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Escolas de Samba de Ouro Preto reclamam da demora para receber recursos

Rodolpho Bohrer 20 de janeiro de 2020 às 22:16
Tempo de leitura
6 min

Faltando 30 dias para o carnaval, presidentes das escolas de samba de Ouro Preto reclamam por ainda não terem recebido os recursos necessários para montar suas apresentações na Praça Tiradentes. O curto prazo para se organizarem traz muitas inseguranças quanto ao desfile.

O Carnaval de Ouro Preto terá o patrocínio da empresa Ambev, que acordou em disponibilizar cerca de R$ 2,2 milhões para o evento, sendo destinados R$ 40 mil para cada escola de samba. Entretanto, o valor ainda não chegou para aqueles que irão desfilar na Praça Tiradentes.

O presidente da Escola de Samba Inconfidência Mineira, Jorge Sérgio Gonçalves, disse que estão de “mãos atadas”. “Estamos sem saber o que fazer, porque não dá pra comprar nada quando (a verba) sair. Quando o dinheiro cair na conta, vamos comprar tudo mais caro e ainda não compramos nada. Estamos confeccionando nossas coisas reciclando com o que sobrou do desfile do ano passado e com o que achamos no lixo”, declarou Jorge.

Fernando Marques, um dos fundadores da União Recreativa do Santa Cruz, também pede para que o poder público olhe para as escolas de samba da cidade como um patrimônio. “Aqui nós temos um tipo específico para as baterias serem tocadas. Por exemplo, no surdo, o tocador bate e marca e por isso ele usa duas baquetas. Isso mostra um tipo de tocar mais pesado, mais acelerado, mas sem perder o ritmo do samba, se torna algo único no Brasil todo e que só tem aqui em Ouro Preto. Já pedi várias vezes para o pessoal levantar essa bandeira e isso se tornar um patrimônio, assim como existe o Olodum, o frevo, as escolas do Rio. Então, a gente tenta, porque eu tenho certeza, a partir do momento que eles fizerem esse trabalho, vai ganhar mais visibilidade, porque isso aqui é patrimônio da cidade”, relata o regista da escola de samba.

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Contraponto

Escolas de Samba de Ouro Preto reclamam de ainda não terem recursos

Crédito da foto: Rômulo Soares / Mais Minas

Em decorrência do problema, o recurso disponibilizado pela Ambev para as escolas de samba está inserido no projeto de lei de incentivo. Com isso, o prazo para o pagamento é até dia 10 de fevereiro, firmado em contrato com a Liga das Escolas de Samba. Porém, há a intenção da empresa de antecipar esse dinheiro para o dia 31 de janeiro.

Sobre o incentivo por parte do município para as escolas de samba atuarem no carnaval deste ano, a Prefeitura se responsabilizou pagar R$ 50 mil para assumir o que a lei de incentivo não permite, que é a contratação dos jurados, o transporte, etc.

Mas, além disso, o Secretário de Turismo, Indústria e Comércio de Ouro Preto, Felipe Guerra, alegou que as escolas de samba precisam buscar um pouco de independência financeira.

“Outro problema é que as escolas de samba passam o ano inteiro sem fazer um bingo, sem um evento, então os caras não tem caixa. Diferente do Rio de Janeiro e de outros lugares, em que as escolas de samba tem eventos programados ao longo do ano, como bingo solidário, feijoada e etc, para não dependerem chegar no início do ano e vir pedir dinheiro da Prefeitura. Como é que eu vou lá na Ambev e falo ‘você vai pagar agora’?”, disse o secretário.

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E quanto ao incentivo do poder público para as escolas de samba, Felipe firmou que a Prefeitura e a gestão das secretarias como um todo estão dando oportunidades às escolas, enquanto as outras cidades estão acabando com o carnaval.

“Quando nós assumimos isso aqui em 2017 não teve nem carnaval com escola de samba. Então houve um processo de reerguimento deles, inclusive perante o poder público que, antes, era radicalmente contrário a qualquer verba pública envolvida com carnaval de escola de samba, como é no Rio de Janeiro. E eles tem que entender esse trato jurídico e a situação atual dos municípios. Os carnavais nas cidades históricas estão acabando, haja vista que esse ano não teve patrocínio para ninguém (apenas para Belo Horizonte e Ouro Preto). O ‘cara’ (Ambev) chega com R$ 2 milhões para Ouro Preto, aliviando os cofres públicos para gastar em saúde e educação, aí como eu abro mão disso porque eles só podem pagar em janeiro ou fevereiro?”, comentou Felipe Guerra.

Liga das Escolas de Samba

Escolas de Samba de Ouro Preto reclamam da demora para receber recursos

Crédito da foto: Prefeitura de Ouro Preto

A Liga das Escolas de Samba é uma organização que trabalha como representação de todas as nove escolas de Ouro Preto. Nela, é feito o intermédio de contratos como esse com a lei de incentivo patrocinado pela Ambev.

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Bosco é o presidente da Liga e considera que o prazo para a compra dos materiais e a organização das escolas de samba para o carnaval são realmente curtas. “Na verdade o prazo é curto. Eu acho que é exatamente pela falta de planejamento da Prefeitura junto com as escolas de samba. E também, o lançamento da carta convite para patrocínio do carnaval somente está sendo feita em dezembro, coisa que eu acho que poderia ser feito com mais antecedência, e que nesta carta, ou edital, as Escolas de Samba fossem contempladas de fato”, alegou Bosco.

Além disso, o presidente da Liga das Escolas de Samba de Ouro Preto disse que as escolas mantém uma organização antecipada justamente para não sofrer esse tipo de problema com os prazos.

“Sobre o atraso, nós somos sempre penalizados, pois sempre deixam essas coisas para ultima hora. Quando falo isso falo da Prefeitura, porque entregamos nosso planejamento seis meses antes e isso deveria ser levado em consideração, exatamente pelo trabalho que dá para montar todo um desfile de escola de samba. Isso acarreta em preços mais altos e menos qualidade, devido à grande demanda das demais cidades e os poucos locais que trabalham com material específico de carnaval”, disse Bosco, presidente da Liga.

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Última atualização em 9 de setembro de 2021 às 16:52