Rima em Prosa #4: Em entrevista exclusiva, Rashid fala sobre o disco “Tão Real”, fãs e produção

Rima em Prosa #4: Em entrevista exclusiva, Rashid fala sobre o disco
Crédito da foto: Kléber Oliveira/Assessoria Rashid

Autor de mais de dez trabalhos, entre álbuns, mixtapes e EP’s, Rashid mostra seu lado mais humano, no projeto “Tão Real”. Mostrando os mais diversos momentos da vida do artista, que vão da glória à frustração, e unindo os conceitos de disco e série, o artista explora a fundo as possibilidades que um trabalho multimídia proporciona. A união do disco lançado em temporadas, com a websérie complementar no YouTube, faz desse trabalho um dos mais singulares da história do rap nacional. Um feito simples para um artista com carreira tão vasta, mas que mostra o quão a frente do seu tempo Rashid está.

Em entrevista exclusiva ao Mais Minas, o rapper conta ao repórter João Victor Pena sobre o processo de produção desse novo disco, o conceito por trás das temporadas de Tão Real e os dilemas de ser o seu próprio produto. Confira:

Projeto “Tão Real”

MM: Para essas duas temporadas de “Tão Real”, você trouxe um time bem diversificado de produtores. Nomes como Dogz, Skeeter e Nave compõem esse time. Como foi o processo de escolha e desenvolvimento das faixas?

R: O processo todo foi bem espontâneo. Caras como o Nave e o Skeeter (produtores) são meu parceiros de trabalho desde o início da minha carreira e eu confio muito no trabalho deles, então eles já estão envolvidos praticamente toda vez que penso em fazer um projeto novo. Com os Dogz já foi outra coisa. Rolou o lance de procurar algo diferente, um novo caminho musical dentro do que faço. Pensei em quem pudesse acrescentar em vários aspectos e os Dogz surgiram logo que pensei no quesito mais popular, já que eles têm essa característica de produção.

MM: As temporadas de “Tão Real” estão sendo lançadas em curto espaço de tempo, o que com certeza fez com que a produção tivesse que ser acelerada. Como tem sido a logística nesses lançamentos? 

R: A verdade é que por mais que estejamos lançando o projeto com essa roupagem de série, dividido em temporadas, eu criei o “Tão Real” como um disco de formato tradicional. Eu compus todas as músicas pensando num álbum que sairia em uma pancada só. Então já estava tudo pronto quando surgiu a ideia de dividir em três.

Mesmo assim, ainda é um desafio, porque estamos produzindo outros conteúdos nesse meio tempo. O site, os clipes, o podcast, a série, etc. Isso tem garantido muita correria por aqui entre um lançamento e outro.

Veja o primeiro episódio da websérie:

MM: O formato adotado para o lançamento de “Tão Real” tem agradado aos fãs e esse sucesso está se refletindo nos números, visto que as músicas tem feito sucesso, tanto no YouTube, quanto no Spotify. Algum artista, próximo ou não a você, chegou a conversar com você a respeito desse formato? 

R: Não cheguei a conversar com ninguém sobre, apenas com minha equipe.

Tenho mesmo recebido um feedback bem positivo da parte dos fãs e os números (nos serviços de streaming) têm ido muito bem também. O que é incrível pra gente, porque a ideia nasceu e fomos pra cima abraçando o risco de parte das pessoas nem entenderem esse conceito de lançamento, caso houvesse alguma confusão na divulgação.

O mérito desse tipo de ideia sempre deve ser creditado à Daniela Rodrigues, que é minha empresária e é muito estudiosa sobre o funcionamento dos players digitais. Então ela está sempre ligada nas tendências do mundo do streaming. O Luiz Café, engenheiro de som, responsável pela mixagem e masterização do projeto, também me incentivou muito a abraçar este conceito de série.

A partir das ideias desses dois, eu fui tendo umas ideias malucas e jogando pra equipe. Algumas deles foram aceitas, melhoradas. Outros conceitos vieram deles também e o resultado é esse aí que vocês podem ouvir.

MM: Um dos elementos que a música mais trabalha é a expectativa. Do artista em lançar aquele disco após tanto tempo de trabalho, do fã em ouvir em ouvir aquele feat tão sonhado dos músicos que ele tanto ama, do repórter em conseguir aquela entrevista exclusiva com esse mesmo artista. Ela atinge todo mundo que está ao entorno dela. Mas, como lidar com a expectativa quando o produto que se está vendendo é você mesmo?

R: Não é um trabalho fácil. A expectativa vem de todos os lados, inclusive de dentro de você. Então, você imagina o disco bombando, o single tocando em todos os lugares. Cinco minutos depois você imagina o disco não sendo sequer notado, o clipe não sendo assistido. O artista vive essa dualidade, principalmente quando vislumbra alguma janela no mercado onde possa se encaixar.

Mas a arte é um impulso que vai além disso tudo e esse impulso nos trouxe aqui. Então, no fim das contas, o(a) artista é só uma ferramenta da criatividade, um veículo da própria arte em si, que uns enxergam como missão e outros como um caminho, simplesmente. E é por isso que, por mais empreendedor que o artista seja, ele ainda precisa de um(a) produtor/empresário(a) confiável e responsável para ajudá-lo(a) a distinguir qual ideia é realmente quente, grandiosa, e qual ideia só é uma viagem megalomaníaca.

De qualquer forma, eu tento sempre praticar a expectativa zero. Tipo, meu trabalho é entregar um ótimo show, um excelente disco e, se possível, uma grande ideia pro marketing. A partir daí, eu não controlo mais nada.

Rima em Prosa #4: Em entrevista exclusiva, Rashid fala sobre o disco "Tão Real", fãs e produção
Crédito da foto: Kléber Oliveira/Assessoria Rashid

MM: Junto dos álbuns, você está lançando uma websérie que vem para servir de complemento para quem está escutando. Na minha visão, este é o ponto alto deste trabalho, pois capta perfeitamente o conceito de temporadas, já que a série usa da continuidade e de pequenos gatilhos para deixar o espectador ansioso para o próximo capítulo da história. Além de mostrar de fato algo muito real, indo da frustração do show do Lolla até o deleite em aproveitar o melhor da música ao estar em um dos melhores estúdios do Brasil e com milhares de beats a escolha. O que faz um herói, um ídolo querer se mostrar seus momentos mais reais para o público?

R: Primeiramente, obrigado por captar a ideia tão bem. A série visual tem a intenção de traduzir essa ideia da “realidade” que o álbum promete entregar. Essa coisa “à flor da pele”. Não tem essa de herói. Acho que a arte é mais poderosa justamente quando ela é vulnerável, humanizada. Quando o ídolo fica ombro a ombro com seus fãs. A música se torna a companheira do(a) ouvinte e o artista vira amigo, vira parça.

Processo de produção

MM: Após o lançamento do remix de Luccas Carlos da faixa “Bilhete”, você o convidou para gravar “Bilhete 2.0”, música que se tornou um hit. Agora, na primeira temporada de “Tão Real”, vocês voltam a fazer parceria, gravando juntos a faixa “Não Pode”. Como é a sua relação com o Luccas? Mais pra frente, existe a possibilidade de vermos um álbum colaborativo dos dois? 

R: Luccas é um artista gigante, um cara que tá pronto, na minha opinião. Nunca falamos tão a fundo de fazer alguma parceria maior. Não dá pra dizer que não existe a possibilidade porque os caminhos à frente podem ir pra qualquer direção, mas no momento, acho difícil. Nossa parceria é espontânea mesmo. A gente se tromba nos eventos e festivais, às vezes nos falamos por mensagem. É um cara sangue bom pra caramba.

MM: Recentemente, em um storie do Instagram, você comentou sobre o fato de não ter lançado nenhum single deste atual projeto e o fato disso ser uma decisão arriscada. Como funciona o processo de escolha de um single? Como é decidido qual música irá ser lançada para embalar um novo trabalho?

R: Pelo menos aqui pra gente, é sempre uma escolha delicada, a não ser que tenha alguma música que se destaque demais ao lado das outras. Essa decisão acaba dependendo também das pretensões do álbum. Um single mais pop, um single mais pesado, romântico, etc.

Já escolhi o single errado e depois a audiência me mostrou organicamente qual música deveria ter sido escolhida. Acontece também.

Rashid
Crédito da foto: Kléber Oliveira/Assessoria Rashid

Relação com os fãs

MM: Nessa mesma sequência de stories, você comenta a respeito da relação com os fãs e a aproximação que tem tentado trazer junto deste novo álbum. Algo que pode ser visto através de repostagens das marcações que os fãs fazem nas redes, respostas em comentários e também na websérie que acompanha o disco. No que a relação com os fãs mais te influencia? 

R: Dia após dia, eu recebo textos incríveis de fãs falando sobre como minha música ajudou em algum momento. Isso é muito inspirador. Entro nas minhas redes e vejo os(as) fãs divulgando, compartilhando, pedindo minha música nas rádios, pedindo meu show nas casas de shows, etc. Não tem como não se importar com isso. Eu sempre fico feliz e lisonjeado em saber que minha arte mexe tanto assim com essas pessoas. São os fãs que lotam os shows, que compram meu livro, que sobem hashtags, que consumem meus produtos da loja e tudo mais. Os fãs são tão essenciais para a carreira do Rashid quanto o próprio Rashid.

MM: Você acha que um artista tem o direito de querer ter uma relação mais afastada ou ele deve sempre tentar ser o mais próximo possível do público?

R: Cada um tem sua própria consciência, sua própria agenda e suas próprias condições. A partir daí a pessoa decide como quer se portar diante dos fãs. Não penso que alguém é obrigado a fazer determinada coisa. Para o Rashid, especificamente, a relação fã x artista é uma relação de respeito e consideração. Eles me transmitem essa boa energia o tempo todo e eu tento retribuir, fazendo bem o meu trabalho e dando a devida atenção sempre que possível.

MM: Com uma carreira já estabelecida e com boas condições financeiras, é natural que hoje você tenha mais liberdade para aumentar ou diminuir o ritmo de produção e de shows. Mesmo com uma maior liberdade, o que o Rashid ainda tem que sacrificar por conta da carreira e rotina?

R: Estabilidade não existe em nenhum mercado. Você está sempre sujeito às mudanças. Então, a correria não para nunca. Cada um conhece seu próprio ritmo e pode decidir o que pode sacrificar, acelerando ou freando sua carreira. No momento, eu ainda tenho muita fome. Sinto que tenho muita coisa pra fazer na música, na minha vida e na vida das pessoas que estão ao meu redor. Sem essa de pisar no freio por enquanto.

MM: No mês de novembro, a histórica faixa “Primeira Diss” completará três anos. Lançada em um período marcado por várias polêmicas e brigas na cena, ela se destacou por trazer, além de uma crítica, uma auto-reflexão, dentro da estética de uma diss para si mesmo. Passados esses anos, como você vê essa faixa e seu impacto?

R: Essa faixa foi muito importante para aquele momento e para minha carreira naquele período. Ela acabou levando minhas rimas para uma rapaziada que até então me conhecia mas não achava que encontraria no meu trabalho o tipo de Rap que eles gostam. “Primeira Diss” era esse tipo de música. E, no geral, a mensagem dela é relevante. A coisa de olhar pra si de uma forma não-narcísica. Ouça:

Quando fiz essa música, quis lançá-la o mais rápido possível porque achava que a qualquer momento alguém poderia ter a mesma ideia e lançar primeiro. E eu não queria perder uma música daquelas. (rs)

Sucesso de público e crítica, o projeto “Tão Real” vem chegando ao fim. Prevista para novembro, a terceira e última parte do disco virá acompanhada de mais dois episódios da websérie, além de outros materiais complementares, como site e podcast. Assim, como nos volumes anteriores, novos clipes também serão lançados. “Sobrou Silêncio”, último videoclipe de Rashid, que conta com participação da cantora Duda Beat, já está com mais de 500 mil visualizações no YouTube. Veja:

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