Minas Gerais construiu parte significativa de sua história econômica sobre a mineração. Desde o período colonial, a extração de recursos naturais moldou cidades, territórios, fluxos populacionais e estruturas produtivas. Entretanto, o século XXI vem demonstrando, de forma cada vez mais evidente, os limites desse modelo baseado na exportação de commodities minerais. A dependência excessiva da mineração gera vulnerabilidade econômica, concentração de renda, fragilidade fiscal e dificuldades estruturais para a construção de um desenvolvimento duradouro.
O problema não está na mineração em si. O grande desafio surge quando ela se transforma praticamente na única base econômica de determinados municípios. Quando isso acontece, as cidades ficam reféns das oscilações do mercado internacional, dos preços e das decisões das grandes corporações mineradoras, muitas vezes tomadas longe dos territórios onde os impactos efetivamente acontecem.
Regiões excessivamente dependentes da mineração enfrentam dificuldades para construir trajetórias sustentáveis de desenvolvimento no longo prazo. Durante períodos de alta dos preços internacionais dos minérios, há aumento de arrecadação e expansão econômica. Porém, quando os ciclos de crescimento terminam, permanecem os problemas sociais, ambientais e estruturais, além da redução das receitas públicas.
É justamente nesse contexto que os investimentos em ciência, tecnologia e inovação ganham importância estratégica. Não existe processo consistente de diversificação econômica sem produção de conhecimento. Os países e regiões que conseguiram superar a dependência de atividades primárias investiram fortemente em pesquisa, formação de recursos humanos qualificados e desenvolvimento tecnológico. A inovação deixou de ser um diferencial para se tornar uma condição básica de competitividade econômica.
Os parques tecnológicos surgem como instrumentos fundamentais nesse processo. Eles funcionam como ambientes de integração entre universidades, centros de pesquisa, empresas e governos, estimulando a criação de novos negócios, a transferência de tecnologia e a geração de empregos qualificados. Em Minas Gerais, experiências como o tecnoPARQ, em Viçosa, o BH-TEC, em Belo Horizonte, e os parques tecnológicos de Itajubá e Lavras demonstram o potencial transformador desses ecossistemas de inovação.
O caso do tecnoPARQ é particularmente ilustrativo. A iniciativa conseguiu conectar a produção científica da Universidade Federal de Viçosa (UFV) ao setor produtivo, apoiando centenas de empresas, gerando milhares de empregos e movimentando recursos significativos na economia regional. Trata-se de um exemplo concreto de como o conhecimento pode se transformar em riqueza, desenvolvimento local e oportunidades para a população.
Os municípios mineradores de Minas Gerais possuem condições privilegiadas para construir projetos semelhantes. Muitos contam com arrecadação expressiva oriunda da CFEM, possuem instituições de ensino superior próximas, infraestrutura consolidada e tradição industrial. O problema é que boa parte desses recursos continua sendo utilizada para custeio imediato ou obras pontuais, sem a construção de estratégias estruturantes capazes de preparar essas cidades para o futuro pós-mineração.
É preciso compreender que a riqueza mineral é finita. Mais cedo ou mais tarde, as jazidas se esgotam ou perdem competitividade econômica. O conhecimento, ao contrário, é um recurso renovável e cumulativo. Quanto maior a capacidade científica de uma região, maiores são suas possibilidades de criar novas atividades econômicas, atrair investimentos e desenvolver tecnologias próprias. É exatamente por isso que ciência não deve ser tratada como gasto, mas como investimento estratégico de longo prazo.
Nesse sentido, parte dos recursos provenientes da mineração deveria ser direcionada obrigatoriamente para fundos permanentes de ciência, tecnologia e inovação. Esses recursos poderiam financiar parques tecnológicos, incubadoras de empresas, laboratórios, centros de pesquisa aplicada e programas de formação profissional avançada. Seria uma forma de transformar uma riqueza temporária em capacidade permanente de desenvolvimento econômico.
Minas Gerais possui universidades de excelência, centros de pesquisa reconhecidos nacionalmente e tradição científica consolidada. O que falta é transformar esse potencial em política pública permanente. Se os municípios mineradores desejam construir um futuro menos dependente das commodities e mais baseado em conhecimento, precisam começar agora a investir em inovação. A verdadeira riqueza do século XXI não está apenas no minério que sai do solo. Está, sobretudo, na inteligência, na ciência e na capacidade de produzir tecnologia dentro do próprio território.







