A desistência do senador Cleitinho da disputa pelo Governo de Minas Gerais, anunciada nesta semana, reorganiza completamente o cenário sucessório do estado. O que já era uma eleição cercada de incertezas torna-se ainda mais aberta, sem um nome que concentrava parte significativa das expectativas eleitorais. Mais do que especular quem ocupará esse espaço, talvez seja o momento de fazer a pergunta mais importante: afinal, qual projeto de Minas Gerais estará em disputa nas urnas? Essa deveria ser a verdadeira preocupação dos mineiros.

Infelizmente, nos últimos anos, o debate político estadual foi progressivamente reduzido à discussão sobre equilíbrio fiscal, privatizações e cortes de despesas. Embora responsabilidade nas contas públicas seja importante, nenhum estado se desenvolve apenas administrando planilhas. Governar exige capacidade de planejar o futuro, coordenar investimentos, estimular inovação, fortalecer cadeias produtivas e construir oportunidades para quem vive e trabalha.
Minas possui uma das economias mais diversificadas do país, universidades públicas reconhecidas internacionalmente, institutos federais distribuídos por todas as regiões, tradição industrial, enorme riqueza mineral, forte produção agropecuária e um patrimônio histórico e cultural singular. Poucos estados brasileiros reúnem tantos ativos estratégicos. O verdadeiro desafio não é descobrir vocações econômicas, mas transformá-las em desenvolvimento sustentável, geração de riqueza e melhoria da qualidade de vida da população.
Durante décadas, fomos conhecidos como a locomotiva do Brasil. Não era apenas uma expressão simbólica. O estado desempenhava papel central na industrialização nacional, na produção siderúrgica, na mineração, na pesquisa científica e na formação de mão de obra qualificada. Essa capacidade de liderar o desenvolvimento brasileiro foi sendo enfraquecida por escolhas econômicas que privilegiaram a exportação de produtos primários, reduziram a capacidade de investimento público e diminuíram a participação da indústria na economia estadual.
É justamente por isso que a próxima eleição não deveria ser decidida apenas pela popularidade dos candidatos ou pela força das redes sociais. É preciso discutir qual modelo de desenvolvimento se deseja construir para as próximas décadas. Continuaremos dependentes da exportação de commodities, sujeitando-nos às oscilações do mercado internacional, ou construiremos uma economia baseada em ciência, tecnologia, agregação de valor e inovação?
A mineração, por exemplo, continuará sendo um dos pilares econômicos mineiros. Mas ela não pode permanecer como um fim em si mesma. O minério aqui extraído deve gerar empregos qualificados, pesquisa tecnológica, transformação industrial e arrecadação capaz de financiar educação, saúde, infraestrutura e políticas públicas. Exportar riqueza sem desenvolver o território é perpetuar um modelo que pouco contribui para reduzir desigualdades regionais, ou seja, é preciso mudar o atual modelo minerário vigente!
Um projeto soberano para Minas Gerais também passa necessariamente pela valorização da educação pública, das universidades, dos institutos federais e dos centros de pesquisa. Nenhum estado alcançou elevado nível de desenvolvimento sem investir fortemente na formação de pessoas e na produção de conhecimento. A economia do século XXI exige inteligência, inovação e capacidade tecnológica muito mais do que simples disponibilidade de recursos naturais.
Ao mesmo tempo, desenvolvimento não pode ser confundido apenas com crescimento econômico. É preciso construir políticas públicas que promovam inclusão social, reduzam desigualdades, fortaleçam a agricultura familiar, ampliem o acesso à cultura, melhorem a mobilidade urbana e interiorizem oportunidades. Um estado só se desenvolve plenamente quando sua riqueza alcança a população e melhora concretamente as condições de vida de quem a produz diariamente.
A indefinição eleitoral aberta pela reorganização da disputa ao Palácio Tiradentes pode ser vista como um problema ou como uma oportunidade. Problema, se a campanha permanecer restrita à disputa de personalidades e slogans. Oportunidade, se finalmente houver espaço para discutir planejamento de longo prazo, reindustrialização, diversificação econômica, infraestrutura logística, sustentabilidade ambiental e fortalecimento da ciência e da tecnologia como motores do desenvolvimento.
Minas Gerais precisa voltar a pensar grande. Precisa recuperar sua capacidade histórica de liderar, inovar e contribuir para o desenvolvimento nacional. O próximo governador será importante, mas mais importante ainda será o projeto que conduzirá o estado pelos próximos anos. Minas não pode limitar suas ambições à administração da escassez. Tem todas as condições para voltar a ser a locomotiva econômica, científica e industrial do Brasil, desde que coloque no centro de sua agenda um desenvolvimento soberano, inclusivo e comprometido com o futuro de seu povo.










