A filosofia começa onde o conforto termina. Não porque ela deseje o sofrimento, mas porque a verdade exige que se abandone a familiaridade das opiniões recebidas. Uma das opiniões mais familiares, e mais acalentadas, é a que identifica a vontade com o desejo, como se o querer fosse apenas o apetite mais intenso, a inclinação mais bem-sucedida em se impor. Essa identificação é tão difundida que atravessa a psicologia popular, a retórica do empreendedorismo e até certas formas de espiritualidade. Ela promete uma inteligibilidade imediata: agimos sempre por desejo, a vontade é apenas o desejo que venceu. O que distingue…
Autor: Samuel Eduardo Fortes
No ventre de concreto e aço, a rodoviária se revela: um portal para o labirinto do asfalto, onde o tempo se congela. Cacofonia de vozes, almas em trânsito, anseios e despedidas. Um microcosmo humano onde a vida pulsa em batidas. Sob o teto, a luz projeta sombras inquietantes. Viajantes e fardos, histórias errantes. O cheiro de café e saudade no ar. A melodia melancólica de um violão a ecoar. Nos painéis, destinos se anunciam. Cidades distantes, sonhos que se adiam. Embarques e desembarques, abraços apertados, lágrimas contidas, sorrisos forçados. Nos rostos, a marca da jornada: a esperança de um novo…
Escrevo sabendo que também sou cúmplice do assassinato. Aqui, as palavras surgem empurradas por sugestões que não nasceram de mim, completadas por um corretor que me poupa o erro e, com ele, me rouba o desvio, a hesitação, a descoberta. Escrevo com a sensação de que a língua está sendo progressivamente pasteurizada, encurtada, reduzida a um fluxo previsível que o algoritmo valida antes mesmo que o pensamento se forme por inteiro. A tecnologia, que prometia expandir a expressão, talvez esteja nos fazendo escrever todos iguais, mais corretos e menos vivos. E, no entanto, é com ela que insisto em me…



