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CAPA Belo Horizonte

Como trabalhar em casa e cuidar dos filhos ao mesmo tempo: dicas para pais em home office nesta quarentena

Vanessa Barreto Fassheber Vanessa Barreto Fassheber
09/04/2020
em Belo Horizonte, Colunas, Dicas, Psicologia e Saúde
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O isolamento social, arma principal para o combate ao coronavírus, trouxe uma série de questões para todos nós. De um hora para a outra empresas tiveram que deslocar toda sua força de trabalho para o home office, escolas suspenderam as aulas e, pelo risco de contaminação, idosos foram especialmente indicados a evitar ainda mais o contato social.

Muitos pais estão, portanto, numa situação bastante delicada: trabalhando em casa e, ao mesmo tempo, cuidando dos filhos pequenos. E, para complicar um pouco mais, os pais não têm podido mais contar com aquele suporte que muitos avós dão nos momentos de aperto – muitos idoso estão também,isolados, em suas próprias casas. Tenho vários amigos que estão exatamente nesta situação e tenho escutado de cada um deles como tem sido desafiador administrar tantas demandas ao mesmo tempo – é o chefe que cobra um serviço, o filho que pede atenção, a reunião online que vai começar, o filho que bate à porta…

Para contribuir com os pais que estão nesta situação eu conversei com Roseane Mendonça, Psicóloga Clínica e Escolar, doutora em psicologia e especializada em atendimento à crianças e adolescentes.

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– Roseane, agradeço muito sua disponibilidade em me ajudar na construção deste post para o Portal Mais Minas. Tenho percebido muitos pais angustiados e exaustos com o acúmulo do trabalho em casa e as demandas das crianças. Como você acha que a Psicologia pode contribuir neste momento?

– Esse é um momento atípico, de muita incerteza e a psicologia, com todo o conhecimento vindo dos estudos e pesquisas de uma forma geral, traz um pouco de conforto, até mesmo um pouco de segurança sobre como nos sentimos, pensamos e agimos. Prioritariamente, é importante validarmos, frente aos nossos conhecimentos, esses sentimentos que todos estamos sentindo. É realmente esperado neste momento que estejamos ansiosos e nos sentindo um pouco perdidos sobre como agir. Não devemos nos sentir culpados por, em alguns momentos, estarmos imersos em emoções consideradas negativas, como raiva, ansiedade ou tristeza, pois emoções são parte dos seres humanos. Sentimentos são diferentes de comportamentos e elas se transformam e passam com o tempo.

Esse primeiro ponto é importante também quando pensamos na nossa relação com nossos filhos, pois eles também aprendem a lidar com suas próprias emoções por meio dos nossos modelos. Mostrar nossas frustrações e emoções desagradáveis através de comportamentos adequados é uma forma de darmos a eles a segurança de que está tudo bem que não estejamos nos sentindo bem o tempo todo.

– Alguns pais têm me procurado relatando que notam os filhos mais ansiosos por não mais ir à pracinha, ou à escola. Alguns insistem em sair e não entendem o porquê de terem que ficar “trancados” em casa ou ainda isolados de parentes, como os avós. Como você sugere que os pais conversem com eles sobre este momento?

– O cérebro da criança ainda é imaturo e vai se desenvolvendo com o passar dos tempo e as experiências vividas. Por mais que nós, adultos, expliquemos de forma simples e eles “entendam” a seriedade da situação, eles estão cheios de energia física e mental, necessária ao desenvolvimento cognitivo, motor e psicomotor. É importante nos momentos de conversa com as crianças que os pais se atentem a ouvi-los também. Como eles se sentem? Que dúvidas têm sobre esse momento? É normal que eles também se sintam ansiosos pelo momento em que tudo isso vai acabar e possam voltar a rotina à qual eles estavam acostumados. Com isso, é esperado que eles nos perguntem o tempo todo quando vai acabar, como vai ser, o que vamos fazer amanhã, que dia poderemos ir na vovó e etc., pois somos a referência maior. Contudo, não precisamos ter todas as respostas aos questionamentos deles, mas sim acolher com respeito e ser sinceros nos momentos em que não podermos respondê-los. Ouvindo é que saberemos quais são as informações necessárias em cada momento, até para não os sobrecarregarmos com mais informações do que eles são capazes de processar e causar, talvez, mais ansiedade.

E é importante que não nos esqueçamos dos adolescentes também, que neste momento estão privados de uma das tarefas de desenvolvimento mais importantes para essa etapa: a socialização. Para eles, é difícil perder a liberdade. Para alguns, os esportes e outras atividades, por exemplo, podem representar parte importante da rotina. Embora eles já tenham maior abstração para a compreensão deste momento, tal fato pode ser sim considerado um estressor. E isso pode se manifestar em oscilações de humor, maior irritabilidade e outros comportamentos. Também precisamos abrir oportunidades de diálogo com eles, de forma respeitosa e acolhedora. Uma outra ideia é a realização de um diário para expressarem suas emoções. É importante também se atentar à rotina de sono. Muitos adolescentes têm expressado estarem se sentindo ansiosos e entediados. Precisamos encorajar a criatividade deles em também se reinventar. 

– E por fim, o grande desafio: como administrar o home office e ao mesmo tempo, cuidar das crianças?

– Sabemos que, no nosso dia-a-dia, fazíamos uso de uma rede de apoio (como escola, creche e membros da família) nesse processo de socialização e desenvolvimento das crianças. E que essa rede também nos ajudava em prol da manutenção de nossa vida profissional. Então, é tempo de reinventarmos nossa rotina, de usar nossa criatividade e capacidade de adaptação. E não estou só falando de nós, famílias, mas também de outras instituições, como escolas, por exemplo, que vêm se recriando em forma de aulas online e envio de atividades.

Assim, para nos adaptarmos, é importante nos ater ao  que é imprescindível ao desenvolvimento das crianças, como a existência de uma rotina, mesmo em período tão atípico. Para conciliar o momento de trabalho dos pais e a necessidade de rotina dos filhos, uma ideia seria estruturar horários de atividades autônomas (como brincadeiras sozinhos e atividades escolares que eles consigam fazer por conta própria) e momentos de brincadeiras e atividades coletivas. Tal rotina deve ser construída coletivamente, junto dos filhos, em momento de diálogo aberto, no qual tanto adultos quanto as crianças e adolescentes possam expressar seus desejos e necessidades. Em alguns  momentos, os adultos precisam expressar suas necessidades com assertividade também, uma vez que algumas coisas não podem ser negociadas, como o fato de ter que cumprir a rotina de trabalho em home office. Ajuda em tarefas domésticas também podem ser importantes, uma vez que desenvolve senso de responsabilidade e coletividade, de sentirem-se úteis no grupo e também de ajudar de forma concreta, naquilo que elas já conseguem fazer, conforme a idade.

O tempo precisa ser organizado, não de forma a ser totalmente preenchido, mas de forma com que haja possibilidades de desenvolvimento de habilidades importantes. Deve haver tempo para as responsabilidades (como ajuda em tarefas domésticas e as tarefas escolares), tempo para brincadeiras (parte importantíssima do desenvolvimento), sejam elas livres, de faz-de-conta e brincadeiras estruturadas, TV e outras telas (de forma comedida), sono, alimentação e também não podemos esquecer dos momentos de socialização (conversar por telefone, redes sociais e videochamadas) com os avós, parentes e amiguinhos, uma vez que o isolamento social deve ser apenas físico.

Já tenho acompanhado, pelas redes sociais, brincadeiras de faz-de-contas, nas quais as crianças pequenas têm representado a rotina de home office dos pais, imitando-os. Tais brincadeiras são ótimas e representam uma forma de interpretação e significação da mudança na rotina

(Roseane Mendonça é Psicóloga Clínica e Escolar, Doutora em Psicologia pela UFJF. Atende crianças e adolescentes na abordagem da Terapia Cognitiva-Comportamental e faz orientação de pais em Belo Horizonte e Juiz de Fora-MG – por ora, dado o contexto do coronavírus, todos os atendimentos são realizados exclusivamente online. Contatos: (32)99989-4255 ou por e-mail [email protected]).

No próximo post, contarei mais uma vez com o apoio e orientação técnica da Psicóloga Roseane para trazer sugestões e dicas de brincadeiras para os pais realizarem com os filhos, em casa, no contexto do isolamento.

Até lá!

Vanessa Barreto Fassheber – CRP 04/24259

Psicóloga, Especialista em Saúde Mental, Educação em Saúde e Mestre em Ciências da Saúde

Procuro trazer um novo significado para as vivências e emoções do passado, buscando o bem estar no momento presente.

Instagram: @vanessafassheber
E-mail: [email protected]

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Vanessa Barreto Fassheber

Vanessa Barreto Fassheber

Vanessa Barreto Fassheber é Especialista em Saúde Mental, Educação em Saúde e Mestre em Ciências da Saúde. Atua há muitos anos como Psicóloga na Saúde Pública.

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