Acho que nesse momento todos nós, ouro-pretanos, temos a impressão que há algo que não fecha nas contas de Ouro Preto.
Nos últimos dias, a possibilidade de um empréstimo superior a R$ 40 milhões deixou de ser apenas “conversa fiada”. O tema já apareceu em reuniões da Câmara Municipal, mencionado por vereadores, e também surgiu em conversas da reportagem com integrantes do próprio Executivo. Ainda não há um projeto oficialmente protocolado, mas o assunto circula com intensidade suficiente para despertar um debate que interessa a toda a população.
E a pergunta é inevitável: por que um município que arrecada mais estaria recorrendo a um empréstimo dessa dimensão?
Os números oficiais dos balancetes da própria Prefeitura causam estranheza.
Entre janeiro e junho de 2026, Ouro Preto arrecadou R$ 477,1 milhões em receitas correntes. No mesmo período do ano passado, foram R$ 420,3 milhões. A diferença chega a R$ 56,8 milhões, um crescimento de 13,5%.
Mais do que isso. A média mensal de arrecadação passou de R$ 70 milhões para R$ 79,5 milhões. Apenas em junho, o município arrecadou quase R$ 79 milhões, contra R$ 63,3 milhões registrados no mesmo mês de 2025.
Outro dado chama ainda mais atenção.
A Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), uma das principais fontes de receita de Ouro Preto, cresceu 28,1% no primeiro semestre. Foram R$ 53,4 milhões arrecadados neste ano, contra R$ 41,7 milhões no mesmo período de 2025. Isso representa R$ 11,7 milhões a mais entrando nos cofres municipais.
Esses dados foram extraídos dos balancetes oficiais publicados pela própria Prefeitura no Portal da Transparência.
É justamente aí que surge uma das principais contradições no momento.
Em entrevista à Rádio Real FM nesta semana, o prefeito Angelo Oswaldo afirmou que o município enfrenta dificuldades financeiras, atribuindo parte do problema ao fechamento da Mina de Fábrica, da Vale, e a uma suposta queda na arrecadação da CFEM. Os balancetes públicos, porém, mostram crescimento dessa receita no acumulado do semestre.
Pode haver explicações técnicas para essa aparente divergência. O prefeito pode ter se referido a outro período, a uma projeção frustrada ou a indicadores específicos ainda não esclarecidos. Por isso, o Mais Minas encaminhou questionamentos formais à Prefeitura, que até o momento não respondeu.
Enquanto esse esclarecimento não chega, permanece a dúvida: Se a arrecadação cresce, por que a administração considera recorrer a um financiamento milionário?
É claro que um empréstimo não é, por si só, um problema. Municípios recorrem a operações de crédito para financiar grandes obras, ampliar investimentos ou antecipar projetos estruturantes. Em muitos casos, essa pode ser uma decisão responsável.
Mas empréstimos também têm um custo. Eles comprometem receitas futuras, atravessam mandatos e, em última análise, serão pagos pela população.
Por isso, antes que qualquer projeto dessa natureza seja enviado à Câmara, a sociedade precisa conhecer com clareza três pontos fundamentais: qual será o valor da operação, onde exatamente os recursos serão aplicados e, principalmente, por que a arrecadação atual não seria suficiente para atender essas demandas.
A transparência não deveria começar depois da votação. Ela precisa anteceder qualquer pedido de autorização ao Legislativo.
Caso o empréstimo realmente seja encaminhado, caberá aos vereadores fazer uma análise rigorosa. Não basta discutir apenas o valor da operação. Será necessário avaliar a real necessidade da contratação, a capacidade de pagamento do município e, principalmente, se o problema está na arrecadação ou na forma como os recursos vêm sendo administrados.
E a principal pergunta que fica é: como um município que arrecada mais de R$ 56 milhões adicionais em apenas seis meses chega ao ponto de discutir um financiamento superior a R$ 40 milhões?
Essa é uma resposta que Ouro Preto tem o direito de conhecer antes que qualquer decisão seja tomada.
Para permitir que os leitores acompanhem a apuração e realizem suas próprias análises, o Mais Minas disponibiliza abaixo os documentos utilizados nesta reportagem.
Balancetes de 2025
- Janeiro de 2025 (PDF)
- Fevereiro de 2025 (PDF)
- Março de 2025 (PDF)
- Abril de 2025 (PDF)
- Maio de 2025 (PDF)
- Junho de 2025 (PDF)
- Primeiro semestre de 2025 (PDF)







