 é um bom espetáculo esportivo e tecnológico.

MM: Parte da renovação do público vem também com a renovação dos pilotos. Hoje, boa parte dos fãs já abraça e torce por jovens nomes, como o neerlandês Max Verstappen e o monegasco Charles Leclerc. Dessa nova geração de pilotos, você tem um favorito?

F: Verstappen é, disparado, o melhor de todos. Mas, de fato, a nova geração é muito boa. Leclerc, Norris, Sainz e Russell são muito talentosos. 

MM: A ascensão de Leclerc na Ferrari fez com que público e imprensa começassem a comentar, e até mesmo torcer, sobre uma rivalidade entre ele e o veterano Vettel. O que era apenas especulação, tomou forma em Sochi, e ganhou repercussão mundial após a batida em Interlagos. Até que ponto uma rivalidade entre pilotos de uma mesma Scuderia pode ser positiva?

F: Quando a equipe é dominante, não tem muito problema porque não compromete o resultado final, como Prost-Senna, Hamilton-Rosberg. Mas o ambiente interno fica muito pesado. Como regra, o melhor é não estimular essas rivalidades porque no fim elas acabam em confusão. Só que a Ferrari não imaginava que Leclerc seria tão competitivo e duro logo no primeiro ano. Repete-se o que aconteceu em 2007, com Alonso e Hamilton na McLaren.

MM: Assim como no futebol, e em outros esportes, o automobilismo depende das categorias de base para se desenvolver. Um exemplo de trabalho de jovens é da Red Bull, que vem colhendo grandes frutos através de seus programas de desenvolvimento de pilotos, algo evidenciado no pódio de Interlagos. Porém, o automobilismo brasileiro vem sendo impactado pela falta de bases no país, o que retarda o surgimento de nomes nacionais na elite da modalidade. Em sua visão, quais medidas podem ser tomadas para a retomada dos programas de base no Brasil?

F: O Brasil perdeu o bonde da história nessa questão. Teve pilotos em equipes de ponta, ganhando campeonatos e corridas, por quase 40 anos. Mas não aproveitou isso. Um projeto de longo prazo poderia ter sido criado há décadas, barateando o kart, chamando as montadoras, criando categorias, construindo autódromos. Agora já era. Não há dinheiro, nem interesse. Automobilismo não é prioridade de ninguém. Sem quantidade, não sai qualidade. Se aparecer um piloto de ponta um dia, será um acaso. Como foi o Guga no tênis.

Mídia, esporte e políticas sociais

Ao longo do ano de 2019, muitos casos de racismo ganharam destaque no futebol europeu. A Itália foi o país com mais relatos em evidência, como os cânticos racistas da torcida do Hellas Verona em direção à Mario Balotelli, durante partida contra o Brescia, time do atacante.

O caso que mais ganhou mídia no por aqui foi o de Taison, atacante que disputou a Copa do Mundo de 2018 pela Seleção Brasileira e que defende o Shakhtar Donetsk. Durante um clássico contra o Dynamo de Kiev, ele e o seu companheiro de time, Dentinho, foram chamados de macacos pela torcida rival. Transtornado com a situação, o jogador fez gestos obscenos para os racistas e deixou o campo indignado ao ser expulso pelo ato. Posteriormente ainda foi suspenso por um jogo, pela federação ucraniana, por suas atitudes. 

Taison
Taison faz gestos obscenos à torcida que o insultava racialmente – Crédito da foto: Oleksandr Osipov/Reuters

MM: No ano de 2019, o racismo entrou em evidência no futebol europeu. O número de casos, principalmente na Itália e no leste europeu, que ganharam corpo na imprensa é muito grande. Qual deve ser o papel da mídia e dos jornalistas na busca por um fim dessas atrocidades?

F: Denunciar, não contemporizar, falar o tempo todo, cobrar as autoridades, apontar o dedo. A vigilância tem de ser permanente.

MM: O momento político conturbado e polarizado que vivemos no Brasil fez com que atletas de diferentes lados se posicionassem em público. Jogadores como Jean Pyerre e Igor Julião se colocaram contra o atual governo, assim como Felipe Melo e Jadson se mostraram à favor. Você acredita que a grande maioria dos atletas omite suas opiniões por falta de uma identidade política ou mais por medo de represálias de parte da torcida?

F: Acho que eles são alienados, mesmo. Pouco interessados nos rumos do país. São raríssimos os que se posicionam. Em geral, o esporte é um meio muito conservador.

MM: Após anos de trabalho em coberturas de Fórmula 1 e futebol, você consegue dar chance e acompanhar um novo esporte? Se sim, qual tem te cativado nos últimos tempos?

F: Eu gosto de esportes em geral. Mas tenho uma preferência clara pelo automobilismo. O futebol eu gosto de observar mais como fenômeno social do que esportivo. Ele é rico, nesse aspecto.

Hoje, Flavio Gomes, divide seu tempo entre a carreira jornalística e seu principal hobby, que é colecionar carros antigos. Além disso, é autor dos livros O Boto do Reno e Dois Cigarros. Sendo o primeiro um compilado de crônicas envolvendo suas viagens a trabalho para cobrir Fórmula 1, e o segundo um romance envolvendo automobilismo.

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