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Ódio à solta

Em tempos de golpe, quando uma presidenta legitimamente eleita é afastada do comando da nação sem nenhum tipo de prova que configure crime por parte dela, não deveria causar espanto tanta gente cheia de ódio e raiva solta pela rua.

Tudo vira motivo de ofensas e brigas: futebol, piadas e, claro, política. É preocupante ver o enorme número de pessoas que pensam ou avaliam a política como um todo com um olhar clubista, como de um membro de torcida organizada, como se o debate acerca do futuro do país fosse um clássico entre São Paulo e Palmeiras, ou Atlético e Cruzeiro para usarmos um exemplo mais mineiro.

O fato, triste inclusive, é que temos um país dividido, desde as eleições de 2014 para ser exato. Temos de um lado, de maneira geral, os que votaram e apoiaram os governos do campo popular liderados por Lula e Dilma e de outro que saíram derrotados com o tucano Aécio Neves.

Até aí tudo bem, normal em qualquer sistema democrático que haja  divergência, mas o fato deste campo ter colocado o país e sua população toda em risco por mero capricho pós derrota eleitoral é muito grave. Tão grave que estamos pagando a conta no nosso dia a dia.

Reformas que vêm para afastar ainda mais da Universidade Pública a parcela mais pobre da sociedade (como a Reforma do Ensino Médio) ou que dificultam a aposentadoria daqueles que mais trabalham (Reforma da Previdência) é o preço que todos estamos pagando pela irresponsabilidade dos que foram derrotados nas eleições e derrubaram a presidenta por não saber perder.

Entretanto, pior do que todas estas propostas absurdas do governo golpista de Temer é o ódio gratuito espalhado pelas ruas. Esta divisão do país em dois, juntamente com uma mídia  que, de maneira geral,  incentiva a desordem e a barbárie (basta ver os programas policiais espalhados pelos mais diversos canais) gerou uma massa de pessoas que odeiam o outro simplesmente por odiar.

Cor da pele, orientação sexual, religião ou até preferência política são motivos de brigas e confusões. A maior prova do crescimento do ódio gratuito é o alto número de pessoas que se declaram fãs do ex-torturador Jair Bolsonaro, deputado federal pelo Rio de Janeiro há 25 anos e que só teve (até o presente momento) um único projeto de lei aprovado na casa legislativa.

Além da ridícula atuação parlamentar e por propagar discursos racistas, machistas e homofóbicos, Bolsonaro é também conhecido por sua demagogia, pois apresenta um discurso (teoricamente) nacionalista, mas que na prática vota em pautas neoliberais que desoneram o Estado brasileiro e favorecem a iniciativa privada.

Mas, se este deputado é tão demagogo assim, por que ele apresenta uma legião cada vez maior de fãs? Simples: por nutrir o discurso de ódio, por propagar ofensas sem razão ou motivo aparente e, principalmente, por conseguir dialogar com a parcela da população descrente com a política.

O que muitos não percebem, é que desta revolta com toda a classe política, corremos o risco de criar um monstro tão perigoso quanto foi a famigerada ditadura militar. Em momentos de crise política, a falta de responsabilidade e bom senso de alguns (especialmente da classe média) costumam piorar a situação já ruim. Foi assim em 1964. Do discurso de ódio e medo de alguns (como Carlos Lacerda, por exemplo), surgiu o apoio ao golpe militar.

Já vimos este filme antes, será que queremos repetir o mesmo erro? É preciso muita clama e responsabilidade para identificarmos quem de fato é o inimigo, lobos em pele de cordeiro tem aos montes por aí.

Combater o discurso e as práticas de ódio é tarefa fundamental, ou os destruímos ou seremos destruídos. Todos e todas, sem exceção.

Pense nisso!

* Pedro Luiz Teixeira de Camargo (Peixe) é Biólogo e Professor, Especialista em Gestão Ambiental e Mestre em Sustentabilidade. Atualmente é Doutorando em Evolução Crustal e Recursos Naturais pela UFOP/MG.

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