A água com coloração amarronzada voltou a ser motivo de reclamação em Amarantina, distrito de Ouro Preto. Novos vídeos compartilhados em grupos de WhatsApp e encaminhados à imprensa mostram moradores abrindo torneiras e encontrando água com aparência turva, reacendendo uma discussão que já havia chegado à Câmara Municipal.

O problema ocorre em meio a outro questionamento envolvendo a Saneouro. A concessionária ainda não realizou a primeira prestação de contas trimestral prevista pela Lei Municipal nº 1.629, sancionada em abril deste ano.
A norma determina que a empresa responsável pelos serviços de água e esgoto de Ouro Preto compareça ao Legislativo a cada três meses para apresentar informações sobre sua atuação. A primeira apresentação deveria ter ocorrido até julho.
A cobrança ganhou força nos últimos dias após manifestação do vereador Kuruzu (PT), autor do projeto que deu origem à lei. Segundo ele, diante do não cumprimento do primeiro prazo, a concessionária foi chamada a comparecer à Câmara no dia 26 de agosto, às 18h.
Caso a Saneouro não compareça, o vereador afirmou que pretende apresentar um requerimento para criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar a execução do contrato de saneamento no município.
Água continua sendo cobrada pelo consumo
As novas imagens de Amarantina chamam atenção também pelo modelo de cobrança adotado em Ouro Preto. Os imóveis atendidos pela concessionária permanecem hidrometrados e o valor da conta varia conforme o volume de água registrado no hidrômetro.
Desde 2024, entretanto, uma parcela da tarifa é subsidiada com dinheiro público. Em 2025, a Prefeitura assumiu 53% do valor da conta, segundo informação divulgada pelo próprio município.
A medida foi adotada depois que a Agência Reguladora Intermunicipal de Saneamento Básico de Minas Gerais (Arisb) homologou reajuste tarifário de 10%. Para evitar que a alta chegasse integralmente ao consumidor, a Prefeitura ampliou o subsídio, que havia sido de 43% em 2024.
Isso não torna o fornecimento gratuito. Uma parte da tarifa é paga pelo consumidor, de acordo com o consumo medido, enquanto outra parcela é custeada pelo município com recursos públicos.
E o peso desse subsídio nas contas de Ouro Preto já é significativo.
Levantamento feito pelo Mais Minas no Portal da Transparência mostrou que a Prefeitura destinou R$ 13.080.702,65 à Saneouro somente em 2025. Com esse valor, a concessionária apareceu como a 11ª maior despesa da administração municipal naquele ano.
Em 2026, os dados levantados anteriormente pela reportagem mostram R$ 13,7 milhões previstos, dos quais cerca de R$ 3,8 milhões já haviam sido pagos.
Vereador cobra fiscalização e ameaça pedir CPI
Ao cobrar o cumprimento da Lei nº 1.629, Kuruzu também voltou suas críticas para a fiscalização feita pelo município.
Em vídeo publicado nas redes sociais, o vereador afirmou que a Saneouro estaria “acima da lei” ao não comparecer para a prestação de contas e questionou a atuação da estrutura municipal responsável pelo acompanhamento dos serviços de água e esgoto.
“Já que a Prefeitura não fiscaliza, a Câmara vai fazer a parte dela a partir desta lei, porque agora nós podemos fiscalizar a Saneouro”, afirmou.
Kuruzu citou justamente Amarantina e Cachoeira do Campo ao falar dos problemas enfrentados pelos moradores dos distritos.
A nova convocação para 26 de agosto deverá ser aberta à participação popular. Se a concessionária novamente não comparecer, o parlamentar afirmou que apresentará no dia seguinte um requerimento propondo a abertura da CPI.
A criação da comissão, porém, não depende apenas da decisão do vereador. Um eventual pedido terá de seguir os procedimentos previstos no Legislativo.
Subsídio colocou Saneouro entre maiores despesas de Ouro Preto
Os R$ 13,08 milhões destinados à concessionária em 2025 fizeram com que a Saneouro ficasse próxima de alguns dos maiores fornecedores e prestadores de serviços pagos pelo município.
Naquele ano, a folha de pagamento liderou as despesas, com aproximadamente R$ 270,7 milhões. Na sequência apareceram gastos como os destinados à Santa Casa de Misericórdia de Ouro Preto, cooperativas, empresas responsáveis por benefícios de servidores, obras e serviços públicos.
A Saneouro ocupou a 11ª posição no levantamento realizado pelo Mais Minas.
A existência do subsídio, portanto, criou uma situação em que o serviço é financiado por duas frentes: pelo consumidor, que continua recebendo uma conta baseada no consumo registrado pelo hidrômetro, e pelo orçamento municipal, que assume parte da tarifa.
Agora, com novos registros de água amarronzada circulando em Amarantina, a qualidade do serviço volta ao centro da discussão justamente quando aumenta a cobrança por informações sobre a execução do contrato.
O que diz a Saneouro
Procurada pelo Mais Minas, a Saneouro informou que tomou conhecimento, no domingo (16), de um episódio de alteração na cor da água distribuída a alguns imóveis de Amarantina.
Segundo a concessionária, os parâmetros da água produzida na Estação de Tratamento estão normais e atendem aos limites estabelecidos pela Portaria nº 888 do Ministério da Saúde, que define regras para o controle e a qualidade da água destinada ao consumo humano.
A empresa informou ainda que equipes de manutenção de redes foram enviadas ao distrito para tentar identificar a origem do problema e fazer eventuais correções.
“As equipes de Manutenção de Redes estão no distrito para identificar a situação e corrigir desvios que possam estar acontecendo”, informou a Saneouro.










