Manifestações, violência e renúncias: entenda o que está acontecendo na América Latina

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A América Latina vive dias intensos no âmbito social, político e econômico. No Chile, grandes protestos tomaram as ruas, com muitas cenas de violência e medidas de repressão do governo. Na Bolívia, uma imensa pressão militar levou a renúncia do presidente. E no Equador, muitos protestos e violação dos direitos direitos humanos pelo país. Tudo isso eclodiu em outubro, causando grande instabilidade e repercussão na mídia.

Nesta matéria vamos explicar de maneira sucinta o histórico de protestos, a onda de violência, a polarização política e o que vêm acontecendo de fato no Chile e na Bolívia. Confira:

Chile

No Chile, a crise começou 6 de outubro, quando o valor da passagem do metrô de Santiago subiu 3,75%, e alcançou $ 830 pesos chilenos (equivalente a 4,43 reais brasileiros), por viagem no horário de pico. Isso porque, no transporte público do país, as tarifas variam de acordo com a hora do dia, sendo mais cara no horário de maior movimento.

Desse modo, com base no salário mínimo do Chile, o valor gasto em passagem para quem trabalha de segunda a sexta-feira, corresponderia a 11% do salário. Em 12 anos, o Chile passou por 21 ajustes da tarifa no sistema de transportes, praticamente dobrando seu valor.

Nos dias seguintes ao reajuste, começaram a eclodir protestos, principalmente de jovens e estudantes, contrários ao aumento da tarifa. Em 19 de outubro, houve o ápice dos protestos: um incêndio queimou o edifício de uma companhia de eletricidade em Santiago, capital do Chile e outro atinge a sede do jornal “El Mercurio de Valparaiso”, o jornal mais antigo do país. Saques a supermercados e quebra quebra em metrôs foram registrados desde então.

Além disso, o Estado de Emergência e toque de recolher foram decretados em várias cidades, pelo presidente Sebastián Piñera, na tentativa de controlar os protestos que tomaram conta do país. Ainda no dia 19 de outubro, a Câmara dos Deputados revogou o aumento da passagem.

Violência

Para reprimir as manifestações, militares foram enviados pelo governo, e tanques das Forças Armadas circularam nas ruas chilenas, algo nunca visto desde a ditadura de Augusto Pinochet, que durou de 1973 a 1990. A partir daí, começaram a ser divulgadas inúmeras imagens na internet mostrando a onda de violência. Militares reprimiram de forma brutal os manisfestantes, deixando muitos mortos e feridos.

Até o dia 8 de novembro, 23 pessoas foram mortas e mais de 2 mil ficaram feridas, de acordo com o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH). Além disso, cerca de 180 pessoas sofreram graves lesões nos olhos, algumas perdendo completamente a visão, devido a disparos com bala de borracha ou outras armas não letais, segundo a Sociedade Chilena de Oftalmologia (Sochiof).

No dia 25 de outubro, mais de 1,2 milhão de pessoas se concentraram na Plaza Italia, na capital chilena. Na ocasião, o governo foi criticado por ter levado os militares às ruas. Após isso, o presidente chileno anunciou um pacote de medidas sociais, que foi considerado insuficiente pela população e pediu a renúncia de todos os seus ministros, para fazer um novo gabinete ministerial. O governo também extinguiu o toque de recolher e o Estado de Emergência, mas isso não cessou as mobilizações.

Desse modo, as manifestações continuam e a população chilena reivindica reformas sociais profundas. O aumento da tarifa do transporte foi o estopim para o avanço de uma grande mobilização no país. Os principais pontos reivindicados são a diminuição do salário dos parlamentares, melhoras na saúde, recuperação de recursos naturais exportados e melhoras na educação, como forma de combater a desigualdade social, muito nítida no país.

Além disso, uma mudança na Constituição também é exigida. Isso porque o país possui a mesma Carta desde a ditadura Pinochet, somente alterada através de emendas constitucionais. Uma das principais alterações seria com relação ao fundo obrigatório de previdência, que destina um recurso muito baixo aos aposentados. O presidente do Chile, Sebastián Piñera anunciou um projeto para mudar a Constituição.

No entanto, Piñera será processado por supostos crimes contra a humanidade, após os violentos protestos, com mortes por ação direta de agentes do Estado.

Bolívia

Na Bolívia, a situação também é caótica, e tem origem na eleição presidencial de 2019, que aconteceu no dia 20 de outubro. Lá não há sistema eletrônico de votação como no Brasil e o voto é por cédula de papel, portanto a apuração demora um pouco mais do que estamos habituados.

Existem duas formas de apuração que acontecem simultaneamente na eleição da Bolívia: o primeiro é um resultado preliminar, que sai poucas horas após o encerramento das votações. Já o segundo é o resultado oficial, feito por uma contagem mais demorada. Ambas as contagens são monitoradas por outros órgãos.

Para um candidato conseguir ser eleito ainda no primeiro turno na Bolívia, é necessário que ele consiga atingir 40% dos votos ou mais, com 10% a mais que o candidato que estiver na segunda colocação.

De acordo com os resultados da eleição, divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) da Bolívia, haveria segundo turno. O órgão indicou que Evo Morales, primeiro presidente indígena da Bolívia, havia obtido 46,41% dos votos e seu opositor, Carlos Mesa, 37,07%. Para ganhar, Evo precisaria somar dez pontos percentuais de diferença para vencer em primeiro turno. Houve atraso e demora na divulgação dos resultados.

Manifestações e polarização

Entretanto, uma reviravolta nas eleições aconteceu e Evo Morales foi eleito em primeiro turno, assumindo seu quarto mandato consecutivo no país. Após isso, manifestantes descontentes com o resultado eleitoral tomaram as ruas da Bolívia. No dia 21 de outubro, o Tribunal Eleitoral da cidade de Sucre foi incendiado. O comitê eleitoral do partido de Evo também foi atacado. No dia seguinte, o vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral boliviano, Antonio Costas, renunciou ao cargo.

Após 4 dias de apuração, o TSE oficialmente declara Evo Morales como vencedor das eleições de domingo, conquistando a presidência novamente ainda em primeiro turno. Entretanto, a oposição alegou fraude eleitoral. Durante os confrontos entre apoiadores e opositores do presidente, muitas pessoas foram encontradas mortas ou feridas.

Evo Morales então decretou estado de emergência na Bolívia, mas pela Constituição de 2009 do país, não há estado de emergência, apenas estado de exceção. A partir daí, opositores de Evo anunciam greve geral no serviço público, fechamento de fronteiras do país “de forma pacífica” e envio de carta de renúncia ao então presidente Morales para sua assinatura.

Com isso, a violência aumentou a cada dia no país. A prefeita da cidade de Vinto foi humilhada por opositores de Evo Morales, teve o cabelo cortado, foi pintada e obrigada a andar descalça pela cidade enquanto manifestantes a chamavam de assassina. Manifestantes antigoverno queimaram a residência do governador de Oruro.

Em 9 de novembro, o Ministério das Relações Exteriores da Bolívia denuncia, por meio de comunicado, agressão aos meios de comunicação e jornalistas. Os opositores do governo estariam impedindo transmissões de emissoras. Foi então que policiais de toda a Bolívia começaram a se juntar aos protestos contra Evo Morales, sendo aplaudidos por manifestantes antigoverno.

Renúncias

Em 10 de novembro, Evo anunciou a convocação de novas eleições no país. O Centro de Trabalhadores da Bolívia (COB), principal federação sindical do país, também pediu a renúncia de Evo Morales. Na crise, diversas renúncias foram registradas, dentre ministros, senadores e governadores que deixaram seus cargos.

Para o país se pacificar, as Forças Armadas também sugeriram que o presidente renunciasse. Em 10 de novembro, veio então a notícia de que Evo Morales renunciou, após quase 14 anos de poder, juntamente com a ex-presidente do Tribunal Supremo Eleitoral do país, María Eugenia Choque. Todas as outras pessoas na linha de sucessão presidencial também renunciaram seus cargos.

No entanto, a vida e segurança de Evo corriam risco caso ele permanecesse na Bolívia. Isso porque casas de familiares e pessoas próximas do presidente foram vandalizadas. Após pressão das Forças Armadas Bolivianas, Evo Morales chegou ao México, país que lhe concedeu asilo, na última terça-feira (12).

Por fim, a América Latina segue numa intensa crise e divisão política, que, se continuar, pode afetar o Brasil intensamente.

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