No ventre de concreto e aço, a rodoviária se revela: um portal para o labirinto do asfalto, onde o tempo se congela. Cacofonia de vozes, almas em trânsito, anseios e despedidas. Um microcosmo humano onde a vida pulsa em batidas.
Sob o teto, a luz projeta sombras inquietantes. Viajantes e fardos, histórias errantes. O cheiro de café e saudade no ar. A melodia melancólica de um violão a ecoar.
Nos painéis, destinos se anunciam. Cidades distantes, sonhos que se adiam. Embarques e desembarques, abraços apertados, lágrimas contidas, sorrisos forçados.
Nos rostos, a marca da jornada: a esperança de um novo amanhã, o homem desnortado. Corpos cansados, mentes em devaneio. Na rodoviária, a vida se revela em seu roteiro.
Ônibus serpenteiam como feras famintas, devorando quilômetros, cruzando estradas infindas. No horizonte, o sol se põe. E a rodoviária se ilumina, um farol que nunca se extingue.
Alguém acende um cigarro no banco ao lado. A fumaça sobe lenta, desfazendo o silêncio. O café do copo descartável é mais aguado que a lembrança, mas esquenta as mãos. Lá fora, o diesel queima em fumaça grossa, e o cheiro invade o saguão, ácido, pesado, mas passageiro. Não é incômodo. É só o ar que se respira aqui. Um homem amarra o cadarço do tênis com pressa de quem perdeu o horário. Uma criança espirra. O choro abafado de um bebê vem de algum lugar entre as plataformas. Nada disso está nos painéis. Nada disso tem destino anunciado. É só a vida respirando no concreto.
Um senhor saboreia um cigarro com a mão direita apoiada na parede. E por ali descubro que é destro. Porque quem fuma só se apoia com a mão que escreve. E a realidade plausível não aparece. Na espera da libertação de todos os pensamentos, real, irreal e natural. Acompanho o fumo como se descansasse, a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
A silhueta feminina se apronta. Ela se alonga na ponta dos pés para beijar o amor que vem de algum lugar. Se é que o amor vem. Porque o amor, penso agora, não chega. Ele já estava ali, esperando alguém que crescesse na ponta dos pés. O beijo é só a confirmação. Ela desce. O chão está duro, como sempre esteve. Mas por um instante, ela flutuou. A conexão da reciprocidade do reconhecimento de duas liberdades para se encontrar a si mesmo.
À moça da lanchonete. Ela anota o pedido de um cliente com a mão direita, a caneta firme, o caderno apoiado no balcão. Depois passa um pano no balcão com a mesma mão, rápida, precisa. A esquerda apenas acompanha, frouxa, segurando o bloco ou descansando ao lado. É destra. A mão que escreve é a mesma que comanda o gesto, que limpa, que trabalha. Quem é canhoto teria outro jeito, outro ritmo. Ela não. Ela tem a mão certa no comando.
Ela me acena. É tímida e percebeu que eu a observo enquanto acredita que anoto os versos no papel. O gesto é pequeno, quase um susto, mas é o suficiente, sendo sincera como não se pode ser. O calor humano não se dissipa aqui. A rodoviária, apesar de tudo, é receptiva. Ela acolhe o que chega sem bagagem, o que espera sem saber o quê, o que acena sem ter certeza de que o aceno será visto. E eu aceno de volta. Não é poesia. É vizinhança.
Em cada plataforma, um drama. Em cada rosto, uma epifania. A rodoviária é o palco da existência, onde a vida se mostra em sua essência.
E o peregrino contempla este cenário, eternizando em versos este itinerário.







