O silêncio tomou conta de um lugar que, por décadas, foi marcado pelo apito do árbitro, pelos treinos durante a semana e pelas partidas que reuniam atletas e famílias aos fins de semana. Hoje, o campo da Associação Atlética Aluminas, em Ouro Preto, permanece sem atividades. Para os pais de crianças e adolescentes atendidos pelo Sport Club Ouro Preto, o espaço vazio simboliza a interrupção de uma rotina que ajudava a formar atletas, fortalecer amizades e manter jovens longe da ociosidade.

A paralisação das atividades no local afetou diretamente mais de 150 crianças e adolescentes, de 8 a 17 anos, atendidos pelo projeto esportivo. Desde que o campo deixou de ser utilizado, parte dos atletas passou a treinar em Cachoeira do Campo, mas muitas famílias afirmam não ter condições de fazer o deslocamento três vezes por semana, o que levou diversos jovens a interromperem os treinos.
Ex-jogador e pai de um atleta da categoria sub-13, Flávio Fagundes diz que a mudança tem sido sentida principalmente pelas crianças. Segundo ele, o campo sempre foi um ponto de encontro da comunidade, e vê-lo vazio causa indignação:
“Desde que eu entendo de futebol, esse campo sempre teve movimento. Hoje a gente passa e vê um campo abandonado. É triste ver o brilho no olho das crianças diminuindo”, afirma.

Ele conta que a situação se tornou ainda mais difícil dentro de casa. Sempre que passa em frente ao local, precisa responder à mesma pergunta do filho: “Toda vez que a gente passa em frente ao campo, meu filho pergunta: ‘Pai, por que não está tendo treino?’. As crianças não entendem o que está acontecendo. Elas só querem o campo de volta”, relata.
A realidade também mudou para outras famílias. Karoline, uma das mães ouvidas pela reportagem afirma que o filho deixou de frequentar os treinos porque ela não consegue levá-lo até Cachoeira do Campo nos dias de atividade:
“Para mim é horrível ele não poder praticar atividade física por causa de um espaço que está parado”, lamenta.
Ela acredita que o projeto cumpre um papel que vai além do esporte: “Eles não aprendem só futebol. Aprendem a ser amigos, aprendem a dividir, aprendem a perder e aprendem a ganhar. São coisas que vão levar para a vida inteira”, destaca.

Karoline lembra que cresceu frequentando a Associação Atlética Aluminas e hoje acompanhava o filho no mesmo espaço. Para ela, o fechamento do campo interrompe uma tradição vivida por diferentes gerações da comunidade: “Enquanto eles estão ocupados na escolinha, eles não estão na rua fazendo qualquer outra coisa”, afirma.
Ela também destaca que muitas famílias enfrentam dificuldades para levar os filhos aos treinos em Cachoeira do Campo e diz que o retorno das atividades é importante não apenas para os atletas, mas para toda a comunidade: “Eu cresci dentro daquele espaço. Ver meu filho participando lá e saber que aquele clube também pode fazer parte da vida dele é muito importante”, completa.

Além do impacto na rotina das famílias, a paralisação também interfere no trabalho desenvolvido pela comissão técnica. O Sport Club Ouro Preto atende atletas das categorias sub-9 ao sub-20 e, segundo o projeto, já levou jogadores para clubes como Atlético Mineiro e Democrata de Sete Lagoas, além de receber observadores técnicos do Palmeiras. Mesmo diante das dificuldades, as equipes seguem disputando competições de base na região, mas os responsáveis afirmam que a falta do campo compromete a preparação dos atletas.
Diante do impasse, pais e integrantes do projeto iniciaram um abaixo-assinado pedindo a liberação do campo da Associação Atlética Aluminas. Segundo eles, o pedido não busca beneficiar apenas uma equipe, mas devolver à comunidade um espaço historicamente utilizado para a prática esportiva e para atividades de integração social.

O caso ocorre em meio ao processo judicial envolvendo o complexo da Associação Atlética Aluminas. A área, que inclui o campo de futebol, ginásio, quadras esportivas, creche e outros espaços comunitários, é alvo de uma ação de reintegração de posse movida pela Novelis, que reivindica a propriedade do terreno. Enquanto a disputa segue sem definição, famílias afirmam que as crianças continuam sendo as principais afetadas pela ausência de um espaço para treinar e praticar esporte em Ouro Preto.







