O Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) Campus Ouro Preto realizou, na tarde desta quinta-feira, 5 de março, um ato histórico e politicamente contundente: a primeira diplomação póstuma de um estudante secundarista no Brasil. A cerimônia conferiu o título de Técnico em Mineração a Hélcio Pereira Fortes, ex-aluno da então Escola Técnica Federal de Ouro Preto, perseguido e morto pelo regime militar em 1972. O evento, realizado no auditório do campus, foi marcado por uma forte mobilização estudantil e pela presença de lideranças políticas e de direitos humanos.

A solenidade, não somente restringida aos protocolos institucionais, foi tomada por centenas de jovens que transformaram o ambiente em um espaço de resistência ativa. Entoando palavras de ordem como “A minha escola não vai virar quartel” e “Aqui está presente o movimento estudantil”, os alunos conectaram a memória de Hélcio às pautas contemporâneas, como a oposição aos projetos de militarização de escolas estaduais. O movimento, organizado pelo Grêmio Livre Estudantil e pela União Colegial de Minas Gerais (UCMG), reafirmou o papel do IFMG como um reduto de pensamento crítico e luta democrática.
Antes das falas oficiais, um grupo de estudantes leu um manifesto em honra a Hélcio Fortes. O documento extrapolou a biografia do homenageado para pautar valores progressistas, defendendo uma educação emancipatória e o combate sistemático ao racismo, ao machismo e à LGBTQIAPN+fobia. Durante as falas, a memória de Edson Luís de Lima Souto, outro estudante assassinado pela PM no Rio de Janeiro em 1968, foi evocada diversas vezes, servindo de paralelo histórico para ilustrar a violência sistemática sofrida pela juventude secundarista durante os anos de repressão ditadorial.
Testemunho e reparação
A mesa de honra contou com diversas autoridades, dentre elas representantes estaduais e federais, como o prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, a vice-reitora da UFOP, Roberta Fróes, a ex-deputada pelo PCdoB, Jô Moraes e o poeta e político Pedro Tierra (Hamilton Pereira da Silva), militante histórico da resistência à ditadura, que hoje atua no Ministério dos Direitos Humanos.
O ponto alto de emoção e peso documental foi a participação de Délcio Fortes, irmão de Hélcio e também ex-aluno e ex-professor da instituição. Délcio entregou à comunidade o resgate da trajetória do irmão, desde a organização de células políticas em Ouro Preto até a atuação na resistência armada ao lado de Carlos Marighella. Ele descreveu o impacto devastador da perseguição na saúde da família e o momento traumático em que souberam da morte de Hélcio pela televisão.
(…) Em meados de 69, perseguido e bastante queimado em Belo Horizonte, Helcio parte para o Rio, já filiado à ALN de Marighella. Minha mãe já rezava para que ele não fosse pego. Quando, na noite de 28 de janeiro de 1972, ouvimos, pela TV Itacolomi, a notícia de sua morte (…) Na realidade, Helcio foi preso, possivelmente no Rio, no dia 22 de janeiro, e depois foi levado para o DOI-CODI São Paulo. Toda essa trajetória teve repercussões negativas na saúde física e mental de toda a nossa família. Emocionou, Délcio Fortes.
O significado do ato
Para a direção do IFMG e para os movimentos sociais presentes, diplomar Hélcio Pereira Fortes após 54 anos de sua morte possui um simbolismo prático: o reconhecimento de que a violência estatal não foi capaz de apagar a trajetória intelectual e política de seus alunos. Embora a diplomação tenha caráter simbólico, ela representa uma vitória jurídica e institucional para o movimento estudantil brasileiro, estabelecendo um precedente para outras instituições de ensino técnico e médio no país.
Confira fotos da solenidade:










































