Assistir a Café com Canela, dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa, significa aceitar um convite pouco comum no audiovisual contemporâneo. O filme se desenvolve em um ritmo lento, permitindo que os acontecimentos e as relações entre os personagens amadureçam diante do espectador. Em vez de recorrer a acontecimentos espetaculares ou a constantes mudanças narrativas, a obra encontra sua força nos encontros cotidianos, nos silêncios e nos gestos aparentemente simples que estruturam a vida em comunidade.
A história acompanha Margarida, uma mulher que se afasta do convívio social após a perda de seu filho. Isolada em casa e profundamente marcada pelo luto, ela passa a viver distante das relações que antes davam sentido ao seu cotidiano. Até que uma primeira visita de Violeta, ex-aluna de Margarida na infância, inaugura um processo gradual de reaproximação com a comunidade e com a própria vida. A partir desse encontro, o filme constrói uma narrativa sobre cuidado, amizade e reconstrução, acompanhando personagens que encontram nos vínculos afetivos formas de enfrentar suas dores e comemorar as alegrias.
Ao acompanhar personagens negros em suas rotinas, afetos, dores e processos de reconstrução, o filme desloca o olhar para experiências que raramente ocupam o centro das narrativas brasileiras. Durante décadas, grande parte da produção audiovisual nacional apresentou personagens negros associados a contextos específicos, sobretudo ligados à criminalidade, à pobreza urbana ou aos conflitos sociais, cuja repetição acabou limitando a diversidade de experiências negras presentes nas telas.
Café com Canela amplia esse repertório ao construir uma narrativa interessada no afeto, na amizade, na solidariedade, no luto e no cuidado coletivo. Seus personagens não aparecem como símbolos ou representantes de uma condição social. São indivíduos atravessados por sentimentos, contradições e desejos. Nesse sentido, o filme contribui para uma representação mais ampla da população negra no cinema brasileiro e reforça a importância de produções realizadas a partir de perspectivas historicamente pouco valorizadas pela indústria audiovisual. Como observa Souza (2020), o afeto constitui um dos elementos centrais da narrativa, funcionando como uma forma de construção das relações entre os personagens e da própria experiência comunitária retratada pelo filme.

Essa ampliação da representação negra atravessa toda a construção do filme. O ritmo dos atabaques, a escolha das músicas, a presença da voz de Mateus Aleluia, os enquadramentos, os silêncios e a própria cadência da narrativa revelam um olhar atento a referências culturais que raramente ocupam posição central no audiovisual brasileiro. Esse olhar cuidadoso também aparece nas flores, na canela que dá nome ao filme, nos gestos cotidianos dos personagens e em referências ligadas às matrizes afro-brasileiras. Muitos desses elementos podem passar despercebidos em um primeiro contato, sobretudo para espectadores acostumados a reconhecer a presença negra no cinema apenas por meio de temas ou personagens, e não de forma cultural. Em Café com Canela, essa presença também se constrói pela atmosfera, pela sensibilidade e pelos significados espalhados ao longo da narrativa.
Outra característica marcante do filme é a maneira como a palavra circula entre os personagens. Muitas vezes, os diálogos não existem para revelar informações decisivas para a trama ou preparar acontecimentos futuros. As conversas surgem porque conversar faz parte da experiência daqueles indivíduos e da comunidade em que vivem. Fala-se sobre acontecimentos cotidianos, lembranças, preocupações e pequenos episódios da vida comum. A narrativa encontra valor justamente nesses momentos que poderiam parecer banais em outras produções.
Chama atenção também o tom dessas interações. Os personagens conversam sem que o conflito seja constantemente traduzido em gritos, confrontos ou agressividade. O filme demonstra interesse por outras formas de relação, construídas pela escuta, pela convivência e pela troca de experiências. Ao dedicar tempo a esses diálogos, Café com Canela produz uma sensação de intimidade e aproxima o espectador da realidade vivida por seus personagens.
A aposta em uma narrativa contemplativa, entretanto, pode causar estranhamento. Caso o espectador seja acostumado a filmes que organizam seus conflitos em torno de acontecimentos dramáticos e constantes reviravoltas, pode-se interpretar o ritmo de Café com Canela como excessivamente lento. No entanto, essa impressão parece menos um problema da obra do que uma consequência das expectativas criadas pelo consumo audiovisual contemporâneo. O filme não demonstra interesse em prender a atenção por meio da urgência. Sua proposta está relacionada à observação dos personagens, à construção dos vínculos e ao tempo necessário para que seus processos emocionais sejam compreendidos.
Essa escolha exige disponibilidade do espectador, mas também constitui uma das maiores qualidades da obra. Ao respeitar o ritmo de seus personagens, o filme permite que o luto, a amizade e a reconstrução afetiva se desenvolvam de maneira convincente. As emoções não surgem como resposta imediata a eventos específicos. Elas se acumulam ao longo da narrativa e encontram força justamente na simplicidade dos encontros cotidianos.
A escolha de Cachoeira como cenário da história também chama atenção. Acostumado a ver filmes brasileiros sobre personagens negros ambientados principalmente nas periferias de grandes cidades, achei interessante encontrar uma narrativa situada no interior da Bahia. As ruas, as casas, as feiras e os espaços de convivência aparecem o tempo todo e ajudam a construir a atmosfera do filme.
A cidade faz parte da experiência dos personagens. A música, a religiosidade, as formas de convivência e os costumes locais surgem de maneira natural ao longo da narrativa. O filme não interrompe a história para explicar essas referências. Elas estão presentes porque fazem parte da vida cotidiana daquele lugar.
Ao longo da exibição, Cachoeira deixa de ser um simples pano de fundo. O espectador passa a conhecer a cidade junto com os personagens. Quando o filme termina, permanecem na memória as pessoas, os espaços, os sons e o modo de vida que a obra apresenta. Essa presença da cidade fortalece a sensação de proximidade que acompanha toda a narrativa. Como observa Valsui Júnior (2019), um dos grandes méritos do filme está justamente na construção de um retrato do Recôncavo Baiano marcado por suas singularidades e pela representação de figuras humanas genuínas.
Ao final do filme, fiquei pensando que existem obras claramente identificadas como fantasia ou ficção científica, nas quais o espectador sabe desde o início que está diante de um universo distante de sua realidade. Enquanto assistia, lembrei que muitos filmes ambientados no mundo real também produzem essa sensação de distanciamento.
Café com Canela provoca a sensação oposta. Em vários momentos, tive a impressão de estar observando situações que poderiam acontecer com qualquer pessoa. A perda de alguém querido, uma visita inesperada, uma conversa na porta de casa, um café compartilhado entre amigos ou um reencontro depois de anos. Talvez seja justamente por isso que o filme permanece na memória. Seus personagens não parecem existir apenas dentro da narrativa. Eles lembram pessoas que conhecemos, lugares que frequentamos e experiências que já vivemos ou poderíamos viver.
Referências
JÚNIOR, Valsui. Café com canela: os regionalismos de um recôncavo em ebulição. Escotilha, 15 fev. 2019. Disponível em: https://escotilha.com.br/cinema/filme-cafe-com-canela-ary-rosa-glenda-nicacio-resenha-critica/. Acesso em: 19 jun. 2026.
SOUZA, Edileuza Penha de. Café com canela e a edificação do afeto no cinema negro feminino. In: AVANCA | CINEMA 2020 – International Conference Cinema, Art, Technology, Communication. Avanca: Cine-Clube de Avanca, 2020. p. 1139-1148. Disponível em: https://publication.avanca.org/index.php/avancacinema/pt/article/view/400/786. Acesso em: 19 jun. 2026.







