A história de um país não é feita apenas de datas oficiais, tratados ou grandes decisões de governo. Ela também é construída pelas vidas interrompidas, pelos sonhos violentamente silenciados e pelas trajetórias que foram impedidas de florescer. No Brasil, recordar as vítimas da Ditadura Militar Brasileira é um dever ético, político e humano. Não se trata de revisitar o passado por nostalgia ou ressentimento, mas de preservar a memória coletiva para que as gerações atuais e futuras compreendam o preço que se paga quando a democracia é substituída pela força.
Na última quinta-feira dia 05 de março de 2026, Ouro Preto viveu um desses momentos de profunda reflexão histórica. Em uma cerimônia marcada pela emoção, saudade e respeito, foi concedido diploma póstumo a Hélcio Pereira Fortes, ex-aluno da antiga Escola Técnica Federal de Ouro Preto (ETFOP), hoje campus do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG). O gesto, ainda que simbólico, carrega um significado poderoso: reconhecer que a violência dos anos de chumbo interrompeu a vida de um estudante que tinha diante de si um futuro que lhe foi brutalmente negado.
Cerimônias como essa não são apenas atos formais de reparação. Elas são momentos de reencontro da sociedade com a própria história. Ao diplomar postumamente um estudante assassinado pela repressão política, reafirma-se que a educação, o pensamento crítico e a liberdade de expressão jamais deveriam ter sido tratados como ameaças pelo Estado. Pelo contrário, são justamente esses elementos que sustentam qualquer projeto democrático digno desse nome.
A presença de dezenas de estudantes da cidade e de outras regiões do estado reforçou o caráter coletivo desse ato de memória. Jovens que não viveram aquele período nefasto estiveram ali para ouvir, aprender e refletir sobre um período em que estudantes eram perseguidos, presos, torturados e mortos por ousarem sonhar com um país mais justo. Essa participação mostra que a memória não pertence apenas ao passado — ela precisa ser permanentemente atualizada pelas novas gerações.
Durante muito tempo, setores da sociedade tentaram minimizar ou relativizar a violência cometida pelos militares. Narrativas simplificadoras, que procuram transformar uma ditadura em mera “intervenção necessária”, ignoram deliberadamente a dimensão humana da repressão. Cada vítima tinha nome, família, amigos, projetos e esperanças. Eram amores de alguém! Lembrarmo-nos disso é fundamental para desmontar qualquer tentativa de normalizar a barbárie.
O caso de Hélcio Pereira Fortes simboliza justamente essa dimensão humana da história. Ele não foi apenas um número em relatórios ou estatísticas da repressão política. Foi um estudante, um jovem que frequentou salas de aula, que construiu amizades e que acreditava em um futuro possível. O diploma entregue décadas depois não devolve a vida perdida, mas reafirma que sua memória não foi apagada.
Instituições de ensino têm um papel decisivo nesse processo de preservação da memória histórica. Escolas, universidades e institutos federais não são apenas espaços de formação técnica ou profissional. São também lugares de construção de cidadania, onde se aprende a interpretar criticamente a realidade e a compreender os processos históricos que moldam a sociedade. Ao reconhecer formalmente a trajetória de um estudante vítima da ditadura, a comunidade acadêmica cumpre uma função pedagógica essencial.
Mais do que um gesto local, iniciativas como essa precisam se multiplicar pelo país. Há inúmeras histórias semelhantes espalhadas por outras escolas brasileiras, histórias de jovens que tiveram suas vidas interrompidas pela violência política. Resgatar esses nomes, reconhecer suas trajetórias e reparar simbolicamente essas perdas é um passo importante para consolidar uma cultura democrática baseada na memória e na justiça.
Num momento em que discursos autoritários voltam a circular com certa naturalidade no debate público, recordar o passado torna-se ainda mais urgente. A memória histórica funciona como uma espécie de vacina coletiva contra o autoritarismo. Ela nos lembra, com clareza dolorosa, que regimes que desprezam a democracia inevitavelmente produzem perseguição, violência e morte.
Por isso, a cerimônia realizada no IFMG de Ouro Preto não deve ser vista apenas como uma homenagem isolada. Ela é um chamado à sociedade brasileira. Precisamos nos solidarizar com iniciativas semelhantes, apoiar ações de memória e reconhecer as vítimas da repressão política. Porque um país que esquece sua história corre o risco de repeti-la. E a lembrança daqueles que tombaram lutando por liberdade é, acima de tudo, um compromisso com o futuro.
Hélcio Pereira Forte presente! Agora e sempre!







