O espírito de nosso tempo

Crise é a condição dada a ser superada, pontuada por diversos desafios, que, quando solucionados, abrem caminhos para novas possibilidades de existir. Estamos vivendo um momento de profunda crise política, que já ultrapassou todos os limites da racionalidade.

Assistimos, neste instante, a manifestação grotesca das práticas vis da política tradicional brasileira – racista, homofóbica e machista -, estruturada ao longo dos últimos 500 anos para a manutenção de um projeto de país genocida. Compreendemos que estamos diante de um contexto tão absurdo e nefasto, que nos impulsiona para uma única saída: assumirmos nosso protagonismo e responsabilidade buscando mudanças. É urgente nos organizarmos para construirmos, juntos, estratégias para ocupar os espaços de tomada de decisão.

Os últimos vinte anos foram marcados por profundas transformações sociais no Brasil. A mais forte delas foi a ampliação do acesso a informações e conhecimentos, até então destinado à produção e compartilhamento de saber, acessados apenas por uma pequena parcela da população. Ao ser ocupado por pessoas de diferentes camadas sociais, gêneros e raças, o efeito causado tornou-se imensurável.

Ocupar espaços de saber é o primeiro passo para ocupar espaços de poder.

Essa transição está em curso. Não à toa o desespero da elite tradicional, que, à medida que nos movimentamos, se apresenta cada vez mais agressiva. Faz-se notório o impacto provocado pela projeção alcançada, pelos pretos.

Nós herdeiros da diáspora africana, filhos da maior migração forçada da história, ao acessarmos informações e conhecimentos sobre nossos antepassados nos tornamos outros e nos emancipamos.

Acessar nossas raízes nos faz fortes. Nos permite identificarmo-nos em nossa irmandade, em nossas dores e necessidades comuns. Reestabelecer a empatia como conexão direta, na busca de propósitos comuns e construir uma voz uníssona, são consequências que já sentimos em nosso dia a dia.

No entanto, agora, precisamos ir além. Precisamos estabelecer redes de confiança, que nos permitam ampliar, ainda mais, nossos acessos e potencializar nossos mecanismos de luta.

Agora, nos encontramos em meio a movimentações que projetam o cenário das eleições municipais. Neste momento estão sendo assinados e pactuados os acordos que decidirão o destino de nossas cidades para os próximos 4 anos.

Não podemos nos omitir, se desejamos mudança. Precisamos ser mudança! Precisamos nos colocarmos, nos apoiarmos mutuamente e empunhar nossas bandeiras. Precisamos desconstruir a ideia de que “preto não vota em preto” e “mulher não vota em mulher”. Esta é a única via de mudança: denunciar e desconstruir o racismo/homofobia/machismo estrutural.

Essa atitude se justifica todos os dias diante de nossos olhos. São inúmeras as notícias de crime motivados por racismo/ homofobia/machismo. São muitas as teses denunciando o boicote que sofremos ao longo de toda história. São muitas evidencias que apresentam o quanto nossos ancestrais foram fundamentais, para que todo mundo moderno fosse estruturado.

Este é o nosso tempo. Estamos diante da encruzilhada. Temos duas opções, agir ao que nos é imposto ou reagir ao que nos é imposto. Reagir é o que geralmente acontece. Já agir é a formula magica para solução da crise. Uma vez superado os desafios, maior as possibilidades de encontrar caminhos para novas possibilidades de existir. Coletivo OuTro Preto

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