Estudo mostra porque o Jardim Botânico é uma preciosidade em Juiz de Fora

Você já ouviu falar de mulungu, guapuruvu ou figueira-mata-pau? Todas elas são espécies de árvores presentes no Jardim Botânico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), localizado na Mata do Krambeck. O maior conjunto de levantamentos realizados por pesquisadores identificou 436 espécies de árvores, arbustos, ervas e outros tipos de flora no local.

Dentre elas, foram encontradas dez espécies ameaçadas de extinção, em lista nacional, como braúna, cedro, ipê-roxo e pau-brasil. Tal presença “mostra que a área possui potencial para a conservação da diversidade florística da região”, afirmam os pesquisadores em artigo publicado neste mês na revista científica Rodriguésia, do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. “Um estudo profundo que possibilita o conhecimento e a conservação deste patrimônio – a rica biodiversidade de um remanescente de Floresta Atlântica”, destaca a professora e uma das autoras, Fátima Salimena.

A maioria das espécies é nativa (92,7%), ou seja, originária da própria Mata Atlântica, bioma a que pertence o Jardim. São o caso de 404 variedades, como a palmeira juçara, conhecida pelo valorizado palmito e pelo fruto parecido com açaí. “Chamaram bastante a atenção dos pesquisadores, exemplares de fumo-de-cachorro, figueira-mata-pau, pau-jacaré e a presença massiva de angico vermelho”, afirma o vice-diretor do Jardim Botânico, Breno Moreira, que participou do estudo.

As espécies que foram cultivadas, plantadas no Jardim, totalizam 3,1%, distribuídos em 14 variedades. Exemplos são angico e pau-jacaré, inseridas no local para darem sombra à antiga plantação de café que existia na área até a década de 1930, antes de a floresta recuperar o espaço.

Há também 11 espécies exóticas ou invasoras, introduzidas por meio de intervenções paisagísticas ao longo do século XX. A palmeira originária de Madagascar (África), a Raphia farinifera, destaca-se entre esses exemplares, com uma das maiores folhas do mundo, podendo alcançar, em média, 25 metros.

Presença de espécies exóticas é resultado de intervenções paisagísticas ao longo do século XX

Os pesquisadores chamam atenção para a presença de uma área de 15 hectares que está, há mais de 70 anos, sofrendo baixa interferência humana. Esse “isolamento” permite o avanço da recomposição e o adensamento da mata, tornando-a mais complexa e biodiversa, na chamada sucessão ecológica.

E onde fica a maior variedade de árvores, ervas, cipós e arbustos no Jardim? Conforme o estudo, elas estão mais concentradas no interior da floresta, agrupando cerca de 45% das espécies. Em seguida, aparecem a borda (29,36%) e as áreas úmidas ao redor do lago (9,9%).

Regionalismos e singularidades

Aspecto homogêneo da mata é apenas aparente: fragmento florestal possui diversidade verificada por pesquisadores (Foto: Thiago Andrade)

Um olhar pouco treinado pode pensar que matas em Juiz de Fora ou em cidades próximas são exemplares do “mais do mesmo”. Mas este e outros estudos mostram que não. A flora do Jardim apresenta, de fato, similaridades com as de outras regiões vizinhas, das bacias dos rios Paraíba do Sul e Doce, em Minas Gerais, mas também com florestas dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Uma mescla que torna o fragmento local singular. “Ela é representativa da flora tanto do município quanto da região da Zona da Mata como um todo, o que revela para a gente as espécies típicas de floresta estacional semidecidual do Estado”, explica uma das autoras, Camila Neves Silva.

Mas tem singularidades. Quem visita o local vai encontrar uma composição diferente de outros ambientes em determinados trechos. De acordo com Camila, a estrutura de anfiteatro do Jardim, com encostas íngremes e áreas planas logo abaixo, forma ambientes mais úmidos e sombreados. Dessa forma, o Jardim possui espécies comuns a florestas ombrófilas (mais úmidas ou densas), como as dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. “Encontrando essas espécies em comum, percebemos claramente a posição de Juiz de Fora como corredor ecológico, que liga as serras do Mar e da Mantiqueira, o que é de importância alta para a manutenção da biodiversidade”, destaca a pesquisadora.

Essas diferenças entre a mata do Jardim e de outras áreas no próprio Estado indicam os regionalismos florísticos. “As espécies encontradas, no Jardim, são distintas de outros fragmentos florestais estudados em áreas próximas. Estas florestas apresentam uma flora que é bastante variável de região para região, apesar de manterem um visual, uma fisionomia homogênea. Por isso, é importante estudar cada fragmento florestal para se ter ideia de seu histórico de ocupação, manejo e recuperação, pois são distintos”, explica a professora Fátima Salimena.

Outra característica local que chamou a atenção é a presença de 93 espécies de ervas, tornando esse grupo o segundo maior em diversidade no Jardim, ficando atrás somente de árvores, com 220 espécies. Em geral, arbustos são os que aparecem logo em sequência. No estudo local, eles somam 57 variedades. Uma das razões é que, conforme Camila Neves, muitos levantamentos florísticos subnotificam espécies herbáceas, diferentemente da pesquisa no Jardim.

“Este estudo vem reforçar que cada fragmento florestal deve ser protegido independentemente de sua localização e dimensão territorial, pois traz um histórico de conservação que deve ser analisado”, acrescenta Fátima. “É iminente a consolidação de políticas para a manutenção da conservação não só deste remanescente, assim como de todo seu entorno, ou seja, a Área de Proteção Ambiental Mata do Krambeck, reforçando a vocação da área como um todo para a manutenção da diversidade florística”, afirmam os pesquisadores. Entre eles os professores Fabrício Carvalho e Luiz Menini Neto, ambos do Departamento de Botânica do ICB/UFJF; os professores do Instituto Federal – Sudeste MG, Cassiano Fonseca e José Hugo Ribeiro; o gerente da APA Mata do Krambeck Arthur Valente; e o professor  Daniel Pifano, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf).

O estudo é resultado de três anos de coletas de amostras, entre 2011 e 2014, e do agrupamento de diversas pesquisas em anos seguintes. A cada 15 dias, os pesquisadores percorreram trechos selecionados dos 80 hectares do Jardim.  “Nos trabalhos do Laboratório de Ecologia Vegetal, coordenado pelo professor Fabrício Carvalho, fizemos uma amostragem aleatória. Onde caía uma amostra, íamos, independentemente de facilidade de acesso. Juntando tudo, podemos falar que o Jardim foi completamente amostrado. Temos uma representatividade fidedigna do total de espécies”, explica Breno Moreira. O material coletado está acondicionado no Herbário CESJ Leopoldo Krieger, da UFJF.

“A esperança é que os estudos realizados sejam repassados em cadência para os tomadores de decisão e a sociedade em geral, que precisa se sentir parte deste processo para melhor defender os nossos recursos naturais e a biodiversidade brasileira”, reforça a professora Fátima.

Quantidade de ervas no Jardim é superior à usual de arbustos em outros levantamentos

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